FTT - Futebol de Todos os Tempos

ENTREVISTAS COM EX JOGADORES, TECNICOS, DIRETORES E PESSOAS LIGADAS AO FUTEBOL QUE CONTRIBUIRAM DE ALGUMA FORMA PARA QUE PUDESSEMOS CONHECERMOS UM POUCO MAIS DA HISTORIA DO FUTEBOL BRASILEIRO E MUNDIAL.

domingo, 26 de junho de 2011

O Craque disse e eu anotei - LEIVINHA

Quem me passou o telefone do Leivinha foi o seu ex-companheiro Ivair, na ocasião que eu o entrevistei. Quando conversei com ele pela primeira vez, aceitou a entrevista, mas ficamos de marcar mais pela frente. Na segunda tentativa, ele aceitou e marcamos a matéria no Parque da Água Branca. Leivinha tem uma história bonita no futebol e falou com propriedade sobre a sua história e de futebol em geral. Confiram a matéria.

FUTEBOL DE TODOS OS TEMPOS: Você nasceu na cidade de Novo Horizonte em 1949.
LEIVINHA: Novo Horizonte, Estado de São Paulo, próximo a Lins. Eu quase não comento da cidade que nasci, porque com um ano de idade eu fui para Lins, ficando lá até os 16 anos, quando fui pra Portuguesa de Desportos.

FTT: Sua carreira se inicia no Linense, em 1965.
LEIVINHA: Clube Atlético Linense que, agora nesta temporada, depois de tantos anos, chegou à Primeira Divisão. Naquela época era Segunda Divisão, quando já disputava como Profissional.

Leivinha está no centro entre os jogadores agachados. Na Linense o começo de uma carreira brilhante.

FTT: No ano seguinte você foi contratado pela Portuguesa de Desportos. Fale da sua passagem pela Lusa, jogando ao lado de grandes jogadores, como Ivair, Lorico, Ratinho e Basílio.
LEIVINHA: Foi muito importante a minha chegada na Portuguesa de Desportos, porque naquela época as equipes grandes do futebol paulista, como Corinthians, Santos, São Paulo e Palmeiras, não davam com facilidade oportunidades para um jogador muito jovem como eu, preferindo mais trabalhar com jogadores famosos, que já tinham história no futebol. Já a Portuguesa era o contrário, pois como não tinha muito dinheiro para investir nos grandes jogadores da época, investia em garotos e revelações do Interior. Eu vim nessa leva, com 16 anos, muito jovem ainda, indo direto para o time de cima, porque a Lusa estava passando por uma reformulação, saindo os mais experientes e dando lugar aos jovens que estavam naquele momento. Com uma semana de treinamento, tive a primeira oportunidade, contra o São Paulo, na estréia do Didi Folha Seca, que já estava em final de carreira, jogando pouco tempo lá. Evidente que neste jogo, tomo mundo falava do Didi, sendo que ninguém conhecia o Leivinha. Tivemos sorte e ganhamos o jogo, começando a minha carreira, felizmente de muito sucesso.
Leivinha sobe para cabecear tendo a seu lado o zagueiro Brito no jogo Portuguesa e Vasco da Gama.


Portuguesa de Desportos - Leivinha é o primeiro a esquerda


FTT: Fale um pouco do seu companheiro da Portuguesa, o Ivair Príncipe, que era o grande jogador do clube.
LEIVINHA: Sem dúvida. O Ivair Ferreira era considerado o Príncipe, já que Pelé foi o Rei. Ajudou-me bastante, era o camisa 9 e eu jogava com a 8, formamos a dupla de ataque e ele, com toda a sua experiência, foi muito importante na evolução da minha carreira. Eu prezo muito essa amizade até hoje, ainda nos encontramos, tenho o maior carinho pelo Ivair e agradeço muito a ele por tudo. Temos sempre que aprender a nos espelhar em grandes jogadores, sendo que o Ivair foi um deles.

FTT: Em 1968, por sinal, você teve a sua primeira oportunidade na Seleção Brasileira, numa vitória de 2 a 1 sobre o Coritiba. Você atuou neste dia com jogadores como Félix, Dirceu Lopes, Zé Carlos, Pelé e Tostão.
LEIVINHA: Era muito difícil chegar à Seleção Brasileira jogando na Portuguesa, que não tinha muita força na CBD. Comecei a ter oportunidades em partidas amistosas. Evidentemente que eu não saía jogando, porque jogava o Pelé. Só tinha uma oportunidade quando ele saía. Neste jogo contra o Coritiba, me lembro muito bem, o Tostão também ficou na reserva. Só na hora que saiam o Pelé e o Jairzinho, entramos, juntos com aquela turma do Cruzeiro que tinha o Dirceu Lopes e Zé Carlos. Foi assim que conseguimos virar, pois saímos perdendo. Na época, como até hoje, se dizia que a Seleção não devia fazer amistosos contra clubes, porque pode sofrer uma derrota e ser encarada pela torcida como algo negativo.

FTT: Naquela época você também chegou a jogar na Seleção Paulista.
LEIVINHA: Joguei junto com o Pelé. Depois, pelo Brasil, joguei a Minicopa de 1972 e dois anos depois a Copa do Mundo na Alemanha, onde fiz as três primeiras partidas, mas infelizmente, tive uma contusão no tornozelo, logo no início do jogo contra o Zaire, fiquei fora da Copa apenas como torcedor, mas junto com os companheiros.

FTT: Você é considerado um dos grandes cabeceadores do futebol brasileiro. Quem eram os grandes da época? Sei que tinha o Dario e o Escurinho. Havia mais algum?
LEIVINHA: Realmente eram os que se destacavam mais, foram grandes cabeceadores. Eu tinha uma boa impulsão, sabedor desta virtude, treinava muito em cima disso. Temos que aproveitar as características boas que temos pra desenvolver um grande futebol. Só teve um que teve todas as virtudes fenomenais, que foi o Pelé, chutando com a esquerda e com a direita, cabeceava e até no gol era bom. Nós, pobres mortais (risos), tínhamos facilidades, essa boa impulsão, treinando em cima disso e tive muito destaque.
FTT: O Pelé, como você, também era um grande cabeceador.
LEIVINHA: Também. Tinha 1,73m, não era tão alto, mas tinha uma grande impulsão.

FTT: Você só não viu jogar o Baltazar Cabecinha de Ouro.
LEIVINHA: Infelizmente não vi, mas me falaram que realmente foi o Rei.

LEIVINHA AGORA É DO VERDÃO

FTT: Começa a década de 70, mais precisamente 1971, quando Leivinha é contratado pela Sociedade Esportiva Palmeiras. Qual foi o motivo da sua saída da Portuguesa de Desportos?
LEIVINHA: Tive um amigo muito comum, que era o Candinho, o José Cândido Sotto Mayor, treinador de futebol. Na época era um amigo, gostava de futebol e acompanhava a Portuguesa. Ele trabalhava na TV do Brás, que era de um diretor da Sociedade Esportiva Palmeiras, o Domingos Ianaconi. Foi assim que ele armou junto com os diretores a minha contratação. Então houve um interesse. Na minha posição tinha um jogador uruguaio conhecido como Héctor Silva. No início acabei não jogando, porque o Palmeiras estava jogando a Libertadores da América e eu não estava inscrito, tendo que aguardar o desfecho pra depois disputar a posição. Em um grande jogo contra o Corinthians, não tão bom pra nós, pois acabamos derrotados por 4 a 3, entrei no segundo tempo no lugar do Héctor Silva e a partir daí ganhei a titularidade, marcando um gol nesta partida logo que entrei no goleiro Ado.
Leivinha foi um grande idolo no Palmeiras tambem com grandes exibições.


FTT: Vamos também falar de uma polêmica. Pouco depois deste jogo contra o Corinthians, houve a decisão do Campeonato Paulista de 1971, sendo que você, um exímio cabeceador, fez um gol de cabeça contra o São Paulo, onde apenas o juiz viu mão na bola. Lembra bem deste lance?
LEIVINHA: Lembro perfeitamente. Na época o nosso grande rival era o São Paulo. O Santos praticamente estava em decadência, pois quando enfrentava o Pelé na época de Portuguesa, era complicadíssimo, sendo que depois já estava em final de carreira, indo depois para o Cosmos. O Corinthians não chegava até então. Já o São Paulo tinha um grande time e foi nesta decisão que ficou marcada porque tive a oportunidade de fazer um gol legítimo de cabeça, sendo anulado , achou que aos 18 minutos do segundo tempo. Nós perdíamos por 1 a 0 e, mesmo com o empate, o São Paulo seria campeão, mas naquela altura poderia mudar, pois estávamos em cima. Foi muito mal o Armando Marques e não foi a primeira vez que ele prejudicou o nosso time. O falecido Dulcídio Wanderley Boschillia, que também era árbitro, mas trabalhou neste jogo como auxiliar, correu para o meio de campo. Se tivesse alguma dúvida, o Armando deveria olhar para o auxiliar, mas era algo que ele não gostava, queria assumir tudo e ser a atração da partida, infelizmente errou, ficou marcado, perdemos o título e, até hoje, eu ainda respondo que não foi com a mão, mas legítimo, sendo que a televisão mostrou. Ficou realmente marcado por ser uma final com duas grandes equipes e há 40 anos estou respondendo a mesma coisa, que não foi com a mão (risos).

FTT: Depois desta final, o Palmeiras iniciava uma grande fase da sua história, estava prestes a surgir a Segunda Academia e com o Oswaldo Brandão como treinador. Vieram muitos títulos, como dois Campeonatos Paulistas e o Bi do Brasileirão. Como era o estilo de jogo da Academia, Leivinha?
LEIVINHA: Foi uma grande fase, principalmente em 1972, disputando cinco torneios e ganhando todos, algo muito difícil de acontecer. Era uma equipe muito competitiva, quase não tinha problemas de contusão, mantendo sempre o mesmo time e consequentemente uma regularidade impressionante. O Brandão, pra mim, foi o melhor técnico que tive a oportunidade de trabalhar e sempre tive grande admiração por ele. Tivemos sorte, tínhamos um grupo maravilhoso. Realmente a equipe foi chamada de Segunda Academia, tenho muito orgulho de ter jogado por quase cinco anos, com praticamente os mesmos jogadores, dando pra nós uma condição muito boa dentro do cenário esportivo brasileiro e, porque não, mundial, pois também ganhamos torneios importantes lá fora.
Em pé a partir da esq. Eurico, Leão, Luis Pereira, Alfredo , Dudu e Zeca. Agachados:Edu, Leivinha, Cesar, Ademir da Guia e Nei - Um timaço bi campeão brasileiro.


FTT: O que representou pra você jogadores como César e Ademir da Guia?
LEIVINHA: Importantíssimos. O meio-de-campo com Dudu e Ademir da Guia é como construir um edifício, pois você não precisará somente de engenheiros e obreiros, sendo que há necessidade de haver a complementação. O Dudu era quem marcava e carregava o piano, com o Ademir tocando como o maestro através da sua técnica refinada. Era a mesma coisa o César e eu, uma dupla que deu certo, sendo ele valente e trombador,  enquanto que eu era mais técnico, jogando mais lá atrás, lançando, um complementando o outro. Além disso não podemos esquecer dos outros jogadores, como o Leão, Eurico, Luís Pereira, Alfredo, Zeca, Edu e Nei, além dos reservas como o Ronaldo e Fedato, que eram muito importantes quando entravam. Enfim, um elenco muito competitivo, que conseguiu grandes resultados.

Leivinha correndo com Cesar e abraçando Ademir da Guia











FTT: 1972 foi uma ano importante no Palmeiras e também na Seleção Brasileira, pois justamente aí que você passou a jogar bastante com a Canarinho, ganhando nesta ocasião a Minicopa (Torneio Independência). Nas boas atuações que você teve, achou que a titularidade estava pra ser ganha?
LEIVINHA: Quando fui convocado, o titular era o Paulo César Caju. Em uma partida contra a Iugoslávia, no Morumbi, saiu o Caju, eu entrei, fiz dois gols, assumi a titularidade, joguei a final contra Portugal, quando ganhamos por 1 a 0, jogando meio tempo e entrando o Dario no meu lugar. Enfim, foi a oportunidade que tive na Seleção nessa Minicopa e, no próximo ano, na excursão que fizeram, antes da Copa do Mundo da Alemanha.

FTT: Em 73, você conseguiu uma marca histórica, que foi marcar o milésimo gol da história da Seleção Brasileira. Seu status aumentou bastante desta marca tão importante?
LEIVINHA: Pra mim foi importante, afinal pra mim conseguir 1000 gols é tão difícil (risos), pois acho que na minha carreira não consegui chegar à 350. Imagina o Pelé com mais de 1200 gols encerrando a carreira! Sempre brincava dizendo que não fiz 1000 gols, mas o milésimo estava marcado (risos). Foi um jogo tranquilo contra a Bolívia, no Maracanã, ganhamos de 4 ou 5, tive a oportunidade fazer dois gols, o milésimo e o milésimo primeiro, embora muitos preferiam que fosse um jogador muito mais famoso, já que estava iniciando o meu trabalho. Teve muito mais valor pra mim do que para a história da Seleção Brasileira.

FTT: No ano seguinte, uma grande oportunidade, que foi jogar a Copa do Mundo da Alemanha de 1974. Como você comentou antes, acabou jogando nas três primeiras partidas, mas na vitória de 3 a 0 sobre o Zaire, foi substituído pelo Valdomiro, sendo que depois disso não houve chance de voltar pra disputar os jogos restantes da Copa. Vocês acreditavam que em 74 poderiam vencer?
LEIVINHA: Na verdade foi um sonho muito grande disputar uma Copa do Mundo, era o meu objetivo, foram uns cinco jogadores do Palmeiras, sendo que apenas o Leão, Luís Pereira e eu fomos titulares. Infelizmente foi uma desilusão muito grande, principalmente da minha parte, porque no primeiro jogo foi 0 a 0 contra a Iugoslávia e mais um 0 a 0 na partida seguinte, contra a Escócia. Você imagina para um atacante, eu jogando fora da minha posição, pois o Zagallo me colocou lá na frente, sendo que tinha o Mirandinha e o César. O Jairzinho não queria jogar como centroavante, foi o Furacão da Copa anterior como ponta-direita, sendo que o Zagallo quis me colocar lá na frente, que não era a minha característica. Quem jogou na minha posição foi o Jairzinho. Com isso foi difícil acertar, o Brasil não foi bem nos dois primeiros jogos e, no terceiro, tive a infelicidade, logo no início da partida, com o goleiro do Zaire, que não tinha experiência, se jogou pra pegar uma bola que estava comigo fora da área, caindo em cima do meu tornozelo, tive um entorse muito grande, sendo obrigado a engessar, que naquela época era bem diferente de hoje, acabando a Copa do Mundo pra mim. Queria voltar pro Brasil, mas a Comissão preferiu que eu ficasse lá pra acompanhar e acabei ficando até o final. Pra mim foi uma alegria estar presente na Seleção, ser o titular, me desiludindo depois por causa de contusão. Fiquei ali torcendo, terminando a equipe na quarta colocação, merecendo talvez ficar em segundo, pois ser campeão eu acho que não merecia, porque a Holanda e a própria Alemanha tinham mais condições, já eram times mais certinhos que o Brasil.
Nelinho, Leão, Luis Pereira, Marinho Chagas, Marinho Peres e Piazza. Agachados: Valdomiro, Leivinha, Jairzinho, Rivelino e Paulo Cesar.


FTT: Depois da Copa, mais um Campeonato Paulista, sendo que o Palmeiras tinha um time acostumado a ser campeão, com dois Paulistas e Brasileiros, despontando a decisão contra o Corinthians, que fazia 20 anos que não ganhava um título nesta competição. Qual é a sua recordação desta grande final?
LEIVINHA: Foi uma das grandes alegrias que tive no futebol. O Corinthians havia sido campeão em 1954, 20 anos sem disputar um título, todo mundo sabe da pujança deste clube, com uma grande torcida e um dos times populares do Brasil. Como você disse, o Palmeiras nesta ocasião estava acostumado a disputar títulos e ser campeão. A própria mídia foi toda a favor do Corinthians, acredito que para o próprio futebol seria mais interessante ele ser campeão, sendo uma novidade depois de 20 anos. O que se viu foram 120 mil pessoas no Morumbi, sendo que mais de 100 mil eram corintianos. Os próprios palmeirenses ficaram com receio de ir, imaginando a batalha como perdida. Só nós que acreditávamos que não seria assim, pois sabíamos que tínhamos um time melhor, embora respeitássemos bastante, porque eles tinham o Rivellino, que realmente era um fora-de-série. E foi assim que fomos pra lista, conseguimos um grande resultado, vencendo por 1 a 0, o Palmeiras sendo mais uma vez campeão, valorizado por ter sido contra o Corinthians.
Abaixo  Palmeiras campeão paulista de 1974 e acimaa. Leivinha fazendo um gol contra o America MG








FTT: Após o título começa 1975 e neste mesmo ano o Palmeiras disputa o Troféu Ramón de Carranza. Houve uma partida contra o Real Madrid que você perdeu um pênalti, sendo que pouco depois, tanto você como o Luís Pereira, foram contratados pelo Atlético de Madrid. Fale da sua passagem pelo futebol espanhol, Leivinha.
LEIVINHA: Ganhamos duas vezes o Carranza e depois ganhei mais uma vez pelo Atlético de Madrid. Nós fomos contratados no avião e tinha interesse de um dia jogar na Espanha, porque minha ascendência é espanhola. Mas não queria jogar naquela época. O Palmeiras foi bem, ganhou do Real Madrid e, na volta, dentro do avião, estavam os presidentes, conversaram e se acertaram. O Luís Pereira e eu fomos consultados lá mesmo se queríamos ir pra Espanha. Fiz quatro viagens pra Madrid em quinze dias, voltando para o Palmeiras, retornando pra Espanha para acertar o contrato, voltar para o Brasil pra pegar as minhas coisas e indo pra lá em definitivo. Foi uma correria que eu não esperava, mas acabou sendo ótimo, por tratar-se de uma experiência de quatro anos.
Leivinha e Luis Pereira fotam comprados pelo Atlético de Madrid .
Leivinha brilhou no Atlético de Madrid fazendo muitos gols  no campeonato espanhol.

FTT: Foi justamente na Espanha que você sofreu a contusão mais grave do seu joelho.
LEIVINHA: A primeira contusão no meu joelho foi mesmo na Espanha, já no segundo ano. Na primeira temporada eu fui muito bem, terminamos na quarta colocação e considerado o futebol mais bonito da Espanha. O Luís Pereira teve que fazer uma cirurgia no primeiro ano. Já no segundo, eu me lesionei, ficando oito meses afastado pra poder voltar. As contusões acabaram se sucedendo. Pra mim foram importantes esses quatro anos, o time foi Campeão Espanhol em 1977, superando o Barcelona e o Real Madrid e na época éramos a terceira força da Espanha. Uma experiência importantíssima, era o país que queria estar, fui visitar a terra do meu falecido avô que morava no Interior de São Paulo. É algo que jamais poderei esquecer.

FTT: Em 1979, você retorna ao Brasil e é contratado pelo São Paulo Futebol Clube. Vi no almanaque do clube que você jogou 11 partidas e marcou apenas 2 gols, que foram justamente contra a Portuguesa.
LEIVINHA: Ganhei o passe livre depois de três anos, alugando o meu passe para o Atlético por mais um ano, porque eu não poderia ir pra outra equipe da Espanha, já que na Itália o mercado estava fechado. Resolvi ficar mais uma no e depois seria negociado com o Cosmos de Nova York, que estava praticamente acertado, pois ganhamos deles em uma partida amistosa, fui muito bem e fiz gols. O gozado é que fizemos um acordo verbal no Word Trade Center , olha a curiosidade (risos), sendo acertado que no próximo ano (abril de 1980) eu iria para o Cosmos. Fui jogar no São Paulo, pra não ficar parado, houve um interesse deles, resolvi alugar o meu passe por quatro anos (setembro a dezembro de 79) pra não ficar inativo durante esses seis meses. Infelizmente me machuquei no São Paulo, joguei pouquíssimas partidas, o pessoal lá me tratou muito bem e queriam que eu não saísse pra continuar o tratamento. Eu disse que não tinha interesse em continuar no futebol brasileiro, queria mesmo ir para os Estados Unidos, ficar mais quatro anos e depois encerrar a minha carreira. Infelizmente não deu certo, cumpri os quatro meses com o São Paulo, tentei me preparar pra ir à Nova York, mas não teve jeito e tive que terminar a minha carreira com apenas 29 anos de idade.
Leivinha no São Paulo

FTT: Depois de 79, quando você parou de jogar, como foi a sua vida no futebol?
LEIVINHA: Recebi convites pra ser treinador, mas preferia descansar, parei muito cedo, mas comecei bem jovem no Profissional, com apenas 15 anos. Estava um pouco cansado daquele ambiente, tentando mudar, fazer outras coisas, pois tive fazenda, casa noturna e confecção. Foram varias atividades pra tentar sair do mundo do futebol. Depois voltei com uma escolinha, trabalhando depois no Palmeiras na parte social com os sócios remidos. Na verdade o que sabemos fazer melhor é dentro do campo, pois todo o meu aprendizado foi no futebol. Hoje estou aposentado, não tenho tanta necessidade, graças à Deus minha vida é normal, não sou rico, mas tenho uma família muito boa, com meus filhos se formando. Antigamente não se ganhava tanto dinheiro como hoje. Não me arrependo, porque joguei em equipes grandes e nunca podia reclamar do que ganhava, pois, dentro da época, tinha um bom salário, soube aproveitar, sendo que hoje tenho uma vida relativamente tranquila.

FTT: O que você achou dos grandes times do Palmeiras na Era Parmalat, que também foi uma época vitoriosa?
LEIVINHA: Foi um time excelente o de 1993/94. O Palmeiras estava há muito tempo sem ganhar um título, conseguindo montar, graças à Parmalat, um grande esquadrão. As pessoas costumam perguntar se o da minha época era melhor ou a dos anos 90. Acho que essas comparações são odiosas, porque o futebol é diferente e muda. As vezes vai evoluindo por um lado, sendo que no outro acaba involuindo (risos). Eu, por exemplo, vejo grandes jogadores atualmente, mas na verdade era melhor antes, o futebol era mais técnico e vistoso. Hoje em dia, quando vemos um jogador como o Neymar, é de encher os olhos, porque são poucos. Antigamente tinham melhores jogadores, que sabiam driblar, enfim, era bem mais divertido.
Leivinha e Mauricio Sabará

FTT: O Santos de Neymar, por sinal, foi campeão ontem da Libertadores da América.
LEIVINHA: Pois é. Ainda mais com a volta do Ganso, um jogador com uma classe indiscutível. Ficamos torcendo por fora para que apareçam esses grandes jogadores.

FTT: Você falou do futebol atual. Teve ou tem algum jogador que lembra o seu estilo de jogar?
LEIVINHA: Não sei. Alguns falaram do Kaká quando apareceu, talvez pelo posicionamento dele, com a cabeça erguida. O Kaká esteve muito bem, depois foi pra Europa, solidificando a sua carreira. Fazer comparação assim é difícil. Acho mais fácil comparar no futebol da mesma época, porque ele muda muito, pois são épocas diferentes.

FTT: Pra finalizar, o que você tem a dizer sobre o seu sobrinho, o Lucas Leiva, que jogou no Grêmio, está atualmente no Liverpool, da Inglaterra e que foi convocado pra esta Copa América que começará em breve?
LEIVINHA: Fico muito feliz de ver o Lucas, um garoto maravilhoso, muito jovem ainda, mas determinado e disciplinado, leva bem à sério a profissão e por isso faz sucesso. É como eu falo pra ele, que “agora é contigo, pois eu sou carta fora do baralho”. Tenho mais contato com o pai do Lucas, o meu irmão. Fico feliz por ele, porque acho que merece, é muito jovem (24 anos), mas já é casado, um cara responsável e determinado, que faz da profissão um modelo, da mesma forma que faz o Kaká, só dá bons conselhos e exemplo. O Lucas é igual, pois se está aí, foi porque mereceu.

REPORTAGEM: Maurício Sabará Markiewicz.
FOTOS: Estela Mendes Ribeiro.

9 comentários:

  1. Entrevista bacana com alguém que teve história no futebol. Uma honra entrevistar um dos grandes companheiros de Ademir da Guia. Obrigado, Leivinha.

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  2. Realmente Leivinha foi um grande jogador, pena que encerrou a carreira tão cedo.

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  3. Com certeza um idolo que passou pela Lusa, e só nos deu alegria, era genial quando jogava .

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  4. Muito boa a entrevista com um dos maiores atacantes que este país já produziu.

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  5. Como sempre o Mauricio dando banho nas entrevistas, e com entrevistados de primeira grandeza.
    São jogadores que ficaram em nossos corações através do clube que amamos, e que podemos recordar e conhecer um pouco mais da história destes ídolos.
    Parabéns.

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  6. Mais uma vez uma bela entrevista do Mauricio,
    e com um grande atacante do futebol Brasileiro.

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  7. Leivinha certamente está entre os 4 maiores cabeceadores da historia do futebol brasileiro. Porem não foi bom apenas com a cabeça. Era inteligente e abria espaços para seus companheiros , aparecendo sempre bem posicionado e criando grandes tabelinhas com Ademir da Guia.É interessante que quando me falam no Atletico de Madrid sempre me vem a cabeça o Livinha que teve uma grande passagem por lá.
    Excelente materia.

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  8. Excelente jogador, também excelente caráter, o Leivinha. Uma pena, ter parado cedo, contusão no joelho, fez com que parasse.

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  9. excelente pesquisa e entrevista

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