FTT - Futebol de Todos os Tempos

ENTREVISTAS COM EX JOGADORES, TECNICOS, DIRETORES E PESSOAS LIGADAS AO FUTEBOL QUE CONTRIBUIRAM DE ALGUMA FORMA PARA QUE PUDESSEMOS CONHECERMOS UM POUCO MAIS DA HISTORIA DO FUTEBOL BRASILEIRO E MUNDIAL.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

O Craque disse e eu anotei - LUIZ CARLOS GALTER

Em São Paulo, na avenida Ermano Marchetti, entre a Ponte do Piqueri e o viaduto da Lapa, localiza-se a escolinha de futebol Mauro Bezerra Pinheiro, onde o ex-zagueiro Luiz Carlos Galter passa os ensinamentos que obteve em dez anos dedicados ao futebol. Há muito tempo eu já via as inscrições ESCOLINHA DE FUTEBOL ASES DA BOLA, mas nunca entrei na escola para conhecê-la. Meu pai me aconselhou entrevistar o Luiz Carlos. Entrei em contato via telefone e ele me atendeu muito bem, aceitando de imediato a entrevista, que foi realizada na própria escolinha.Confiram a matéria.


FUTEBOL DE TODOS OS TEMPOS: No dia 06 de março de 1968, o Corinthians venceu o Santos por 2 a 0, acabando com um tabu de 11 anos no Campeonato Paulista. Era a sua primeira partida contra o time da Vila Belmiro. Este jejum pesou pra você?
LUIZ CARLOS GALTER: Foi um jogo memorável, pois este tabu não existia pra mim, já que tratava-se da minha primeira partida contra o Santos. Foi uma festa enorme em São Paulo, parou a cidade e parece que tínhamos vencido um campeonato.

FTT: Sentiu dificuldades em marcar o Pelé?
LUIZ CARLOS: Sem dúvida. O Pelé foi o maior jogador que vi jogar e eu não conhecia pessoalmente. Eu joguei muito bem naquele dia e era muito difícil marcá-lo, pois ele era completo. A partir daí, todos os jogos entre Corinthians e Santos ficava aquela disputa entre Luiz Carlos e Pelé. Naquele época havia este tipo de marcação. O quarto-zagueiro ficava na marcação do meia e o zagueiro-central marcava do centroavante. Hoje não existe mais a marcação específica. Eu jogava no esquema 4-2-4, era um futebol muito ofensivo. Atualmente o futebol é mais fácil para os zagueiros. Cheguei a combater o Pelé no meio-de-campo e não tinha ninguém atrás de mim e ele passou muitas vezes.


Da esquerda para a direita vemos: Carlos Alberto Torres,
Edson Cegonha, Pelé, Luis Carlos Galter, o arbitro argentino
Roberto Goicochea e Oswaldo Cunha


FTT: Além do Rei, cite os grandes craques que você enfrentou.
LUIZ CARLOS: No Palmeiras tinha o Leivinha e o Cesar. Já no Cruzeiro eram o Tostão e o Dirceu Lopes. Na equipe do Santos, além do Pelé, havia o Toninho Guerreiro. E no Botafogo tinha o Jairzinho. Os times e os jogadores eram muito bons. Naquela época o comércio internacional não estava aberto, ninguém ia para o exterior, todos jogavam aqui, portanto os times daqui eram de nível altíssimo. Hoje não se segura ninguém. No meu tempo, o comércio da Europa era fechado.



FTT: Como foi o seu início no futebol?
LUIZ CARLOS: Comecei na várzea, no bairro do Tremembé. Com 15 anos me levaram pra fazer um teste no Corinthians. Fiz um treino e já fiquei por lá. Passei pelos infantis, juvenis e aspirantes e subi para o time principal. Fui tricampeão de aspirantes em 1965/66/67. Joguei na Seleção Paulista e Brasileira de Novos.

FTT: Fale sobre o Corinthians de 1969.
LUIZ CARLOS: Terminamos invictos o primeiro turno do Campeonato Paulista. Depois de um jogo em Sorocaba, faleceram o Lidu e o Eduardo em um desastre. Aí o time deu uma caída. Na concentração era difícil ver as cadeiras dos dois vazias. Pedi ao presidente Wadih Helu para mudarmos o local de treino. Fomos para uma chácara na Vila Mangalot, mas o time foi caindo.

FTT: Houve algum zagueiro que te inspirou?
LUIZ CARLOS: Eu gostava muito do Mauro Ramos de Oliveira. Gostei também do Djalma Dias e Ramos Delgado, que foram meus contemporâneos. O Mauro já não foi da minha época de jogador, era muito técnico e elegante.


Corinthians 69 - Em pé:Oswaldo Cunha, Ditão, Diogo,
Edson Cegonha, Luís Carlos Galter e Maciel. Agachados:
Marcos, Tales, Flávio, Rivellino e Eduardo


FTT: Comente sobre o seu ex-companheiro de zaga, o Ditão
LUIZ CARLOS: Ele sempre me apoiou quando subi para o time principal. Isto me serviu como exemplo. Infelizmente ele morreu novo. Foi um dos meus grandes amigos no futebol. Gente muito boa. Eu soube que ele tinha problema no coração em Mato Grosso, num jogo de veteranos, quando ele passou mal. Dei uns conselhos para que tratasse disto. O Ditão faleceu três meses depois, aos 51 anos de idade.


Luis Carlos e Mauricio Sabará no gramado da escolinha de futebol.


FTT: Muitas vezes você é escolhido como o quarto-zagueiro do Corinthians de todos os tempos, mesmo fazendo parte de uma época que o Timão não foi campeão paulista. Há quê você deve o carinho da torcida? Você acha que as suas atuações eram o que os corintianos queriam na época? LUIZ CARLOS: Esta eleição foi feita pela Placar em 1994. Na ocasião quem votou foram dirigentes e jornalistas. Hoje eu acho que seria elegido, porque entrou muita gente nova. Foi muito bom, com tantos jogadores que passaram. Eu era muito querido pela torcida, jogava com vontade e fui muito aplicado.


FTT: Você sente mágoa por nunca ter disputado uma Copa do Mundo?
LUIZ CARLOS: Dei um pouco de azar na Seleção Brasileira, quando vivia um bom momento, me machuquei. Depois eu voltei, mas os campeões de 1970 já tinham cadeira cativa. Cheguei a ser convocado, mas joguei apenas uma partida.Não tenho mágoa por não ter jogado na Copa do Mundo. Em 70 eu tive uma contusão no joelho e fiquei dois meses parado. Eu estava inscrito, eram 40 na época, diferente de hoje que são 30. O médico da CBF, o Dr. Mauro Pompeu, devia ter me examinado, porque o Joel Camargo e o Fontana jogaram. Teve o Piazza que era volante e foi como quarto-zagueiro. Depois eu briguei com o Zagallo. Em 74, na Alemanha, eu já estava no Flamengo, quando fui escolhido como o melhor quarto-zagueiro do campeonato. Mas como já havia brigado com o Zagallo, não fui lembrado. Em 70 era a minha grande fase, mas o Brasil foi campeão jogando um futebol bonito. Eu era convocado, mas não jogava.


Luis Carlos Galter com a camisa do Corinthians


FTT: Qual foi o motivo da sua saída do Corinthians para o Flamengo?
LUIZ CARLOS: Eu prefiro dizer que não houve acordo e renovação. Teve coisas que me magoaram na época, o presidente era o Vicente Matheus, que não foi correto comigo e alguns colegas. O Yustrich era o nosso técnico, que havia passado pelo Flamengo. Ele que ligou para o pessoal do Mengo. Como eu não dei entrevistas, o pessoal achou que eu tinha brigado. A minha estréia foi em um amistoso contra o Corinthians. Eu fui no túnel, cumprimentei o Yustrich e os jogadores. Vejam o que é o destino, ganhamos de 5 a 1, com o Zico, Dario e Geraldo jogando muito. Peguei o início desta geração. O Zico já jogava desde 73, um pouco na ponta-direita e esquerda. Em 74 o Zagallo saiu. Subiu o Joubert que era juvenil, efetivando o Zico na meia. Subiu o Cantarelli , Rondinelli e Jaime, misturando com os mais experientes e formou um bom time. O Geraldo era um grande jogador e tinha o Júnior. Joguei com o Wanderley Luxemburgo. Eu era o capitão e ele sempre chegava atrasado nos treinos. Queriam mandá-lo embora. Eu que segurava as pontas, dizia que ele era prata de casa.


FTT: Sentiu muita diferença do Flamengo para o Corinthians?
LUIZ CARLOS: O Flamengo era mais tranquilo. Não tem a mesma pressão do Corinthians.


FTT: Quais foram os outros clubes que você jogou?
LUIZ CARLOS: Joguei um ano no Operário de Campo Grande, com o Castilho como técnico, terminamos em terceiro lugar no Campeonato Brasileiro, acho que em 1977. Tínhamos bons jogadores. Eu havia sido emprestado. Como eu tinha uma pizzaria em São Paulo, preferi ficar no Coritiba, onde encerrei a carreira. Eu tive uma contusão e fiquei seis meses sem receber. Aí entrei em férias no final do ano e não voltei mais.


FTT: Houve algum treinador que você tenha gostado de trabalhar?
LUIZ CARLOS: Não sei porque já era mais experiente, mas eu gostei de trabalhar com o Castilho. O Operário jogava da mesma maneira, em casa ou fora, contra grande ou pequeno, o time jogava igualzinho. Não tirava atacante para colocar um zagueiro, nada disso. O time passava a bola sem olhar. Nosso goleiro não dava chutão, saía jogando com a gente. Tinha Liminha e o Peri ponta-esquerda. O time era bom. Eu já era mais experiente, observava melhor. O Castilho era um bom treinador.

FTT: Depois da carreira, só se dedicou à pizzaria?
LUIZ CARLOS: Trabalhei na pizzaria durante muito tempo. Em 91/92, recebi um convite pra ser treinador do Barra Mansa, no Rio de Janeiro, vizinha de Volta Redonda. Eu fiquei um ano, mas lá não tinha muita estrutura. Aí voltei. Trabalhei dezessete anos no ramo de restaurantes. Quando parei de jogar futebol, recebi uns três convites pra ser treinador. Eu estava chateado e não aceitei.


Luis Carlos e Mauricio na escolinha.


FTT: O que você tem a dizer sobre a escolinha?
LUIZ CARLOS: Comecei a trabalhar na década de 90. Entrei em um projeto da prefeitura para crianças carentes da periferia.


FTT: O que você achou das atuações dos zagueiros Lúcio e Juan contra a Coréia do Norte?
LUIZ CARLOS: São dois excelentes zagueiros. O Lúcio melhorou muito de 2002 pra cá, mas ele tem aquela mania de carregar a bola, o que zagueiro não pode fazer. Já o Juan é o zagueiro ideal, domina e toca a bola. Aquele gol no final não podia ter tomado, pois pode atrapalhar no saldo de gols. O primeiro jogo é sempre nervoso. Senti o Luiz Fabiano tenso, ansioso, querendo fazer o gol de todo o jeito, fazendo falta nos zagueiros, isso atrapalha. O Kaká ainda não está bem fisicamente. Gostei do Robinho e do Maicon.


FTT: Você acredita no Brasil nesta Copa?
LUIZ CARLOS: O Brasil é sempre um dos favoritos, quando vai pra Copa tem que ser respeitado. Mas não temos mais criatividade no meio, aquele que cria, como o Paulo Henrique Ganso, jogador canhoto, diferenciado, pelo menos na reserva. Se o Kaká machucar, quem vai jogar no lugar dele? Ele é meia-atacante que parte para cima. Faz falta um jogador como o Gérson, Ademir da Guia, Rivellino e o próprio Ricardinho recentemente. Hoje o Brasil pega a bola do outro jeito, está forte, mas diferente.


FTT: Existe alguma seleção que lembra o Brasil de antigamente, que seja candidata ao título?
LUIZ CARLOS: O futebol que mais agrada é o da Espanha. Perdeu agora há a pouco para a Suíça, com um futebol força e retranqueiro. Quem joga bem tecnicamente acaba perdendo o jogo. O toque de bola da Espanha é muito bem feito, gosto de vê-los jogar, mas por causa de um chute, perderam.

Após a entrevista, Luiz Carlos Galter me levou pra conhecer a escolinha.

REPORTAGEM: Maurício Sabará Markiewicz. FOTOS: Estela Mendes Ribeiro

7 comentários:

  1. Ficou muito legal a matéria. Pra mim foi uma satisfação entrevistar o Luiz Carlos, que me contou grandes histórias sobre a sua carreira.

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  2. Muito boa a materia. Eu por exemplo não sabia a respeito do acidente com o Lidu e o Eduardo no meio do campeonato onde ambos vieram a falecer.
    Isto parece ter dado um baque no plantel como bem disse o Luis Carlos.

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  3. Sabará, gostei muito deste bate-papo com o zagueirão! "O Flamengo não tinha pressão"!!??
    É... os tempos mudaram! rs Parabéns!

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Lida e comentada em 23/09/2010.Para mim o fato de Luis Carlos ter participado da quebra do tabu contra o Santos já o coloca na minha lista de grandes ídolos,más ele é também um visionário,pois apontou a Espanha como favorita a ganhar a Copa e acertou em cheio.Obs:Não foi um chute,foi análise de quem entende mesmo de futebol.

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  6. Luis Carlos foi um dos maiores marcadores de pelé, só lhe faltou um titulo com o corinthians.

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  7. Que saudades do coringão de antes, velhos tempos, belos dias. Saudades do querido Macedo, espero que esteja em nosso meio (planeta chamado terra). Foi muito lindo ter lido sua entrevista. Meu nome é Marcos Paulo. Grande abraço!
    Até de repente!

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