FTT - Futebol de Todos os Tempos

ENTREVISTAS COM EX JOGADORES, TECNICOS, DIRETORES E PESSOAS LIGADAS AO FUTEBOL QUE CONTRIBUIRAM DE ALGUMA FORMA PARA QUE PUDESSEMOS CONHECERMOS UM POUCO MAIS DA HISTORIA DO FUTEBOL BRASILEIRO E MUNDIAL.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

O craque disse e eu anotei - ROGERIO

Obtive o contato do Rogério Hetmanek de uma forma bem curiosa. Recebi um e-mail da Helen, que faz parte da Fundação Mokiti Okada (M.O.A), pedindo o telefone do Leivinha, que eu já tinha entrevistado. Passei o contato dele, sendo que ela também havia passado o telefone do Rogério. Não perdi tempo e aproveitei pra me contatar com o ex-ponta na segunda-feira dia 10 e marcando a entrevista na quarta-feira dia 12. Foi uma matéria bem rápida, mas fiquei na Fundação durante três horas, pois conversar com o ex-jogador acabou sendo bem gratificante, porque é dotado de muita inteligência e sabedoria, qualidades essas adquiridas na Igreja Messiânica, da qual ele é o presidente. Confiram a matéria.

FUTEBOL DE TODOS OS TEMPOS: Você nasceu no dia 02 de Agosto de 1948 no Rio de Janeiro e me contava a pouco que começou como na várzea, mas não era propriamente um ponta-direita.
ROGÉRIO HETMANEK: O meu ídolo na época era o Pelé e eu jogava com a 10, começando na posição de meia-esquerda. Posteriormente, no Botafogo-RJ, também joguei como meia nas equipes de Base. Quando abriu uma brecha no time Profissional, foi justamente na ponta. Eu driblava muito, o treinador era o Zagallo e com o apoio do Neca, que também treinava  os times de cima, acabei me efetivando na ponta-direita e nunca mais deixei essa posição.
 Rogerio com a faixa de campeão  carioca juvenil de 1966
FTT: Jogando na ponta-direita no Botafogo, formou uma linha de ataque fantástica, ao lado de Gérson, Roberto Miranda, Jairzinho e Paulo Cesar Caju. Falei sobre essa linha.
ROGÉRIO: Essa linha de ataque realmente marcou época, pois ganhávamos tudo entre 1967 e 1969. Eu sempre cito que foi a única linha que fez parte de uma Copa do Mundo, algo que nem o Santos, na sua época áurea, conseguiu colocar os cinco. Muitos falam que o Gérson já era do São Paulo, mas conhecia a todos nós.



FTT: Por sinal o Gérson formava a ala-direita do Botafogo contigo. Comente sobre esse grande jogador.
ROGÉRIO: O Gérson foi um fora-de-série e era tido por todos nós como o maestro do time, ditando as jogadas, falava muito, ou seja, um treinador dentro do campo. Foi realmente um craque inigualável e não apareceu ninguém igual. Pensamos atualmente que o Ganso pode chegar perto, mas ainda está bem longe.

FTT: Rogério, no Botafogo você foi Bicampeão Carioca e venceu uma Taça Brasil, conquistas muito importantes. Vocês acham que eram tão badalados como o antigo ataque do time, formado por Garrincha, Didi, Quarentinha, Amarildo e Zagallo?
ROGÉRIO: Foram duas épocas marcantes no Botafogo. O time sempre esteve presente nas Copas do Mundo, com os jogadores se destacando muito. Entre 1958 e 1962, havia uma Base muito boa do Botafogo e em 70 também, além da Comissão Técnica, oferecendo bastante à Seleção Brasileira.

FTT: Qual era o lateral-esquerdo que te dava mais trabalho?
ROGÉRIO: Provavelmente o Marco Antônio, que jogava no Fluminense, pois foi quem mais enfrentei no Botafogo e Flamengo.

FTT: No final dos anos 60, o Botafogo estava numa grande fase, com praticamente todo o ataque na Copa do Mundo de 1970. Por sinal, você era o ponta-direita titular da Seleção, mas, pouco antes da Copa sofreu uma distensão muscular e acabou saindo do time do Brasil, sendo que continuou na Delegação. Conte sobre esse fato.
ROGÉRIO: Sempre digo que aquela Seleção foi uma das melhores em preparo físico para uma competição. Todos os jogadores que estavam naquela Delegação, viviam o seu auge em condição atlética. Eu já tinha certo reconhecimento no México, porque o Botafogo jogava todo o ano neste país, pois as excursões sempre passavam por lá. Realmente era uma Copa que tinha tudo pra chegar próximo ao Garrincha, revivendo-o, era uma esperança e estava no time ideal. Mas, infelizmente, devido a uma contusão fácil de ser resolvida, pois bastava fazer alongamento e eu não fiz, descobrindo isso somente quando jogava no Flamengo, o que acabou me tirando deste Mundial. Mas como estava entrosado em vários aspectos, houve um movimento do Zagallo e dos jogadores para eu ficasse na Delegação e pudesse atuar como espião junto com o Parreira, que na ocasião era o Preparador Físico. Nós observávamos todos os jogos dos possíveis adversários do Brasil, fazíamos relatórios, juntávamos os jogadores e percebemos que todas as informações que demos ao Zagallo foram aproveitadas, chegando a ganhar os jogos na véspera, neutralizando as jogadas táticas dos times que enfrentávamos  e criando as alternativas pra Seleção conquistar vitórias. Foi importante porque, de um certa forma, o que não pude fazer dentro do campo como gostaria, contribuí nessa condição de observador.
Jairzinho, Rogerio e Parreira com a Taça jules Rimet conquistada no Mexico em 1970


FTT: Termina 1970, com o Brasil campeão. Começa 71 e você é emprestado ao Santos Futebol Clube, numa troca com o Carlos Alberto Torres, pra disputar o Campeonato Paulista.
ROGÉRIO: Uma fase muito interessante. Quem me trouxe ao Santos foi o Antoninho, que sempre quando nos cruzávamos em aeroportos, ele dizia que eu iria jogar no Santos, o que realmente aconteceu, fazendo um grande esforço para que jogasse no clube. Joguei pouco tempo, porque o Flamengo, sem que eu soubesse, já estava transando a minha ida ao Rio de Janeiro. Acho que joguei apenas uns quatro meses no Santos e voltei ao Rio com o Flamengo comprando o meu passe do Botafogo. Mas no Santos também foi muito importante, excursionei com o time na Europa, jogando com o Pelé, uma pessoa fantástica, sendo que nessa época ele  anunciou que não jogaria mais na Seleção Brasileira, havendo uma campanha muito grande contra ele, pois não estava muito em forma, mas conseguiu jogar depois no Cosmos. Nós acompanhávamos, torcendo para que ele continuasse, mas, se fosse hoje, jogaria normalmente. Naquela época, quando o jogador se aproximava dos 30 anos e tivesse qualquer contusão, já achavam que tinha que parar. Atualmente quando se tem 35 anos, o pessoal acha que pode chegar aos 40.


FTT: Você é contratado pelo Clube de Regatas do Flamengo, com uma torcida gigantesca e sempre presente nos estádios. Fale sobre essa participação dos torcedores e atuando ao lado de jogadores como o Zico, Geraldo e tantos outros.
ROGÉRIO: O treinador era o Fleitas Solich e o Flamengo estava em preparação. Costumo dizer que o Botafogo levou um “no hall” muito grande  pro Flamengo, porque de repente o Zagallo foi para o clube, junto com o Admildo Chirol, Moreira, Roberto Miranda, Paulo Cesar Caju e eu. A turma que vinha das equipes de Base, como o Zico e o Júnior, acompanhando todo o trabalho que era feito, começando a jogar no time principal. Na minha época, o Zico já funcionava. Tinha também o Doval. Fomos Campeões Cariocas em 1972, contra o Fluminense e joguei na linha de ataque com o Liminha, Doval, Caio Cambalhota e Paulo Cesar Caju.
 No Flamengo Rogerio jogou junto do ex companehrio de Botafogo, Paulo Cesar. Dario que acabou se tornando o artilheiro do campeonato e Zico começando a surgir como craque.

FTT: Você também estava na Seleção Brasileira que foi campeã da Taça Independência em 1972.
ROGÉRIO: Estava sim. Foi uma grande conquista, mas não joguei nenhuma partida nesta competição.

FTT: Passada a fase do Flamengo, em 1974 você retorna ao Botafogo, jogando em num time um pouco diferente ao que atuava no final da década de 60, atuando junto com o Marinho Chagas. Como foi o final da carreira no clube que o revelou?
ROGÉRIO: Aí já peguei a fase do Paulo Amaral, que retornava. Estava entrando em forma novamente e achei que não dava mais pra continuar insistindo, a minha cabeça estava a frente do meu corpo, não acompanhava o que queria fazer, sentindo que seria forçar demais a minha natureza, resolvi não insistir e entrar em outras área que já tinha desejo, o que foi uma decisão acertada.
Estela fotografa do blog, Mauricio Sabará e Rogerio com fotos retratando a historia do craque.

FTT: Rogério Hetmanek encerra a carreira de jogador de futebol e procura novos caminhos. Hoje é presidente da Fundação Mokiti Okada. Fale do seu início na Igreja Messiânica e como funciona essa Fundação.
ROGÉRIO: Quando parei realmente de jogar futebol, sentia a necessidade de entrar pra faculdade, estudar Direito e posteriormente entrei para o campo da Filosofia, fazendo Pós-Graduação, formando-me como Mestre de Filosofia na PUC de São Paulo. Hoje estou a frente da Fundação Mokiti Okada, desenvolvendo todo o tipo de atividade educacional e artística, além de todas as formas de manifestação relacionadas à saúde, meio ambiente e comida natural sem agrotóxicos. A Fundação é bem ampla, pegando parta da atividade humana, com uma filosofia própria, respeitando a verdade da lei da natureza, algo muito interessante e até inédito, pois não estamos apenas teorizando, mas pragmatizando. Iniciamos também o curso de Teologia na Faculdade Messiânica, sou o vereador dela, estando prestes de introduzir a Pedagogia. É uma atividade que sentimos como importante para a melhoria do mundo, contribuindo efetivamente.

FTT: A Fundação também contribui com alguns shows, como pode ser visto neste cartaz da família do Jair Rodrigues.
ROGÉRIO: Estamos revivendo o Festival da Record, com os 40 anos de fundação da Mokiti Okada, criamos o Festival da Canção Arte da Natureza, colocando com tema mais de 300 canções sobre este tema, com artistas consagrados, que estão participando, com uma premiação também bem interessante, intercalando com o show do Jair Rodrigues com os seus filhos, o Jairzinho e a Luciana Mello, homenageando o Jair por ser o grande vencedor do Festival. Você e sua noiva também estão convidados para este show que acontecerá no Parque do Ibirapuera, no próximo dia 30 de Outubro. Fazemos isso junto com a Secretaria do Meio Ambiente, buscando maior conscientização do ser humano pela natureza e de sua importância. O homem pensa que ele é quem preserva ela, mas não percebe que é a própria natureza que vem preservando a vida dele há muito tempo. A extinção da natureza será antes a extinção do homem, que depende dela. Estamos dando essa consciência e, através da música, que é uma linguagem universal, preparamos esse movimento em respeito à lei da natureza.

FTT: Que bacana, Rogério. Muito obrigado pela matéria, parabenizo-o pelo grande jogador que foi e também por esse belo trabalho feito através da Fundação Mokiti Okada. Cumprimento-o com muita satisfação.
ROGÉRIO: Eu agradeço a oportunidade. Sei que você tem muito interesse em divulgar ao seu publico e pra sociedade em geral.


REPORTAGEM: Maurício Sabará Markiewicz.
FOTOS: Estela Mendes Ribeiro.

Revista do Dia - MINAS ESPORTIVA


A Revista Minas Esportiva trazia em sua capa de Dezembro de 1943 o meio campo Nogueirinha. Ele havia conquistado o primeiro titulo do clube com o novo nome de Cruzeiro neste ano.

Encontros eternizados - PAULINHO VALENTIM & CARRIZO

Encontro dos anos 60 com o lendario goleiro do River Plate Amadeo Carrizo e o maior goleador pelo Boca Juniors dos clássicos entre os dois times, o brasileiro Paulinho Valentim.

sábado, 8 de outubro de 2011

O craque disse e eu anotei - JULIÃO

Desde quando comecei as minhas entrevistas, sempre tive interesse em entrevistar o Julião, por ser um dos remanescentes do time corintiano da década de 50. Obtive o contato do filho dele (Antonio de Assis Souza Julião) através do Blog do Silvinho (http://blogdosilvinho.wordpress.com/2009/04/12/2808/). A entrevista foi mais um bate-papo, puxando assunto com ele através do que eu conheço do Corinthians desta época, além também dos outros clubes que ele atuou. Quem também participou da matéria foi o seu filho, que também foi jogador de futebol. Confiram a matéria.

FUTEBOL DE TODOS OS TEMPOS: Você nasceu em Piracicaba no dia 11 de Abril de 1929. Lembra-se de quando começou a gostar de futebol, se já torcia por algum time e quais eram os jogadores que admirava?
ANTONIO ELIAS JULIÃO: Nasci em Piracicaba. Comecei a jogar no Clube Atlético Piracicabano, onde eu era Amador, jogando em um time da roça. Desde garoto já era corintiano. Fui fã do Teleco e Servílio. Gostava também do Brandão e do Dino Pavão, pois eram todos negros como eu (risos). Quando vim para o Corinthians, todos eles, inclusive o Jango, já tinham parado.

FTT: Chegou ao Corinthians em 1950. E no ano seguinte conseguiu ser Campeão Paulista depois de dez anos, sendo que a linha-média era formada por Idário, Touguinha e Julião.
JULIÃO: Eu era o titular e o Roberto Belangero na reserva. O meu estilo de jogo, no início, era técnico, mas depois de uma fratura na perna, mudei a minha forma de jogar, passando a ser mais viril. Da mesma forma que o Idário e o Goiano, eu batia muito, mas éramos viris. O Roberto já era um jogador bem técnico, sendo que jogou também muitas partidas em 1951. No ano seguinte, quando fomos Bicampeões Paulistas, ele já era o titular e eu jogava mais atrás, como lateral-esquerdo. Sempre fui um jogador bem defensivo.
Campeão Paulista de 1951 - Idário, Touguinha, Lorena, Cabeção, Julião, Murilo e o Técnico Rato. Agachados: Claudio, Luizinho, Baltazar, Jackson e Carbone


FTT: Você participou daquela excursão à Europa, em 1952, sendo que, a partir dela, o Corinthians estabeleceu o recorde brasileiro de partidas internacionais sem perder, um total de 32 jogos. Tem lembranças desta excursão, onde jogaram na Turquia, Dinamarca, Finlândia e Suécia (http://www.youtube.com/watch?v=692RAsjMWfw)?
JULIÃO: Foi a primeira excursão do Corinthians à Europa. O time foi muito bem, perdendo apenas no jogo de estréia, contra o Besiktas, da Turquia.
Idario, Touguinha e Julião

FTT: Falarei de alguns nomes da época pra você comentar. O que achava de jogadores como o Cláudio, Luizinho, Baltazar, Mário e do presidente Alfredo Ignácio Trindade?
JULIÃO: O Cláudio Cristovam de Pinho era um excelente ponta-direita, o nosso chefe e batia muito bem as faltas; Luizinho costurava os adversários, driblava bem e acabava com o jogo; Baltazar era o Cabecinha de Ouro, saltava mais que os zagueiros, com o Cláudio centrando e ele cabeceando; o ponta-esquerda Mário era o bailarino, que driblava como ninguém; e o presidente Alfredo Ignácio Trindade exigia que ganhássemos os jogos, pois era bem bravo.

FTT: Em 1954 você foi emprestado para o Linense e não foi Campeão Paulista do IV Centenário da cidade de São Paulo.
JULIÃO: Fui bem em Lins. O Linense não estava muito bem, então acabei indo pra lá para ajudar. Dei sorte, o time não foi rebaixado, me trataram muito bem lá e no ano seguinte retornei ao Corinthians.
Julião jogou no Linense em 1954.


FTT: Começa 1955, com o Corinthians acabando de ser Campeão Paulista, você retorna ao time e jogando mais dois anos. Depois é contratado pelo Botafogo de Ribeirão Preto, tendo a honra de jogar com o seu irmão, o Benedito Julião. Gostou dessa nova fase? Fale também do clássico Come-Fogo entre o Comercial e o Botafogo.
JULIÃO: O Benedito era zagueiro-central e eu jogava como lateral-esquerdo, quarto-zagueiro (quando formava a zaga com ele) e de médio-volante. Havia o Come-Fogo contra o Comercial, que era um clássico forte e não havia favorito.

FTT: Como você jogou muito na lateral-esquerda, perguntarei de um jogador que sofreu muito a sua marcação, o Julinho Botelho.
JULIÃO: Cheguei a marcá-lo bastante. Ele era muito bom.
Botafogo RP 1957 -  Digão, Tarciso, Tiri, Guina, Antonio Julião e Machado. Agachados : Laerte, Silva, Antoninho, Henrique e Géo


FTT: E o Garrincha também?
JULIÃO: Também. Tanto ele, como o Julinho, eram infernais.

FTT: Fiquei sabendo da sua esposa que você também marcou o Pelé.
JULIÃO: Quando ele estava começando, mas foi mesmo na época do Botafogo. Eu tentava (risos). Tinha que marcá-lo duro, senão ele marcava muitos gols.

FTT: Lembra-se também de ter jogado no Jaboticabal?
JULIÃO: Também joguei. Acho que encerrei a carreira nele ou no Botafogo de Ribeirão Preto. Fiquei pouco tempo neste clube, uns três ou cinco meses, ou seja, uma passagem bem rápida pelo Jaboticabal. Parei de jogar em 1962.

FTT: Depois você foi treinador do Botafogo de Ribeirão Preto.
JULIÃO: Fui sim. Uma boa experiência.


FTT: Na Seleção Brasileira jogou apenas uma partida, no dia 24 de Janeiro de 1956, derrota por 4 a 1 para o Chile, jogo válido pelo Sulamericano do Uruguai, quando você ainda era jogador do Corinthians.
JULIÃO: Foi muito bom. O Brasil era representado nesta competição por uma Seleção Paulista e o Oswaldo Brandão foi o nosso técnico.

FTT: Você acompanha o Corinthians atualmente?
JULIÃO: Não muito, mas estou sempre no Parque São Jorge.

FTT: Gostou daquela homenagem feita pelo Movimento Pró-Corinthians, quando completou 80 anos, ganhando inclusive uma camisa com o seu rosto estampado nela?
JULIÃO: Gostei muito e fiquei bem emocionado.
Julião com Mauricio Sabará segurando uma foto dos seus tempos de idolo corinthiano



FUTEBOL DE TODOS OS TEMPOS: Agora falarei com o filho do Julião, o Antonio de Assis Souza Julião, que foi quem me ajudou a conseguir o contato com o pai. Curiosamente também era jogador de futebol. Você nasceu em 1952, quando o Julião estava excursionando com o Corinthians na Europa.
ANTONIO DE ASSIS SOUZA JULIÃO: Correto, ele estava, se não me engano, na Suécia. Havia dois recém-nascidos naquele time, que eram os filhos do Julião e do Rodolfo Carbone. Quando voltaram, as crianças já tinham quarenta dias. O filho do Carbone é conhecido como Nenê.

FTT: Como foi a relação com o seu pai como jogador de futebol? Chegou a vê-lo jogar?
ANTONIO DE ASSIS: Mesmo sendo muito novo, cheguei a vê-lo jogar no Corinthians. Morávamos na Rua São Jorge número 575. Naquela época não havia a Marginal Tietê. Nos dias dos jogos do Corinthians, com três anos de idade, já descia pra lá, todo mundo me conhecia no Parque São Jorge, via os jogos e tenho boas recordações. Quis ser jogador de futebol, porque queria ser igual ao meu herói, querendo imitar o meu pai. Mas o vi jogando mais no Botafogo de Ribeirão Preto.
Corinthians nos anos 50 - Alan, Idário, Julião, Gilmar, Olavo e Roberto Belangero . Agachados estão Cláudio, Luizinho, Rafael, Paulo Pedra e Zezé


FTT: Além do seu pai, você tinha outro ídolo no futebol?
ANTONIO DE ASSIS: Os próprios companheiros do meu pai e, indubitavelmente, o Pelé.

FTT: Nunca jogou no Corinthians?
ANTONIO DE ASSIS: Minha carreira começou no Corinthians, indo treinar nos Juvenis. Os outros garotos ficavam brincando comigo, dizendo que estava lá porque o meu pai havia jogado no clube. Resolvi ir pra outro time, pra provar que sabia jogar. Passeis pelos Juvenis do Juventus, uma temporada na Portuguesa de Desportos e fui contratado pelo Palmeiras, onde me profissionalizei.

FTT: Curiosamente foi reserva do lateral-direito do Eurico, na segunda Academia do Palmeiras.
ANTONIO DE ASSIS: Exato. Inclusive na decisão de 1974, morávamos ainda na Rua São Jorge e era uma briga pra sair de casa depois da vitória por 1 a 0. A coisa ficou difícil lá no pedaço (risos).

FTT: Chegou a jogar partidas por este time?
ANTONIO DE ASSIS: Joguei algumas partidas amistosas e, se não me engano, enfrentei o Jorge Wilsterman, da Bolívia, pela Libertadores da América, curiosamente numa Sexta-Feira da Paixão. Foi uma passagem boa, ficando lá por quatro anos. Cheguei a ser emprestado ao Pontagrossense do Paraná.
Julião, Antonio Julião (filho) e Mauricio Sabará


FTT: Como você era conhecido lá?
ANTONIO DE ASSIS: Era Julião mesmo. Tem algumas matérias dos jornais da Gazeta Esportiva da época, contando sobre este fato de ter jogado nos dois Parques, o São Jorge e o Antarctica. Foi um tempo muito bom.

FTT: O time do Palmeiras realmente era uma Academia?
ANTONIO DE ASSIS: Sim, um time muito regular e pra conseguir uma vaga ali era muito difícil. O nosso treinador era o Oswaldo Brandão, que também treinou o meu pai no Corinthians da década de 50. Inclusive ele comentava que era muito mais fácil o futebol na época dele do que no tempo que comecei a jogar, pois o preparo físico já era mais acirrado, os espaços no campo eram mais diminutos e hoje ainda é mais difícil.

FTT: Tinha também o irmão do seu pai, já falecido, que também foi jogador de futebol.
ANTONIO DE ASSIS: Correto, o Benedito Julião, falecido em 1972, por causa de um problema renal, acabou partindo.
Na foto aparece Julião jogando no Botafogo RP ao lado do ex companheiro Olavo do Corinthians


FTT: Ele formou a zaga do Botafogo de Ribeirão Preto com o seu pai.
ANTONIO DE ASSIS: Jogava de beque-central e meu pai às vezes como quarto-zagueiro. Batiam até na mãe se passasse pela frente (risos).

FTT: A sua mãe comentou que você estudou com o Sócrates.
ANTONIO DE ASSIS: Quando morava em Ribeirão Preto. Ele estudava Medicina e eu me formei em Administração de Empresas.


REPORTAGEM: Maurício Sabará Markiewicz.
FOTOS: Estela Mendes Ribeiro.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

O craque disse e eu anotei - VITOR

A entrevista com Vitor foi recheada de declarações sobre bastidores e coisas que aconteceram naquela decisão de brasileiro em 1974 e sobre a primeira versão dos Meninos da Vila em 78.. Porem  alem de historias do futebol, pude realizar esta materia em um ambiente charmoso, cultural e repleto de historias. Vitor é um conhecido marchand em Belo Horizonte, dono de uma galeria repleta de quadros sensacionais , alguns deles com altos valores. Tive ali , naquela hora de bate papo , um aprendizado sobre pintores e seus estilos alem de muita simpatia por parte do entrevistado. Homem culto , educado e que nos proporcionou uma entrevista repleta de  detalhes bem descritos por ele.
Confiram!


FUTEBOL DE TODOS OS TEMPOS - Você se inspirou em algum goleiro no inicio de carreira?
VITOR  - Dois goleiros me marcaram muito. Um que eu gostava muito era o Renato que jogou no Atletico e Flamengo. Eu achava o Renato com um poder de ação e reação extraordinario eo o outro que na parte tecnica acho que foi exemplo pra toda uma geração, pela postura, um cara carismático mesmo: Mazurkiewicz. Eu tive a sorte de iniciar no Cruzeiro e em 74 enfrentei o Mazurkiewicz. Em cada mexida, cada defesa que ele fazia eu observava.Ele fazia as coisas altamente tecnicas sem muito esforço. As coisas pareciam acontecer naturalmente, talvez pela postura dele. Ele tinha muito do Raul, aquela coisa da colocação. Raul jogava em pé, bem colocado, naquela tranquilidade. Já o Mazurkiewicz era mais voluntarioso mas resolvia as coisas da maneira mais facil pois tinha muita tecnica. Creio que ele foi fundamental para a minha carreira.


FTT - Você nem bem chegou aos profissionais do Cruzeiro e já foi convocado em 1972 para a seleção brasileira Olimpica. Uma seleçao forte com jogadores como Abel, Osmar Guarnelli, Carlos Alberto Pintinho, Falcão, Angelo, Rubens Galaxe, Nilson Dias e que acabou sendo desclassificada. O que faltou a este time?
VITOR - Na realidade o que aconteceu foi o seguinte: naquela epoca os paises socialistas não tinham seleções profissionais e usavam as seleções principais como seleções olimpicas (amadoras).  Logicamente neste periodo pré 76 a maior parte dos campeões se você pegar será a Tchecoslovaquia, Hungria, União Sovietica. Nós ainda demos azar de cair na chave da Hungria mas mesmo assim tinhamos totais condições de vencer. O nosso grupo era tão bom que acabaram sendo cortados por excesso de bons jogadores  o Zico e o Eneas. Tinham jogadores excepcionais como o Dinamite, o Dirceuzinho ponta esquerda, o Angelo, Falcão. Imagina uma zaga com Abel e Osmar Guarnelli! O Nielsen era o outro goleiro. Nós perdemos para a Dinamarca na estreia (3x2) e depois fizemos uma partida maravilhosa contra a Hungria (2x2) . Acabou que no ultimo jogo a coisa desandou e perdemos para o Irã. Não sei te dizer o que faltou ao certo mas faltou um molho aí neste time.

A Seleção Brasileira repleta de futuros craques e jogadores que fizeram historia como: Falcão, pintinho, Abel, Pires, Rubens Galaxe, Bolivar, Nilson Dias, Pedrinho  e Vitor.




NO CRUZEIRO JOGANDO ENTRE FERAS COMO TOSTÃO, DIRCEU LOPES , JOÃOZINHO & PALHINHA

FTT - O que houve com Raul no periodo de 73 e 74 que na maioria das vezes quem jogou de titular  foram o Helio e você (Vitor)?
VITOR -  Na verdade, o Helio era um goleiro muito bom tecnicamente tambem. O Raul brigou muito. Neste periodo o nosso treinador era o Ilton Chaves e ele teve uma relação muito desgastante com o Raul. A coisa acabaou complicando e o que aconteceu é que o Cruzeiro tinha tres goleiros muito bons. Quem entrava não saia. O Helio era muito bom. Teve então um jogo na semifinal do brasileiro de 73 contra o palmeiras e o Cruzeiro não jogou bem. O Ilton Chaves resolveu sacar o Helio e me lançou.Com ele era assim: jogou bem continua. E naquele time não tinha como perder pra ninguem. Um meio de campo que tinha Ze Carlos, Piazza e Dirceu Lopes era uma maquina. Dificil de perder.

Zé Carlos, Nelinho, Procopio, Vitor, Perfumo e Vanderlei . Agachados: Eduardo, Palhinha, Candido, Dirceu Lopes e Rodrigues
FTT- Você jogou ao lado de Procopio e Perfumo. Para muitos a dupla de zaga do Cruzeiro de Todos os Tempos. fale um pouco do futebol dos dois e se considera tambem a melhor dupla que o clube teve.
VITOR - Os dois jogaram juntos a maior parte do campeonato de 74. O Procopio estava voltando de uma longa contusão e voltou muito bem. Estava jogando muito.Na reta final não me lembro ao certo qual o motivo mas parece que teve um desentendimento tambem do Procopio com o Ilton Chaves. Acabou entrando o Darci Menezes. Mas o Procopio alem de uma pessoa fenomenal era um craque. A zaga Procopio e Perfumo era mesmo muito boa. O Perfumo era um craque mas jogava muito calado. Quem brigava e falava era o Procopio. Os dois eram muito tecnicos , principalmente o Perfumo. Porem o Procopio era mais vigoroso, queria ganhar tudo. Para mim eu não me lembro de uma zaga como os dois . Em posicionamento, altura, em tudo. Perfeita.

Procopio e Perfumo são eleitos na maioria das pesquisas como a zaga perfeita do Cruzeiro .

FTT - Você pegou talvez um dos melhores times na historia do Cruzeiro. A transição dos jogadores dos anos 60 como Piazza, Procopio, Piazza, Dirceu Lopes  com a nova geração de Perfumo, Nelinho, Eduardo, Roberto Batata, Palhinha e Joãozinho. O que dizer deste time?
FTT - Você falou tudo. Aquele time era excepcional. Tinha como principal pilar o Zé Carlos.Zé Carlos foi o jogador de meio campo mais tecnico que eu conheci em minha carreira. A posição que ele jogava ali como um meia armando,  era a mesma que jogavam os dois considerados os maiores do mundo, Beckenbauer e Falcão. Porem para mim os dois não chegavam na "unha" do Zé Carlos. Se Zé Carlos jogasse hoje era jogador pra ganhar mais de 1 milhão por mes. O esteio ali com Ze Carlos, Piazza e Dirceu Lopes era mesmo fantastico.

Piazza, Fontana, Perfumo, Vitor, Tostão, Eduardo, Ze Carlos, Roberto Batata, Vanderley, Repetto e Dirceu Lopes - Encontro de duas gerações em 1972


FTT - No triangular final do Brasileiro voces pegaram o Santos de Cejas, Marinho Peres, Turcão, Clodoaldo, Brecha, Pelé e Mazinho. O jogo foi no Morumbi. Se lembra desta partida?
VITOR - O Cruzeiro fez partidas excepcionais naquele ano. Me lembro de uma partida memoravel que fizemos contra o Corinthians no Pacaembu.Vencemos por 1x0. Teve outra contra o Inter.Foram jogos marcantes mas realmente este contra o Santos foi o maior deles. O Cruzeiro jogou tanta bola neste dia que teve um detalhe interessante. A defesa do Santos começou a bater, mas a bater mesmo. Só que o Cruzeiro fez 3x0 rapidamente. Foi quando o Pelé gritou lá na frente. "Não adianta voces baterem  nos caras, voces não vão bater. Voces não estão achando ninguem e não adianta ficar dando pancada . Pelé usou este termos. Perguntou aos defensores porque eles estavam batendo e disse para não baterem mais. O proprio Pelé reconheceu que eles não acharam nosso time. Nelinho e Dirceu Lopes fizeram dois golaços e um detalhe em cima do Cejas um goleiraço.


FTT - Cruzeiro e Vasco terminaram então empatados mas por ter maior maior soma de pontos a final seria no Mineirão. Acabou que a diretoria do Vasco alegou invasão de campo no jogo anterior e a partida foi transferida para o Maracanã. Como voces jogadores viram esta situação?
VITOR - O   que aconteceu foi o seguinte. Numa partida antes da do Santos o Cruzeiro jogou com o Vasco no Mineirão e o Sebastião Rufino roubou tanto , mas tanto que deixou de marcar dois penaltis clarissimos. Um foi tão indecente que os dirigentes não aguentaram e invadiram o gramado no finzinho do jogo. Se neste jogo ele tivesse apitado certo nós teriamos vencido e jogariamos em São Paulo pelo empate ou seja sairiamos de lá campeões. Bem aconteceu, e o que houve a seguir foi o seguinte. Muitos dizem que o Felicio Brandi se vendeu porque a cota da CBD para o Cruzeiro era muito boa. Uma grande injustiça que fazem com o Felicio. Não teve nada disto; a CBD forçou o Cruzeiro a aceitar a transferencia para o Maracanã pois o Cruzeiro teria uma viagem e um jogo seis dias após a final do campeonato para um torneio nos Estados Unidos e Canadá.. Uma excursão muito boa do Jorge Guttman e que naquela epoca gerava muita receita aos clubes. Então o que ocorreu foi que a CBD falou "ou voces veem para o Rio ou não viajam para o exterior" e acabou o assunto. Para se ter ideia, naquela epoca uma excursão destas representava tres meses de salario do clube, não é como nos dias atuais.Quero aproveitar para fazer esta correção na historia pois o Felicio Brandi foi um homem fantastico  e que preparou o Cruzeiro para ser o que é hoje.O maior presidente até hoje.

 
FTT - E a  mudança de local do jogo foi de repente, o prazo era curto para a final e a excursão.
VITOR - Foi de um dia para o outro. Uma correria pra arranjar hotel, campo pra treino, avião.

FTT - E a torcida do Cruzeiro conseguiu comparecer em bom numero mesmo tendo que se mobilizar de uma hora para outra?
VITOR - Ah foi sim. Eu acho que tinham uns 8 mil cruzeirenses presentes.
Lance da final aparecendo Roberto Batata, Ze Carlos, Luis Carlos (V), Piazza, Roberto Dinamite (V) e Perfumo

FTT - Esquecendo a inversão de mando de campo no jogo você acha que o Armando Marques foi tendencioso ou o Vasco foi mesmo melhor?
VITOR - O Vasco tinha um bom time mas o Armando Marques foi decisivo neste jogo.

FTT - O que Armando Marques alegou no gol de Ze Carlos aos 44 minutos do segundo tempo ?
VITOR -  Ninguem sabe. Até hoje ele não falou. O bandeira que estava do lado de lá era o Oscar Scolfaro na época um dos grandes juizes do Brasil. Para você ter ideia, estávamos saindo do vestiario eu, Dirceu Lopes e Nelinho, arrasados. Na saida perto do vestiario dos juizes nos encontramos com o Scolfaro e ele gostava muito do Dirceu Lopes. Então ele se aproximou e disse : "ohh baixinho, quero te pedir desculpas por este erro monumental do meu colega. Lamento profundamente."  Você ve que ele era o bandeira e corre para o meio de campo validando o gol. Você ve que quem cruza a bola é o Baiano que entrou no lugar do Eduardo. Se a bola estivesse pelo menos proxima da lateral ou coisa parecida mas não....a bola estava mais de 1 metro dentro do campo. O Zé Carlos quando sentiu o lançamento, aproveitou que o Miguel e Moises estavam mal posicionados, saiu por trás deles e ficou sozinho na cara do Andrada. Eu acho que talvez seja o gol mais escandalosamente roubado da historia do futebol mundial. Eu já disse muitas coisas que eu tinha pra dizer sobre o Armando Marques, ao Milton Neves a Placar e ele ameaçou me processar. Eu não estou nem aí. Na copa de 1978 o Carlos Alberto Cavaleiro confidenciou para o Nelinho que na tarde daquele jogo o senhor Antonio do Passo , que era igualzinho ao Eurico Miranda só que ele era mafioso , não falava chegou na sede da CBD e presenciou  o Antonio do Passo falando para o Armando Marques: olha Armandinho, se o Vasco não for campeão brasileiro sua carreira de arbitro se encerra aqui hoje. Quem confidenciou isto ao Nelinho  foi o Carlos Alberto Cavalheiro um homem serissimo. O Antonio do Passo não era apenas dirigente do Vasco . Para quem não sabe ele era inspetor da CBD tambem. Tinha influencia direta lá dentro.  Você pode perguntar pra qualquer um que estava em campo seja o Piazza,, Ze Carlos, Nelinho, Palhinha qualquer um. Todos pensam somente neste lance do gol mas foi muito mais complicado. O Piazza era capitão e qualquer coisa que ele ia falar o Armando já gritava: capitão, capitão se falar mais alguma coisa vai pra rua. Do lado de lá o Miguel e Moisés batendo com força e o Palhinha tomando porrada. O Armando chegava pra ele e dizia: senhor Wanderlei, Wanderlei Eustaquio não caia que eu não vou marcar falta dizia ele com aquele vozinha caracterisrtica dele. Do lado de lá, o Perfumo com aquela elegancia dele nem encostava nos caras do Vasco e o Armando dava falta. Qualquer um que caia ele falava que iria expulsar. Foi amarrando nosso time, travando todo mundo. Ele não só anulou um gol legitimo como sufocou o time do Cruzeiro. O Armando era um cara muito inteligente , muito bom  juiz só que não fazia as coisas para o bem. Tecnicamente era bom só que fazia as coisas que interessava para ele.

Primeiro gol do Vasco com Ademir chutando cara a cara e  Vitor tentando fazer a defesa 
FTT - Você revendo o lance do segundo gol vascaino faria algo diferente hoje ou acha que levou azar ?
VITOR - Eu falhei no segundo gol. Foi meio que uma alto defesa. Eu havia me machucado no jogo anterior e ralei minha coxa de cima em baixo. Para você ter ideia tive de voltar de calçaõ no avião tamanho foi o ferimento. O gramado do Morumbi naquela epoca não era como hoje em dia. Parecia uma quadra de cimento, duro e seco.Eu ralei numa saida nos pés do Brecha e noutra jogada nos pés do Pelé.Chegou a vespera do jogo e o Ilton Chaves me disse que eu é quem iria decidir se dava para jogar. Fui para o jogo pois não queria perder aquela chance mas sem totais condições.

FTT - Você lembrou do gol anulado e falou do Andrada. Outro grande goleiro.
VITOR - O Andrada foi um cara que inovou com aquela devolução rapida dando uma chicotada na bola e não aquele costumeiro balão. Hoje você ve o Rogerio Ceni fazendo muito isto e puxando aquele contra ataque.Andrada é o precursor. É a escola Andradiana. Ele era um goleiro que tinha algumas firulas, tinha aquela mania de quando caia rolava pra lá pra cá, outras parecia estar desmaiado mas tecnicamente ele era muito bom. Se fizessem uma seleção deste jogo Cruzeiro e Vasco entrariam do time deles apenas o Andrada e o Roberto Dinamite.

FTT - E você?
VITOR - Não, Andrada era superior a mim. Era muito bom goleiro.

FTT - O que dizer do Roberto Dinamite?
VITOR - O Roberto foi fantastico. Ele não tinha aquele deslumbre dentro da  area que aliás,  o maior que eu vi neste quesito se chama Reinaldo. Nem Pelé superou o Reinaldo dentro da area. Porem o Roberto chutava muito bem e se posicionava sempre no lugar certo. Artilheiro nato.

Darci Menezes teve muito trabalho com Roberto Dinamite na final do Brasileiro de 1974.

FTT - Você disse que apenas cinco dias após a final O Cruzeiro viajaria para amistosos nos Estados Unidos. O primeiro deles foi contra o Benfica muito forte na epoca.
Vitor - Foi um espetaculo este jogo. Uma partida onde o Benfica começou estraçalhando o Cruzeiro e fez 3x0 em 15 minutos de jogo. Nosso time estava atordoado e perdido em campo. Aos poucos foi equilibrando e se não me engando fizemos um gol e terminamos o primeiro tempo perdendo por 3x1. (Na verdade foi 3x2, Zé Carlos e Roberto Batata ) . No intervalo eu falei com o Ilton chaves para colocar quem realmente estava bem e com vontade de jogar. O time então cresceu e o jogo era lá e cá.Tinham os antigos craques do Benfica como o Eusebio, Humberto, Simões e novatos como o Nenê e Jordão.

FTT - Pelo que vejo você era um jogador que não gostava de perder.?
VITOR - É verdade. Sou um cara que brigava , mas sempre fui jogador de fechar com o grupo e não aceitava jogador fazendo corpo mole. Ocara começava a sair pra balada eu chamava o cara e falava com ele junto do grupo. Nunca levava pra imprensa e resolviamos ali. dizia que ele estaria nos prejudicando . Outra coisa: se era para discutir premio, discutiamos mas eu não aceitava jogador fazer corpo mole. Eu preferia ganhar 10 mil reais e ser campeão do que ganhar um milhão e perder o titulo. Quando eu entrava no campo eu queria ganhar, queria matar. Eu acho muito certo o jogador reinvindicar um melhor premio, um mlehor salario mas na hora de entrar em campo eu não aceitava o cara pensar apenas nele. Tinha o clube ali representadoe toda uma nação.Para você ter ideia eu jofuei dois anos no Santos e ganhei uma placa escrita: Simbolo da raça santista." Isto me marcou muito pois eu queria morrer mas não queria perder.Então as vezes acontece que o jogador se chateia por uma bobagem ou as vezes nem é bobagem, é um direito dele mas eu acho que se entrou em campo ele tem de esquecer aquilo ou então não entra.


Eusebio e Vitor em partida amistosa disputada nos Estados Unidos - Benfica 5x3 Cruzeiro
FTT - Porque acabou saindo do Cruzeiro?
VITOR - O Raul já tinha voltado a algum tempo e era o titular. Eu na reserva até que no final de 77 entrando em 78 o Cruzeiro fez uma reformulação. trouxeram o Ze Duarte tecnico da Ponte Preta e ele trouxe o Luiz Antonio, por sinal um belo goleiro. O Raul saiu para o Flamengo e apareceu então o convite do Santos através do Formiga. O Ze Duarte começou então a desmontar o time do Cruzeiro. O Piazza acabou resolvendo parar, dispensou o Ze Carlos que acabou sendo campeão brasileiro no Guarani e eu fui para o Santos.

VITOR E O SURGIMENTO DOS MENINOS DA VILA

FTT - Você  foi então fazer parte dos Meninos da Vila.
VITOR - Fui mas na epoca dava até para assustar. O Santos estava sem credito, tinha uma estrutura muito ruim e meio que desmantelado.  A diretoria nova então trouxe o Formiga que foi muito inteligente e resgatou o Clodoaldo que estava meio brigado e colocou o como lider assim como o Ailton Lira. Trouxeram de uma vez só do São Paulo os dois laterais que estavam brigados lá: Gilberto e Nelsinho e tinhamos uma zaga forte com Joãozinho que era irmão do Bezerra mais tecnico e o Neto batendo até na alma. Então a gente segurava ali atrás , principalmente nos jogos no interior e deixava a meninada liberada lá na frente.


FTT - Quem te impressionava dos jogadores deste time?
VITOR - O Clodoaldo pela sua experiencia pela tranquilidade em campo. Agora um time que tinha um meio de campo com Clodoaldo, Ailton Lira e Pita e Juary mais a frente não er brincadeira. Tinhamos ainda dois pontas tão bonas que alem de chegar na linha de fundo e cruzar eles ajudavam e voltavam pra buscar bola no meio e partiam com ela. Mas o esteio mesmo , a sustentação deste time era o Clodoaldo, Ailton Lira, Pita e Juary.






FTT - O grupo era muito forte. Tinham varios que entravam como Ze carlos, Toninho Oliveira, Rubens Feijão e Claudinho.
VITOR - Era. O Claudinho por exemplo era muito bom tambem. Tinha uma tecnica refinada só que não era jogador pra pancada. Muitas vezes nos jogos do interior ele dava uma sumida mas era um grande jogador.

FTT - Comparando os meninos da Vila de 78 com os atuais como ficaria sua seleção?

Vitor - Fabio Costa
Gilberto - Maurinho = Gilberto
Neto - Alex = Alex
Joãozinho - Andre Luiz = Joãozinho
Nelsinho - Leo = Empatado. Só acho que Nelsinho foi muito importante pela experinecia.
Clodoaldo - Paulo Almeida = Não dá para comparar.(Clodoaldo)
Ailton lira - Renato = Lira
Pita - Diego = Briga boa. Vou olhar pelo conjunto do que aconteceu depois. E olhando assim fico com o Pita. O Diego não se manteve em evidencia.
Nilton Batata - Robinho = Aí é Robinho indescutivel.
Juary - Alberto = Juary
João Paulo - Elano = Posições diferentes mas os dois se equivaliam. O João Paulo foi muito bom mas o Elano jogou muito tambem.


FTT - E a final contra o São Paulo?
VITOR - O São Paulo tinha um senhor time, muito bom. Eu não joguei porque dois jogos antes eu me machuquei em um lance com o Socrates. Jogou o Flavio. No lance final nós perdemos por 1x0 e fomos  para a prorrogação. Se empatassemos na prorrrogação o titulo era nosso. Eu neste jogo fui comentarista da rede Bandeirantes e estava com a perna engessada.No finzinho eu fui para a beirada do campo  e fiuei escondidinho e não queriam deixar eu entrar por causa do gesso e da perna. Eu entrei , me escondi atrás de uma placa e fiquei vibrando feito louco. Ahh não conseguia mais ficar lá em cima.Eu tinha que star ali naquela hora.

Juary disputa a bola com o goleiro tricolor, Valdir Peres. Juary terminou o campeonato como artilheiro.


FTT - E o que dizer sobre os jogadores do Santos de hoje em dia. Meninos da Vila geração 3, Como por exemplo Pita x Ganso?
VITOR - Briga boa mas fico com o Pita.Mas sabe o que é, o Neymar é tão diferenciado, tem jogado tanta bola que impressiona. Pode até ser que ele não va conseguir grandes titulos no futuro mas a habilidade dele, a objetividade e velocidade com que ele parte para o gol. Eu ainda peguei uma epoca em que o grande jogador tinha mais espaço para driblar, podia fazer estas firulas. Hoje não. os caras chegam juntos e o Neymar consegue ter um arsenal de dribles diferentes. Necessita apenas ter um capitão exigente ao seu lado que lhe cobre em certas horas.o Neymar é o jogador mais tecnico que eu conheci em minha carreira juntamente com o Reinaldo. O repertorio dele é inesgotavel.



FTT - O que faltou ao Santos para chegar as finais naquele brasileiro de 78?
VITOR - A falta de estrutura do Santos. O clube desmanchou aquele time quase que de imediato, não sobrou ninguem. Tres anos depois montou outro belissimo time com Serginho, Rodolfo Rodriguez, Ze Sergio mas este time de 78 foi mesmo por falta de estrutura. Quando eu cheguei lá o time estava todo travado, sem credito. Quando eu ia sair do Cruzeiro o pessoal em BH falava: mas você vai pro Santos? O time lá acabou. Eu disse: acabou como ? Aquilo é uma nação, tradição, o time de Pelé, Coutinho, Zito e cia.Na região do ABC que tem muito nordestino eu vi a quantidade de torcedores santistas que moravam ali. Não tinha como acabar com uma historia.

A VOLTA AO CRUZEIRO EM UM PERIODO MUITO DIFICIL - ANOS 80




FTT - Você então retorna ao Cruzeiro e ve o time numa fila de 6 anos sem ganhar o mineiro. Bem diferente de quando você saiu nos anos 70.
VITOR - É. Aquele time dos anos 70 já não existia mais e quando voltei em 83 o time passava por momentos ruins.

Cruzeiro 1983 - Alves, Douglas, Osires, Orlando, Vitor e Ailton; Agachados: Paulo Borges, Palhinha, Mauro, Tostão e Joãozinho

FTT - Chega 84 e voces quebram a hegemonia do Atletico.
VITOR - Em 1984 o Cruzeiro conseguiu montar um time eficiente que mesclava juventude com experiencia pois o time trouxe de volta o Palhinha e o Joãozinho e o zagueiro Ailton do Sport. Tinha um um jogadorzaço que era o Douglas. Jovem e  foi um dos melhores que vi naquela posição


FTT - Neste time tinha um jogador com nome de craque: Tostão. Era um bom jogador tambem?
VITOR - Foi genial. Fizemos uma partida contra o Mixto de Cuiabá e perdemos de 4 (4x2) e o Tostão fez 3 gols. Acabou com o nosso time. Os dirigentes então o compraram. Mas o Tostão era cracaço, jogava muito mesmo.
Cruzeiro 1984 - Em pé a partir da esq. Vitor , Ailton , Ademar, Zezinho Figueroa, Carlos Alberto e Luiz Cosme. Agachados: Carlinhos, Carlos Alberto Seixas, Eduardo, Tostão e Joãozinho.


VITOR BRAGA - MARCHAND  

FTT - Quando foi que você começou a se interessar por quadros e artes em geral?
VITOR - Papai era pintor de quadros. Ele pintava desde a epoca de 40. Então fui criado dentro de atelier. Foi então a partir de 76 que comecei a me envolver mais e quando fui jogar no Santos, deixei minha galeria aberta. Começou a dar certo, voltei a jogar aqui novamente e aí não parei mais.

FTT - Qual o quadro mais valioso que você vendeu em sua galeria?
VITOR - Nós já vendemos quatro portas do Guignard por 1 milhão de dolares.

FTT - O que é porta?
VITOR - São pinturas feitas em portas como portas de armarios. Porem estas coisas não vem mais, muito raro aparecer algo assim.Tem muita coisa boa no catalogo mas estas coisas assim não aparecem mais. E quando aparece dificilmente vem parar nas nossas mãos pois ficam no mercado de Rio e São Paulo.

Vitor em sua galeria . Hoje muito conhecida em Belo horizonte chamada Vitor Braga.

Bruno e Vitor entre inumeros quadros maravilhosos na Galeria Vitor Braga.


FTT - E entre os pintores mineiros quem você destacaria nacionalmente?
VITOR  - Nós já tivemos grandes pintores aqui e muitos acabaram esquecidos. Nós tivemos inclusive um genio aqui chamado  Genesco Murta  e que morou com Modigliani em Paris. Este cara foi um genio, genio mesmo. Tinha uma pintura extraordinaria, uma beleza. Porem eu acho que a poesia maior da arte brasileira, a alma pura que passava para a tela,  um artista puro e poetico e acho que dificilmente termos outro igual se chama Alberto da Veiga GUIGNARD. Jamais apareceu um cara parecido com ele, jamais. Um genio.Quando todos pintavam o belo ele pintava o feio. O maior de todos.



O FUTEBOL E A  ARTE

FTT - Você que é tão entendido em artes , daria para fazer um paralelo do time do Cruzeiro com algum pintor ?
VITOR - Aquele primeiro time do Cruzeiro (anos 60) tinham varios craques fora da media. Dirceu Lopes por exemplo dava um corte no zagueiro a quase 20 metros de distancia e derrubava o cara. Era o time da inteligencia , da genialidade e falando em genialidade.....(Vitor fica pensativo e extasiado), tinha tanto genio na epoca e um bem ousado , assim como aquele time do Cruzeiro, porque aquele time tinha ousadia. Podia levar dois gols mas fazia quatro. O time jogava pra frente, pra vencer, tinha encantamento na sua forma de jogar. Então você  pega um artista que brilha aos olhos pela cor, pela luminosidade e que estava a frente do seu tempo , inovador e este seria. Van Gogh. Um artista que sofreu no seu tempo pela sua ousadia. Penou por buscar tanta luz, por ser tão ousado na epoca, pois o que se viam eram aquelas coisas tradicionais, academicas. Seria então o Van Gogh pela luminosidade e ousadia.




FTT - Quais foram os maiores zagueiros que você teve jogando ao seu lado ou contra?
VITOR - Tecnicamente dificilmente alguem vai superar o Perfumo. Porem não era o jogador que eu queria para o meu time. Talvez eu comprasse até um jogador com menos qualidade tecnica e mais viril mas que fosse mais importante na decisão e que não fosse tão frio. Perfumo jogava muito bonito tanto é que foi eleito na seleção da Fifa. Só por isto dá pra se ter uma ideia da importancia dele. Eu tenho profunda admiração e o conheço bem mas no Perfumo faltava aquela coisa de grupo , de um pouco mais de  determinação . Luis Pereira foi o mais completo. Figueroa era muito bom tambem apesar de um pouco viril. Mas eu preferia um zagueiro com a metade do futebol do Figueroa do que um clássico como o Perfumo. Figueroa era um guerreiro, se doava ao time. Eu costumava gritar muito para orientar meus companheiros e gosto de zagueiros que falam e vibram tambem.

FTT - Quais foram os 7 maiores atacantes que você enfrentou ou que jogaram ao seu lado?
VITOR - Pelé, claro. Reinaldo, Jairzinho. Roberto Dinamite, Zico, Dario um jogador muito eficiente, Dirceu Lopes, Palhinha. Palhinha era muito bom. Era menos genial do que Reinaldo mas era mais agudo, mais decidido e tinha muito boa tecnica tambem.


FTT - A escola de goleiros argentina e uruguaia sempre foi famosa. Você acha que hoje o Brasil tem melhores goleiros do que eles? Os nossos goleiros evoluiram?
VITOR - O que acontece é que hoje os goleiros tem uma estrutura bem melhor. Tem um preparador só para eles e na minha epoca não. A gente treinava sozinho e hoje eles tem um treinamento especializado e muito bem feito. Antigamente era tudo mais dificil, desde a luva ao material de treino. Hoje temos excelentes goleiros mas antigamente tambem tinhamos. Varios em condição de servir a seleção.