FTT - Futebol de Todos os Tempos
ENTREVISTAS COM EX JOGADORES, TECNICOS, DIRETORES E PESSOAS LIGADAS AO FUTEBOL QUE CONTRIBUIRAM DE ALGUMA FORMA PARA QUE PUDESSEMOS CONHECERMOS UM POUCO MAIS DA HISTORIA DO FUTEBOL BRASILEIRO E MUNDIAL.
domingo, 15 de janeiro de 2012
seEncontros eternizados - SOCRATES & REINALDO
Socrates e Reinaldo eram duas sensações no futebol brasileiro no ano de 1979. Aqui reunidos para uma materia da Revista Placar.
domingo, 8 de janeiro de 2012
O craque disse e eu anotei - EDU "BALA"
Na primeira semana de 2012 entrei em contato com o Edu Bala, um dos representantes da segunda Academia Palmeirense, explicando sobre o meu trabalho e ele aceitou de imediato. Trata-se de uma pessoa humilde, que me deixou muito à vontade nessa matéria realizada na sua residência.
FUTEBOL DE TODOS OS TEMPOS: Você começou profissionalmente na Portuguesa de Desportos, mas me contava a pouco que não jogava como ponta-direita. Qual era a sua função a princípio?
CARLOS EDUARDO DA SILVA (EDU BALA): O meu começo de carreira foi na Portuguesa de Desportos em 1963 e jogando no início como meia-direita. Devido a ter muitos jogadores de alto nível nessa posição, resolvi ir para a ponta-direita e graças à Deus fui muito feliz.
FTT: Por sinal me contava que quem queria que você fosse pra ponta-direita era o Sérgio Etigo, o jogador que inventou o drible do elástico, tão utilizado pelo Rivellino anos depois.
EDU BALA: Joguei na Matarazzo com o Sérgio Etigo. Ele já jogava no Corinthians nos Juvenis e nas Preliminares com o Rivellino. O Sérgio me deu muitos conselhos, dizendo pra mim jogar na ponta-direita, pois lá eu seria muito feliz.
FTT: Quando criança você tinha ídolos no futebol, jogadores dos quais te inpiravam?
EDU BALA: Teve vários jogadores que gostava, como Garrincha, Jair da Costa, Servílio, Sílvio, Canhoteiro, Maurinho e Toninho Guerreiro. Haviam muitos bons jogadores, como se tem até hoje e esperamos que o futebol brasileiro fique cada vez melhor.
FTT: Fale da sua passagem pela Portuguesa. Profissionalizou-se em 1967, jogando em um grande time ao lado de Zé Maria, Ivair Príncipe e Leivinha.
EDU BALA: Foi uma oportunidade que o técnico Filpo Nuñes me deu. Primeiro foi o Aymoré Moreyra numa excursão ao Haiti e quando voltei assinei um contrato como Profissional. O time da Portuguesa era muito bom e joguei ao lado de grandes jogadores, como Orlando, Zé Maria, Marinho, Jorge Augusto (o Edílson tinha ido pro São Paulo). Lorico, Paes, Eu, Leivinha, Ivair e Caldeira. Equipe muito forte.
FTT: Em 1969 aconteceu a sua contratação pela Sociedade Esportiva Palmeiras, sendo que no seu primeiro ano foi campeão do Torneio Roberto Gomes Pedrosa.
EDU BALA: Cheguei e já fui campeão. Logo no início estranhei um pouco, pois se tratava de um time mais de toque, sendo que na Portuguesa era mais leve e veloz, demorei pra me adaptar, mas, graças a Deus, fui bem melhor a partir do ano seguinteFTT: Quando você chegou ao Palmeiras, como ponta-direita, houve muita cobrança pelo fato de anos antes ter jogado na mesma posição o famoso Julinho Botelho?
EDU BALA: Não, porque quando cheguei já tinha o Gildo. O Palmeiras havia desmanchado a primeira Academia, com o Djalma Santos indo para o Atlético Paranaense e o Valdir estava praticamente parando. Ficaram o Luís Pereira, Baldochi, Ademir da Guia, Cabralzinho, Serginho (que era ponta-esquerda da Portuguesa Santista), Zequinha, Dorval e César. O clube contratou o Leão, Eurico, Zeca (trocado pelo Tupãzinho), Nei, Pio e Héctor Silva. Formou uma equipe forte. Tínhamos o técnico Rubens Minelli, depois veio o Oswaldo Brandão, montamos a segunda Academia e fomos muito felizes.
FTT: Por sinal, pouco antes da segunda Academia, mais precisamente em 1971, aconteceram dois jogos famosos, os 4 a 3 na partida contra o Corinthians e a final com o São Paulo sendo Bicampeão Paulista, sendo que o gol do Leivinha foi anulado. Qual é a sua lembrança desses dois grandes jogos?
EDU BALA: Nós pegamos um Corinthians forte, com uma estréia maravilhosa do Adãozinho, um grande amigo que infelizmente veio a falecer, o Tião também estava em uma tarde inspirada fazendo um gol maravilhoso e o placar reverteu varias vezes. Já no jogo contra o São Paulo, o Leivinha fez um gol de cabeça com o juiz Armando Marques anulando, dizendo que foi com a mão, mas era um ano político, do Laudo Natel (risos!), portanto tinha que ser campeão.
FTT: Começa 1972 e nesse ano o Palmeiras conquistou praticamente tudo o que disputou, como me comentou o Ademir da Guia em outra entrevista que fiz. É isso mesmo, Edu?
EDU BALA: O Sr. Brandão chegou com uma filosofia diferente dentro do Parque Antarctica, perguntando aos se queriam ser campeões. Todos disseram que sim, com certeza. Ele disse que a partir desse dia, tudo que fosse disputado deveria ser vencido.
FTT: No caso a equipe básica era formada por Leão, Eurico, Luís Pereira, Alfredo Mostarda e Zeca; Dudu e Ademir da Guia; Edu Bala, Leivinha, César Maluco e Nei. Era mesmo uma Academia?
EDU BALA: Era sim, pois tínhamos um elenco muito bom, não somente com os onze que jogavam, mas haviam também os companheiros do lado de fora que nos apoiavam, como Madurga, Pio, Ronaldo, Jair Gonçalves, Zé Mário e o falecido Fedato. Na época o Palmeiras tinha uma vantagem muito grande, como os outros grandes clubes brasileiros, que era trazer muito jogador do Interior pra compor uma equipe. O clube muito feliz em todas as contratações que fez. Começamos o ano com o Campeonato Paulista, Ramón de Carranza, Torneio na Argentina e o Brasileirão.
FTT: Esses títulos brasileiros (1972/73) eram muito comemorados por ser uma grande façanha na época, pelo fato do campeonato ter começado em 1971, pois a Taça Brasil “ainda ‘não era’ considerada” um Brasileirão oficial?
EDU BALA: Hoje é diferente, pois o clube comemora dois ou três dias, sendo que no quarto já tem jogo de novo. A maioria dos campeonatos era no final de ano, jogando até 15 ou 20 de dezembro, tirando umas férias de vinte dias, não dava tempo de treinar, pois já estava começando um novo campeonato, o treinador não conseguia formar o que queria e no começo da competição perdíamos uns três ou quatro jogos. Ficava meio complicado, mas a partir daí você começava a deslanchar, sentindo-se melhor fisicamente, sendo que hoje os treinadores não levam muita vantagem sobre isso.
FTT: Libertadores da América era uma meta na época ou, diferente de hoje, que tantos os clubes buscam conquistas?
EDU BALA: Buscam hoje porque a condição financeira é maior. Naquele tempo você era Campeão Brasileiro pra disputar uma Libertadores e seria mais um currículo para a sua carreira. Atualmente é diferente, pois não adianta me dizerem que ganhei Campeonatos Brasileiros pra disputar uma competição. Nos dias atuais é vantagem, pois os times são bem mais fracos. Na minha época pegávamos Peñarol, Boca Juniors e Nacioanal. Hoje não, pois ter time chileno, que são muito fracos, tirando a Universidad do Chile. Tem também equipes da Bolívia, Venezuela e Peru. O único que faz diferença e o futebol colombiano, que tem um estilo quase igual ao brasileiro, apesar deles levarem muito na brincadeira, por isso que dificilmente chegam a uma final de campeonato.
FTT: Houve algum título que você guarda como mais importante?
EDU BALA: Acho que todos os títulos que disputei pelo Palmeiras são inesquecíveis, para que hoje quando saio pra rua, sou respeitado como jogador. Não sou conhecido por ter jogado na Portuguesa e no São Paulo, já que fiquei quase dez anos no Parque Antarctica
FTT: Como você jogava na ponta-direita, era veloz, driblava bem e ia até a linha de fundo, diga quem eram os seus grandes rivais como laterais-esquerdos.
EDU BALA: Tiveram vários. Na época tinha o Wladimir (Corinthians), Gilberto Sorriso (São Paulo), Paulo Henrique (Flamengo), Rodrigues Neto (Fluminense), Everaldo (Grêmio), Vacaria (Internacional-RS), Valtencir e Marinho Chagas (ambos do Botafogo-RJ). Eram muito bons. O futebol brasileiro tem essa facilidade de revelar grandes jogadores e laterais. Torcemos para que os clubes que contratarem novos jogadores de outras equipes, possam se felizes na equipe grande.
FTT: Em 1976 você é convocado pela primeira vez à Seleção Brasileira, disputando seis jogos, ganhando cinco e perdendo apenas um, retrospecto, por sinal, muito bom. Na ocasião o técnico era o Oswaldo Brandão, sendo que ganharam a Taça do Atlântico, Copa Roca e Rio Branco. Qual é a sua passagem tão importante que é jogar na Seleção?
EDU BALA: Acho que é o objetivo de todos os jogadores, pois só de ser lembrado já é uma vitória dentro da sua carreira. Ir à uma Copa do Mundo já é outra história, pois na minha época tinha o Jairzinho, Rogério, Vaguinho, Natal e Tarciso, todos grandes jogadores. Pra você ir à uma Seleção tinha que superar à todos eles. Só de ter sido convocado, foi um grande passo.
Edu Bala chuta e ve o goleiro fazer uma grande defesa espalmando a escanteio.FTT: Pelo que soube, você jogava muito bem as partidas pelo Torneio Ramón de Carranza e nunca aconteceu de ser contratado por um time da Espanha. Qual foi o motivo disso?
EDU BALA: Todo o mundo dizia que na Espanha eu seria um jogador totalmente diferente. No Brasil tínhamos seis jogando num Campeonato Paulista. Lá eles voltavam de férias, embalados e bem fisicamente. A nossa condição física era menor que a deles. Tive a oportunidade de jogar nesse país quando o Leivinha e o Luís Pereira foram para o Atlético de Madrid, recebi uma proposta pra jogar no Español, mas como o Palmeiras já havia vendido dois importantes jogadores, a torcida não queria que eu fosse, sendo que acabei ficando por mais dois anos e fui contratado pelo São Paulo.
EDU VAI PARA O RIVAL SÃO PAULO
FTT: Essa transferência pro São Paulo Futebol Clube, pelo que li, foi à conselho do goleiro Émerson Leão?
EDU BALA: Praticamente quem me vendeu foi o Leão. Eu tinha uma proposta pra ir aos Estados Unidos. Também poderia jogar no Londrina. O Guarani tinha montado um excelente time pra disputar o Campeonato Brasileiro de 1978, com Zenon, Careca, Renato e Bozó, sendo campeão em cima do Palmeiras. Eu já tinha ido pro São Paulo e não fui pra Campinas, sendo que o contratado foi o Capitão. Tive uma passagem maravilhosa no São Paulo e ganhei o primeiro Campeonato Brasileiro do clube (1977).
FTT: No São Paulo você formou um trio atacante muito bom, ao lado do centroavante Serginho Chulapa e do ponta-esquerda Zé Sérgio. Fale dessa passagem no Morumbi, jogando ao lado desses jogadores se houve ciúmes da torcida palmeirense por ter ido à um clube rival ou até mesmo dos são paulinos, que podem ter ficado desconfiados por sua identificação com o Palmeiras?
EDU BALA: A verdade é que quando cheguei de Campinas, tinha um telefonema pra me apresentar no Centro da cidade com o diretor do São Paulo. Chegando lá, foi dito que havia sido vendido pelo Leão, uma pessoa que tenho um respeito muito grande, me ajudou em muitas coisas que aprendi ao longo da vida, como respeitar mais as pessoas e falar melhor nas entrevistas. Fui muito bem recebido no Morumbi, era um time forte, com Waldir Peres, Getúlio, Bezerra, Estevão (treinador atualmente), Aírton, Chicão, Neca, Darío Pereyra, Mirandinha, Zé Sérgio, Zequinha (depois foi pro Grêmio) e Serginho. O time era muito bom e até hoje mantém essa tradição de ter boas equipes.
SÃO PAULO 1978 - Em pé a partir da esq. Waldir Peres, Airton, Getúlio, Chicão, Marião e Bezerra. Agachados Edu, Teodoro , Serginho, Dario Pereyra e Ze Sergio
FTT: Você foi Campeão Paulista em 1980, mas não jogou todo o campeonato porque nesse mesmo ano foi cedido ao Sport de Recife, vencendo o título Pernambucano, ou seja, ganhou duas vezes uma competição estadual.
EDU BALA: O São Paulo tinha comprado o ponta-direita botafoguense Paulo César, conhecido como capeta. A equipe estava fazendo uma reformulação, sendo que além de mim, foram embora o Chicão, Estevão e Teodoro. Fui pro Sport, que montou um time, em minha opinião, de masters, com jogadores acima de 30 anos, como o País, Antenor, Alex (que era do América do Rio), Jaime (ex-Flamengo), Homero, Merica, Givanildo, Taborda, Píter, Jorge Campos e Edson Ratinho (ex-Atlético Mineiro). Tive a felicidade de ser campeão duas vezes nesse ano.
Mauricio Sabará e Edu Bala com as fotos dos tempos de Sport Recife.
FTT: Década de 80 começa e Edu Bala é contratado pela Universidad Católica do Chile. Sendo o único clube que jogou fora do Brasil. Qual foi a sua experiência jogando no Exterior, Edu Bala?
EDU BALA: Foi uma época boa, saí do Brasil e indo direto ao Chile, sentindo uma dificuldade muito grande por causa do frio. O Toninho já estava lá, o Colo Colo tinha o Vasconcelos e o Liminha jogava no Universidad. Um período bom nesse país, uma cidade bacana de se viver e tinha um carinho muito grande pelo povo chileno. Acho que nesse ano que fiquei, me deu muita experiência, adquiri mais cuidado com a minha carreira que estava chegando ao fim, fico muito satisfeito por todas as equipes que defendi, me dei bem em todas elas, sendo campeão várias vezes, agradecendo à Deus e aos meus pais por me darem essa condição de ser jogador de futebol.
FTT: Resumindo então, após a passagem no Chile, jogou no Santa Cruz, Uberaba-MG, Caldense, São Carlense, sendo Campeão Capixaba pela Desportiva em 1986 e jogando também no Marcílio Dias e Slatense. Já com 40 anos achou que já estava na hora de parar?
EDU BALA: Isso mesmo. Sobre parar, a família já queria isso. Não parei antes, achava que deveria continuar um pouco mais, pois acho que Deus me deu esse privilégio de ser um atleta profissional, sempre dei o melhor de mim, tive um resultado positivo, tendo a família e amigos ao meu lado, sendo que isso não tem preço que pague, ser reconhecido e respeitado.
![]() |
| Edu no Santa Cruz |
Edu Bala atualmente , segurando a foto do seu momento de gloria, o Palmeiras dos anos 70.
FTT: Hoje é dia 06/01/2012, por sinal a primeira entrevista do ano, estou estreando uma nova camisa dada pelo meu amigo Lucimar e coincidindo com a data, perguntarei sobre o goleiro Marcos, que ontem (05/01) anunciou a sua aposentadoria. O que você tem a dizer sobre esse grande goleiro?
EDU BALA: Com todo o respeito que tenho pelo Marcos, por ter tido uma carreira maravilhosa dentro do Palmeiras, recebo a notícia com alegria pelo o que ele fez e por suas conquistas, mas também com tristeza por ser mais um ídolo que está parando. Deve isso à força da sua família, da própria capacidade, educação, pelo homem que sempre foi e espero que nessa nova etapa seja feliz como foi dentro do futebol.
FTT: Edu Bala, agradecendo a matéria feita para o Blog Futebol de Todos os Tempos (FTT), parabenizando-o pela sua carreira, por sua honestidade e caráter, qualidade como jogador, desejando tudo de bom e que volte a trabalhar naquilo que gosta (Escolinha de futebol). Muito obrigado!
EDU BALA: Agradeço à você pela oportunidade pra falar sobre a minha carreira, espero que seja muito feliz, continuando com esse trabalho e que possa ter a oportunidade de ser um grande jornalista.
ENTREVISTA: Maurício Sabará Markiewicz.
FOTOS: Estela Mendes Ribeiro.
Revista do Dia - ESPORTE ILUSTRADO 1956
Na edição de 12 de Janeiro de 1956 a revista ESPORTE ILUSTRADO tras em sua capa o ponta esquerda do Flamengo Zagallo.
Encontros Eternizados - BATISTA e NELINHO
Amigos da seleção brasileira Batista recebe Nelinho para um churrasco em Porto Alegre. Agora em times rivais Batista diz a Nelinho que ele pode perder pra todo mundo de menos no Grenal. O Grêmio acabou sendo o campeão gaucho em 1980.
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
O Craque disse e eu anotei - TURCÃO
Gosto de todas as entrevistas que faço, mas confesso que tenho uma satisfação maior quando o entrevistado é um jogador bem antigo, pois terei a oportunidade de ouvir histórias de uma época que existem poucos que ainda possam contar, além de dar uma oportunidade para que os jogadores sejam lembrados, principalmente em um país onde a memória é tão desvalorizada. Turcão, junto com Oberdan Cattani (o meu primeiro entrevistado para o Blog), são os únicos remanescentes do Palmeiras da década de 40. Consegui o seu contato por e-mail através de um diretor palmeirense. Contatei-me com o ex-jogador na quarta-feira, dia 23/11/2011 e marcamos a entrevista para o dia seguinte. Com 85 anos, tem uma memória e lucidez formidáveis, concedendo-me uma maravilhosa matéria.
FUTEBOL DE TODOS OS TEMPOS: O senhor nasceu no dia 24 de Maio de 1926 no bairro da Vila Mariana, em São Paulo. Quando criança já jogava futebol?
ALBERTO CHUARI (TURCÃO): No meu tempo a molecada jogava na rua e as vezes aparecia um campo qualquer e íamos jogar lá. Depois de certo tempo apareceram muitos campos, que também foram acabando com os prédios que eram construídos.
FTT: Já torcia por algum time nessa época?
TURCÃO: O mais engraçado de tudo é que joguei no Palmeiras e São Paulo. Quando moleque falava que torcia pro Corinthians. Meu irmão brigava comigo, dizendo que tinha que torcer pelo Palmeiras. Não era tão corintiano, mas falava porque ouvia falar dele.
FTT: Pelo que soube, começou a jogar no Ypiranga.
TURCÃO: Tinha o senhor Carlos Paeta, que era oficial da Light. Ele percorreu os campos de futebol pra procurar quem gostasse praticar futebol e tentar jogar no Ypiranga. Viu-me jogando no Ás de Ouro, da Vila Mariana e me convidou. Eu só treinava no Ypiranga, pois eles não me deixaram jogar. Fui treinar no Palmeiras, jogando como Juvenil e depois virei titular.
FTT: Isso foi em 1942, quando começou a jogar no Palmeiras.
TURCÃO: Até antes, desde 1940, quando tinha uns 15 anos.
FTT: Profissionalizou-se no Palmeiras em 1945.
TURCÃO: Foi praticamente neste ano que tornei Profissional. Mas desde 1944 já jogava um jogou ou outro.
FTT: Na sua época de Palmeiras haviam grandes jogadores, como Oberdan Cattani, Eduardo Lima, Waldemar Fiúme, Caieira, Zezé Procópio e Og Moreira. Fale sobre esses jogadores, Turcão.
TURCÃO: Meu amigo, você falou de nomes que se jogassem hoje, Nossa Senhora! O Oberdan, no tempo dele, era considerado o melhor goleiro da América e, talvez, até do mundo, um fora-de-série. Os outros jogadores, como o Zezé Procópio e o Lima, eram extraordinários. Quando começo a lembrar, não paro de falar (risos!).
PALMEIRAS 1947 - Oberdan Cattani, Tulio affini, Turcão, Caieira, Waldemar Fiume, Zezé Procopio, Oswaldinho, Lula, Arturzinho, Lima e Canhotinho
FTT: Em qual posição o senhor jogava nessa época?
TURCÃO: Comecei como lateral-esquerdo pra ter chance de jogar. O que gostava mais era atuar como zagueiro-central. Quando apareceu a oportunidade, agarrei e não saí mais.
FTT: Já que o senhor jogava como lateral-esquerdo e zagueiro-central, além dos jogadores do Palmeiras que citei, enfrentou grandes jogadores dos times adversários. Citarei alguns: Luizinho, Sastre, Leônidas da Silva (todos do São Paulo) e Servílio (Corinthians).
TURCÃO: Luizinho era um monstro de jogador, advogado da Caixa e jogava um futebol maravilhoso. O Sastre, de tão bom que era, não deixou o Yeso Amalfi jogar, que também jogava muito e quando foi jogar na França, deixou os franceses de boca aberta, sendo que aqui não jogava muito por causa do desse argentino, que era algo fora do comum. Marquei o Leônidas, era extraordinário, super ligeiro, se você bobeasse um segundo estava perdido, fazia gols de bicicleta, quando dominava a bola tinha que estar junto, senão era gol. Joguei contra o Servílio, cheguei a dar um pontapé nele, que não gostou e reclamou comigo, mas também jogava muito bem.
FTT: Começa 1947 e nesse ano o Palmeiras é Campeão Paulista. Já tinha sido em 1944, com o São Paulo sendo Bi em 1945/46 e 1948/49, ou seja, eram os grandes times da década. Na final do Paulistão de 47, o Palmeiras enfrenta o Santos na Vila Belmiro, vencendo por 2 a 1 e nesse jogo Turcão faz um famoso gol, praticamente o do título.
TURCÃO: Esse gol foi quase do meio-de-campo. A bola vinha cruzando, corri e resolvi chutar, batendo com toda a minha força, atravessou o campo todo, sendo que o goleiro estava um pouco adiantado, quis voltar e ela entrou. Ganhamos o jogo por 2 a 1.
FTT: Foi um título muito comemorado pelo senhor e companheiros.
TURCÃO: Eu era um garotinho, tinha 21 anos e ainda fiz um gol. Fui carregado em triunfo e um sujeito meteu mão no meu pescoço, arrancando a minha corretinha de ouro. Tentei pegá-lo, mas ele conseguiu fugir. Estive em um Jornal e pedi que ele devolvesse. Foi devolvida e está com o meu filho até hoje.
FTT: Em 1948 enfrentou os melhores times da época, o River Plate e o Torino. Como jogavam os fabulosos jogadores do River, que tinha nomes como Di Stefano e Labruna?
TURCÃO: Muñoz, Moreno, Pedernera, Labruna e Lostau. Era duro jogar com esses caras! Não quero nem lembrar, porque me sinto mal (risos!). Marquei o Muñoz, ponta-direita do River Plate. Nós ganhamos do Boca Juniors aqui e perdemos do River lá.
Turcão, o segundo da esquerda para a direita, entre Lula e o tecnico Cambon, depois, Neno, Lima, Canhotinho, e Arturzinho, em Janeiro de 1947, um dia antes do jogo com o Boca Juniors da Argentina em que ouve empate de 2x2.
FTT: O Palmeiras é novamente Campeão Paulista em 1950, jogando no time o Jair Rosa Pinto e o Rodrigues, formando uma grande ala-esquerda. Fale da final, do Jogo da Lama, contra o São Paulo, com o time sendo campeão já em 1951.
TURCÃO: Choveu, o campo estava horroroso, tanto é que quando o Aquiles fez o gol, a bola estava parada na lama e ele chutou de primeira. O time do Palmeiras também era muito bom. Dava gosto jogar nessa época.
FTT: Em 1951 acontece uma grande surpresa na sua carreira, porque parece que o senhor queria um aumento salarial e não lhe foi concedido.
TURCÃO: Com o término do Campeonato Paulista, coincidentemente acabou o meu contrato. Todo o mundo estava ganhando bem, acima de 20 mil. O próprio Sarno, que era lateral-esquerdo, renovou com esse salário. O senhor Mário Frugiuele, que Deus o tenha, não quis me pagar este valor. Eu disse que era Campeão Juvenil, Amador e duas vezes como Profissional. Ele disse que seria 8 mil. Pedi um pouco mais, falando que o Sarno havia me contado que recebeu 20 mil e ele não gostou dele ter contado, mas falei que sabia porque éramos amigos. Falou pra eu ir para minha casa, que resolveria no dia seguinte. Na mesma noite vendeu o meu passe ao Guarani de Campinas.
FTT: Jogou pouco tempo no Guarani.
TURCÃO: Fiquei um mês. Logo em seguida o São Paulo foi me buscar. Cheguei a fazer um gol de falta em um clássico contra o Palmeiras.
TURCÃO VAI PARA O SÃO PAULO
FTT: Nessa sua fase de São Paulo, perguntarei sobre alguns jogadores que atuaram contigo, como Mauro Ramos de Oliveira, De Sordi, Alfredo Ramos, Bauer e Teixeirinha, sendo que os dois últimos enfrentaram quando jogava no Palmeiras.
TURCÃO: O Mauro era algo fora do comum, grande jogador e pessoa, um amigo que todos gostavam, morreu precocemente com câncer, craque extraordinário e elegante, altamente técnico, mas não gostava do apelido de Martha Rocha, já que a mulherada era fã dele. Já o De Sordi jogava na mesma posição que eu, como lateral-direito, tanto é que fiquei muitas vezes fora do time com ele jogando, pois atuava muito bem, comigo na reserva e aceitava por saber que melhor. Alfredo Ramos é muito tímido, não dá entrevistas, mas também era um extraordinário jogador e grande amigo. Naquele tempo as amizades eram muito boas. Até hoje sou amigo do Oberdan Cattani e dos jogadores do Palmeiras só sobraram ele e eu. Acho que o Aquiles também está vivo, mas é mais recente. Bauer enfrentei e depois joguei junto, na Copa do Mundo de 1950 foi chamado de Monstro do Maracanã, pra você ter idéia como ele jogava bem e formou com o Ruy e Noronha uma linha-média sensacional. O Teixeirinha, que se chama Elísio dos Santos Teixeira, era chamado de Português, era muito bom, só que depois veio o Canhoteiro e ele perdeu a posição.
FTT: Qual é a sua lembrança do título paulista de 1953?
TURCÃO: O Poy e o De Sordi jogavam muito. Joguei de lateral-esquerdo e o Alfredo Ramos como quarto-zagueiro. O time era excelente e quase não perdeu pra ninguém, como o Palmeiras de 1947, que praticamente ganhou de todo o mundo. Já o São Paulo de 1954/55 decaiu um pouco.
FTT: Agora falarei novamente dos adversários da sua época de São Paulo. O Palmeiras tinha uma linha de ataque que jogavam o Lima, Liminha, Humberto Tozzi, Jair e Rodrigues. Já o Corinthians jogava com Cláudio, Luizinho, Baltazar, Carbone e Mário. E a Portuguesa atuava com Julinho, Renato, Nininho, Pinga e Simão.
TURCÃO: A linha do Palmeiras foi muito boa, tanto que fui campeão com alguns desses jogadores em 1950. O ataque da Portuguesa era duro de enfrentar, ganhava dos grandes, atrapalhava a nossa vida, mas perdia pro Nacional da Comendador de Souza. Marquei o ponta-direita Julinho Botelho e ele dava muito trabalho. Os dois baixinhos, Cláudio (que eu marcava) e Luizinho, jogavam muito bem. Já o Mário ponta-esquerda era muito habilidoso pra driblar.
FTT: O Dino Sani comentava que o senhor passava bem a bola. Comente também sobre ele.
TURCÃO: Quando ele começou no Palmeiras, briguei com a diretoria do clube porque vendeu ele pro XV de Jaú. Acabou se tornando um dos melhores jogadores do mundo, jogando depois na Argentina e Itália. Eu era Profissional e o menino despontava nos Amadores, dizia que ele era craque e daria muito gosto no Palmeiras.
FTT: Inicialmente ele era meia e depois passou a jogar como volante, rivalizando com o Roberto Belangero do Corinthians nessa posição.
TURCÃO: Jogava como meia e depois virou apoiador no São Paulo, com ele deslanchando de vez. O Roberto Belangero também era um extraordinário jogador. Se você quiser falar mais, ficará cansado de ouvir sobre tantos jogadores bons (risos!).
FTT: Citarei agora um ponta-esquerda que chegou ao São Paulo em 1954, que foi dado ao senhor a incumbência de marcá-lo no primeiro treino dele. Pelo seu sorriso já sabe que estou falando de José Ribamar de Oliveira, o Canhoteiro.
TURCÃO: Quem trouxe ele pro São Paulo foi o Wilson, antigo zagueiro do Vasco, que pediu pra mim não jogar tão duro, já que o menino era magrinho. Começou o treino, sendo que na primeira bola passou por mim parecendo que eu nem existia. Na segunda, terceira e quarta a mesma coisa. Resumindo, pra não falar muito, quando acabou o treino, o Wilson veio me agradecer, dizendo que ele seria contratado e eu falei pra contratar mesmo, pois tomei um baile de um jogador que se tornou um fora-de-série. Infelizmente não tinha juízo.
São Paulo 1956 - Vice Paulista. Em pé: Desconhecido - Vicente Feola (técnico) - Riberto - Sarará - Bonelli - Turcão - Alfredo Ramos e Mauro. Agachados: Maurinho - Lanzoninho - Gino - Dino Sani e Canhoteiro.FTT: Já que citei o Canhoteiro, falarei agora do Mané Garrincha, que o senhor também enfrentou.
TURCÃO: Marquei o Garrincha também. Só pegava moleza (risos!).
FTT: Falarei agora de alguns grandes dribladores e o senhor me diz quem achava que era o melhor: Mário (ponta-esquerda do Corinthians), Luizinho Pequeno Polegar, Canhoteiro ou Garrincha?
TURCÃO: O Mário era muita frescura, driblava muito bem, mas dava muita chance aos adversários, pois me lembro de uma passagem dele quando jogava no Vasco contra o São Paulo, que ele driblou todo o mundo, parou a bola em cima da linha do gol, sendo que o zagueiro Savério tirou ela dele, com isso ele não queria ir pro vestiário, porque o Flávio Costa estava esperando-o na porta por não ter marcado, querendo o técnico bater nele. Já o Canhoteiro atacava mais. O Luizinho era habilidoso e produtivo, diferente do Mário, pois fazia as coisas muito bem feitas. Acho que o Garrincha foi o melhor driblador de todos, era muito difícil de marcar e ninguém conseguia tirar a bola dele.
Mauricio Sabará e Turcão coma foto dos tempos de São PauloFTT: Falaremos agora de uma passagem importante da sua carreira, quando jogou na Seleção Brasileira, atuando apenas em uma partida, pela Taça Bernardo O’Higgins de 1955. Chegou também a jogar pela Seleção Paulista?
TURCÃO: Cheguei a jogar na Seleção Paulista. Pela Brasileira foi mais emoção do que ação, porque não esperava jogar. O técnico disse que jogaria, em vez do De Sordi. Nós ganhamos o jogo e a Taça. Foi uma alegria fora do comum. Antes treinei pra jogar, mas o Flávio Costa me cortou depois de dois treinos, fazendo com que não participasse da famosa Copa do Mundo de 1950.
FTT: Em 1956 o senhor parou de jogar devido à um problema no joelho, quanto tinha 30 anos. No ano seguinte o São Paulo é Campeão Paulista, trabalhando como auxiliar técnico de Bela Guttmann.
TURCÃO: A contusão foi porque o argentino Bonelli caiu em cima do meu joelho em um treino. Pra mim não houve nenhum técnico como o Bela Guttmann, porque ele dava fundamentos, o que não vejo hoje, pois não se sabe cruzar uma bola.
Turcão hoje em dia e com a foto dos tempos de tricolor.FTT: Depois do título teve uma rápida passagem pelo Santa Cruz, jogando somente quatro partidas.
TURCÃO: Fiquei um mês no Santa Cruz, ganhei um torneio lá e recebi 150 mil. Eles me dispensaram. Me reapresentei no São Paulo, sendo que o diretor Manuel Raimundo disse não me querer mais no clube, falando que daria quatro ordenados para que eu fizesse o que quisesse. Uns três times me procuraram, mas não quis mais.
FTT: Por sinal nessa época é que estava surgindo o Santos de Pelé, que jogava também o Pagão e o Pepe.
TURCÃO: Não peguei esses caras, graças a Deus. Chega de sofrimento (risos!).
FTT: Citarei também alguns jogadores do Rio de Janeiro para o senhor comentar, como de Heleno de Freitas (só enfrentou na época de Palmeiras), Ademir de Menezes e Zizinho.
TURCÃO: Tive a honra de jogar uma vez contra o Heleno. Enfrentei também o Ademir. Zizinho era um monstro de jogador, sendo que depois do Flamengo e Bangu, jogou no São Paulo, sagrando-se Campeão Paulista em 1957. Outro jogador formidável foi o Waldemar de Brito, um dos Deuses do futebol.
FTT: Fale agora do seu final de carreira profissional, quando trabalhou em empresas como a Kibon e Ki-Refresco.
TURCÃO: Parei de jogar por te me machucado, tinha um rendimento com umas casas, recebendo os meus aluguéis e dava pra viver. Um dia estava jogando bocha e encontrei um amigo, Moacir Serrone, que perguntou o que eu estava fazendo. Disse que ninguém me arrumava emprego. Ele disse pra mim ir para a Kibon, pois lá iria trabalhar. Apresentei-me de camisa esporte e de barba pra fazer, já que estava tão decepcionado da vida. Falou pra mim: “O que você veio fazer aqui, pedir emprego barbudo desse jeito e de camisa esporte? Volte pra sua casa e coloque uma gravata”! Saí correndo, fui em casa (morava à um quarteirão da Kibon), tomei um banho, fiz a barba e coloquei a gravata. Quando retornei, disse “agora sim”! Apresentei-me ao senhor Manuel de Oliveira, amigo de infância, que era o gerente, dizendo-me que começaria a trabalhar no dia seguinte. Minha vida mudou da água pro vinho.
FTT: O senhor jogou em dois grandes clubes, que foram o Palmeiras e São Paulo. Quando os times jogam, tem preferência por algum, ou torce por ambos?
TURCÃO: Preferência não tenho. Gosto do Palmeiras porque comecei lá e do São Paulo, onde praticamente terminei. Fui muito bem tratado no Guarani e Santa Cruz. Torço para que esses quatro clubes sejam felizes.
ENTREVISTA: Maurício Sabará Markiewicz.
FOTOS: Estela Mendes Ribeiro.
Encontro eternizado - Ataque do Real Madrid anos 60
Santiago Bernabeu Stadium. Os 5 atacantes do lendario Real Madrid - Canario, Del Sol, Di Stefano, Puskas e Gento. O tecnico era Miguel Munoz.
Revista do dia - PLACAR 1985
A capa da revista Placar de 31 de Maio de 1985 trás os cracaços Socrates e Zico na capa.
Aqui vai nossa homenagem ao Doutor que infelizmente nos deixou esta semana. Obrigado por tudo Dr. Socrates.
Aqui vai nossa homenagem ao Doutor que infelizmente nos deixou esta semana. Obrigado por tudo Dr. Socrates.
Assinar:
Postagens (Atom)






















