FTT - Futebol de Todos os Tempos

ENTREVISTAS COM EX JOGADORES, TECNICOS, DIRETORES E PESSOAS LIGADAS AO FUTEBOL QUE CONTRIBUIRAM DE ALGUMA FORMA PARA QUE PUDESSEMOS CONHECERMOS UM POUCO MAIS DA HISTORIA DO FUTEBOL BRASILEIRO E MUNDIAL.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

O Craque disse e eu anotei - CECI

O Ceci é um velho conhecido do meu amigo Mário Américo Netto, que tive a oportunidade de entrevistar para o Blog. Ele que fez o intercâmbio. Trata-se (junto com Djalma Santos) do único representante da grande Portuguesa de Desportos da década de 50. Tivemos uma conversa natural, em que ele se lembrava de muitos fatos da Portuguesa e dos outros clubes que atuou, como o Villa Nova e o Cruzeiro, falando com extrema naturalidade. Uma pessoa que guardei um carinho especial, juntamente com as suas simpáticas filhas (Elza e Cida). Confiram a matéria.

FUTEBOL DE TODOS OS TEMPOS: Você começou a jogar no Villa Nova da cidade de Nova Lima, em Minas Gerais, onde nasceu. Este time, na década de 30, era muito bom, pois tinha jogadores como Zezé Procópio, Perácio e Canhoto. Como jogava essa equipe?
CECI: O Zezé Procópio jogava muito, ficava jogando sozinho nos treinos para adquirir mais domínio de bola. Já o Perácio chutava bem forte, em qualquer posição do campo. E o Canhoto também era excelente, cabeceava muito bem. Havia também o Prão e o Alfredo Bernardino que foi jogar no Vasco. O meu padrinho foi o grande zagueiro Chico Preto, que veio do América Mineiro, jogando depois no Villa Nova e Campeão Paulista pelo Corinthians em 1941.
Villa Nova em 1943.
FTT: Em Nova Lima você também jogou no Retiro. Qual dos dois times tinha mais torcida?
CECI: Joguei também no Retiro. O time acabou porque não conseguia ganhar do Villa Nova ou subir. Mas o Villa tinha mais torcida. Na época que comecei a jogar sofri muito pressão do meu pai pra parar, porque jogador de futebol era considerado vagabundo, diferente de hoje que os pais até gostam quando os filhos vão jogar em um grande clube.

FTT: No Villa Nova jogou como atacante de 1941 a 1947. Quais eram os grandes adversários da época? Foi artilheiro no Villa?
CECI: Jogava como meia-direita. Os grandes adversários eram mesmo o Atlético, Cruzeiro e América. Joguei no estádio de Lourdes, Barro Preto e Alameda. Marquei bastante gols pelo Villa Nova. Joguei muito contra o Kafunga e Niginho. Eram craques de bola. Outro que gostava bastante foi o Guará, mas não cheguei a enfrentá-lo.


CECI VAI PARA O CRUZEIRO


FTT: A partir de 1947 você é contratado pelo Cruzeiro na mais cara transação do futebol mineiro. Por sinal você era um jogador bem polivalente, pois jogou como centro-médio, meia-direita e centroavante, jogando bem em todas as funções. Qual é a sua recordação de jogadores como o Paulo Florêncio, Guerino Isoni, Geraldo II, Abelardo (que foi entrevistado pelo Bruno em Belo Horizonte) e Sabu?
CECI: No Cruzeiro jogava também como meia-direita, depois o time começou a precisar de jogadores na defesa, passei a jogar como volante e me adaptei bem à função. O Paulo Florêncio veio do Siderúrgica, foi jogador da Seleção Brasileira e jogava demais, como os outros que você citou.
Jogadores do Cruzeiro preparados para uma viagem nos anos 40.


FTT: E os jogos contra o Atlético?
CECI: Eram bem disputados, mas sem as brigas que tem hoje. Eles tinham um time muito bom, com o Murilo que foi um dos melhores zagueiros que vi jogar. Tinha também o Lucas Miranda, Carlyle, Nívio, Zé do Monte e Lauro. Eram todos excelentes jogadores.

Ceci, Adelino e Didico no Cruzeiro.  Ceci pegou tempos dificeis entre o tricampeonato de 43/44/45 até  voltar a vencer em 56.



Cruzeiro final dos anos 40 - Em pé a partir da esq.Ceci, Adelino, Vicente, Oldack, Geraldo II e Duque . Agachados : Helvecio, Guerino, Nonô, Paulo Florencio e Sabu

FTT: Você jogou na Seleção Mineira. Eram jogos difíceis contra os Paulistas e os Cariocas?
CECI: Eram bem complicados. Os gaúchos e baianos também davam muito trabalho.

A MELHOR FASE DA CARREIRA NA PORTUGUESA

FTT: No início de 1951 você foi contratado pela Portuguesa de Desportos e participou daquele que é considerado o maior time da história do clube.
CECI: O time foi melhorando. Fizemos um bom Campeonato Paulista e ganhamos o Rio-São Paulo no ano seguinte. A equipe jogava com Muca, Nena e Noronha; Djalma Santos, Brandãozinho e Ceci; Julinho, Renato, Nininho, Pinga e Simão.  Oswaldo Brandão era o nosso técnico, o melhor com quem trabalhei. Djalma Santos e Brandãozinho, meus companheiros da linha-média, eram fantásticos. O Julinho Botelho foi o maior ponta-direita que vi jogar.

FTT: Fale sobre aqueles famosos 7 a 3 contra o Corinthians.
CECI: O Julinho fez quatro gols. Se tivéssemos mais 10 minutos, faríamos uns dez gols.

FTT: Comente sobre as excursões da Portuguesa no exterior.
CECI: Na Turquia fui duas vezes. Joguei também contra o Atlético de Madrid, ganhando na casa deles. Nosso time era muito bom. Ganhamos a Taça San Izidro.
Portuguesa x Atlético de Madrid

FTT: Porque você não foi convocado pra Copa do Mundo de 1954?
CECI: Eu quase fui. Acabou indo o Bauer, que era um grande jogador. Fora dos clubes que atuava, só joguei na Seleção Mineira. Nem na Paulista eu fui convocado.

FTT: Em 1955 veio a conquista do segundo Rio-São Paulo, o seu último título pela Portuguesa.
CECI: Foi um título bem importante. Mas o time de 52 era melhor e a primeira conquista marcou mais.
Jogadores da Portuguesa sendo Ceci o primeiro  a esquerda abanando a mão, comemoram o titulo do Rio-Sp de 1952

Ceci na Portuguesa


FTT: Qual foi o jogador que te deu mais trabalho ao longo da sua carreira?
CECI: O Luizinho do Corinthians era bem complicado de marcar, porque driblava demais. Ele jogava muito contra os outros adversários, mas comigo era diferente por causa da minha marcação, pois eu jogava sério e não aceitava brincadeiras, sendo que por ser bem mais forte, conseguia pará-lo com o meu corpo.

FTT: E quem te inspirou mais como jogador?
CECI: Tive mais influência quando passei a jogar na defesa. Quem eu mais gostei foi o Domingos da Guia, o melhor zagueiro que vi. O filho dele (Ademir da Guia) fazia no meio o que ele fazia na defesa.
Ceci em clássico da Portuguesa x Palmeiras.




FTT: Você parou de jogar em 1956. O Pelé fez a sua estréia pelo Santos neste mesmo ano. Nunca se enfrentaram. Se isso acontecesse, como seria a sua marcação?
CECI: Realmente nunca enfrentei o Pelé. Se acontecesse, jogaria do mesmo jeito duro, como fazia contra o Luizinho, que era muito habilidoso.

FTT: Depois de encerrada a carreira na Portuguesa de Desportos foi trabalhar nas Divisões de Base do clube.
CECI: Tomava conta da concentração. Eles tinham confiança em mim, pois passei muitos fundamentos aos novos jogadores. Tenho muito carinho pela Portuguesa, que nunca me atrasou o pagamento, um clube muito correto. O Jair da Costa passou por mim.
Djalma Santos, Brandãozinho e Ceci

FTT: O que você tem a dizer da Portuguesa atualmente? Ainda acompanha o time?
CECI: Antigamente ganhávamos de 5. Hoje, ganhar de 2, é difícil. Atualmente tem jogadores que você nem sabe de onde vieram.

Ceci atualmente com fotos dos tempos de Portuguesa a quem ele tanto dedicou amor.


Mauricio Sabará e Ceci

REPORTAGEM: Maurício Sabará Markiewicz.
FOTOS: Estela Mendes Ribeiro.

8 comentários:

  1. Entrevistar jogadores do passado é algo que faço com muito orgulho. Em um país onde a memória não é levada a sério, sinto-me na obrigação de fazer por esses ex-atletas o que os clubes deveriam fazer, ou seja, serem lembrados e reconhecidos. Obrigado, Ceci.

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  2. Parabéns Maurício.Pelo que percebi se jogasse nos dias de hoje com certeza seria um jogador muito valorizado e a Portuguesa ao meu ver merecia ter muito mais conquistas, pois sempre teve grandes times e excelentes jogadores.

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  3. Parabéns Mauricio.
    Suas entrevistas dignificam os jogadores e o futebol jogado com amor a camisa..

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  4. Ceci é o exemplo de jogador guerreiro e que tinha amor a camisa, neste caso a camisa da Portuguesa.

    Parabéns pela reportagem Mauricio.

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  5. O inesquecível e sempre glorioso Ceci, ao lado de Djalma Santos e Brandãozinho, formaram a maior intermediária de todos os tempos do futebol paulista, brasileiro e mundial...
    Não havia igual e dava gosto de vê-los jogar o verdadeiro futebol..

    Saudades, muitas saudades...

    Abraços do Amigo
    Dimas Pereira.

    Torcedor da LUSA desde 1950, e até hoje...

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  6. Como sempre faço para matar as saudades de meu falecido avô (ex-jogador e muitíssimo apaixonado por futebol), sempre realizo pesquisas pelo Google acerca do tema.
    Desta vez, me deparei com esta matéria e a do Abelardo que citam o nome de um dos grandes jogadores que Minas Gerais já viu jogar: Paulo Florêncio.
    Valorizo muito a história que o futebol nos proporciona com o saudosismo dos tempos que jogava-se por paixão, por amor ao esporte, e não pelos muitos $$$.
    Ceci e Adelardo, além de outros como Kafunga, Princesa, Geraldo II, Nicola, Chico Preto, foram alguns dos muitos nomes que ouvi em toda a minha infância e adolescência e sempre permearam o imaginário de um pequeno garoto que sempre teve em sem avô o maior ídolo! Sempre imaginei como teriam sido aqueles gloriosos tempos de Alameda, Antônio Carlos, Barro Preto, Castor Cifuentes e Prainha do Ó. Jogadores sendo carregados nos ombros dos torcedores pela cidade, após uma grande vitória do seu time.
    Parabéns pelas matérias que reacendem em nós, grandes apaixonados pelo futebol e suas histórias, a emoção de ler nomes, fatos e ver imagens de tempos tão distantes.
    Um grande abraço, do agora leitor assíduo
    Rafael Dias Florêncio

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  7. Linha média da Portuguesa de Desportos foi fantástica de fato. Inesquecível Portuguesa do começo anos 1950. Quando criança tive a oportunidade de ver jogar o goleador Nininho desta equipe da lusa, já estava no Catanduva E.C. (SP) e mostrava toda a sua técnica, conseguindo um titulo pelo clube, o de campeão da série algodeira (assim era a denominação) da segunda divisão de profissionais do campeonato paulista. Grandes recordações. Claudio Aldecir .

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