FTT - Futebol de Todos os Tempos

ENTREVISTAS COM EX JOGADORES, TECNICOS, DIRETORES E PESSOAS LIGADAS AO FUTEBOL QUE CONTRIBUIRAM DE ALGUMA FORMA PARA QUE PUDESSEMOS CONHECERMOS UM POUCO MAIS DA HISTORIA DO FUTEBOL BRASILEIRO E MUNDIAL.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Encontros eternizados - ZICO & ROBERTO DINAMITE


Dois craques do nosso futebol, fazendo a alegria das crianças. Zico andando de bicicleta enquanto Roberto dá um empurrãozinho.

Revista do dia - REVISTA DO ESPORTE 1966


Revista do Esporte de 4 de Julho de 1966 com so dois jogadores do Fluminense na capa. O volante Denilson e o lateral esquerdo Altair.

domingo, 19 de dezembro de 2010

O Craque disse e eu anotei - DORVAL

Quem me passou o telefone do Dorval foi o Wilsinho, o meu último entrevistado até então. A entrevista foi realizada em um campo no bairro de Congonhas, onde Dorval passa os seus ensinamentos. Foi uma matéria que tive muita satisfação de realizar, pelo jogador que foi e pelos craques com que jogou, principalmente o rei Pelé.

FUTEBOL DE TODOS OS TEMPOS: Você nasceu no Rio Grande do Sul. Na década de 40, um menino que começava a jogar futebol, tinha o ponta Tesourinha do Internacional como referência?

DORVAL: O Tesourinha foi um dos maiores pontas-direitas do futebol brasileiro, eu o admirava muito, gostava de vê-lo jogar, sendo que depois ele foi para o Grêmio e foi uma legenda do futebol gaúcho e brasileiro.

FTT: O início de carreira no Força e Luz.

DORVAL: Comecei nos Juvenis do Grêmio. Depois havia um treinador conhecido como Ênio, que jogou no gol do Grêmio e que treinava o Força e Luz. Levou eu e mais quatro jogadores. Começamos a disputar p Campeonato Gaúcho.

 Mauricio Sabará e Dorval na escolinha do ex craque santista.


FTT: Qual é a sua lembrança na época que jogava no Força e Luz? O futebol gaúcho era muito bom nesta ocasião, pois enfrentava times como o Inter que tinha Larry, Bodinho e Chinesinho, além do próprio Grêmio com o Aírton Pavilhão que veio do Força e Luz.

DORVAL: O Aírton veio pra o Grêmio em troca da arquibancada e foi um grande jogador. Os campeonatos eram muito difíceis.

FTT: Como aconteceu a sua transferência para o Santos Futebol Clube?

DORVAL: Vieram muitos jogadores pra cá, como o Ênio Andrade e o Raul Klein para a Portuguesa. Tinham bons jogadores em Porto Alegre, sendo que representamos o Brasil no Pan-Americano do México. Eu também fui convocado, mas acabei dispensado porque era muito novo pra aquele Pan-Americano em que se sagraram campeões. O empresário Arnaldo Figueiredo nos levou pra São Paulo para fazer um teste. Ofereceram-me para o Corinthians, ele havia telefonado, disse que estava tudo certo, mas não aconteceu porque o juvenil Bataglia estava subindo. O Flamengo também não aceitou, pois não precisava de ponta-direita. Ele ligou para o Santos, que também não precisava, mas fui fazer um teste. Graças a Deus fui bem e o técnico Lula pediu a minha contratação.







FTT: Isso foi mais ou menos no final de 1956. Mas parece que no inicio de 57 você teve uma rápida passagem pelo Juventus da Mooca.

DORVAL: Fui emprestado para o Juventus e disputei o Torneio de Classificação. Fiz um bom campeonato e outras equipes se interessaram, mas tive que voltar pro Santos, pois era emprestado, consegui me firmar como titular e graças a Deus dei continuidade nesta minha passagem pelo Santos.

FTT: Quando você voltou para o Santos em 57 participou de uma grande linha de ataque, no caso você, Jair, Pagão, Pelé e Pepe. O que você tem a dizer sobre este ataque do Santos?

DORVAL: Foi uma linha fantástica que fez mais de 120 gols. O Jair Rosa Pinto estava em final de carreira, mas era um jogador que lançava muito bem. O Pagão foi um fantástico jogador de futebol. Tive a felicidade de jogar com estes monstros sagrados do futebol brasileiro. O Pepe numa fase muito boa. E o próprio Pelé no início de carreira.
Dorval, Jair Rosa Pinto, Pagão, Pelé e Pepe . Um ataque arrasador em 1957.


FTT: O seu primeiro foi o Campeonato Paulista de 1958, com um Pelé endiabrado marcando 58 gols. Foi depois da Copa do Mundo, quando ele já tinha sido consagrado como o Rei do Futebol. Vocês já percebiam que ele era esta fera?

DORVAL: Já percebíamos porque quando ele chegou, nós já íamos pra praia e víamos. Quando o Pelé chegou, ele jogava com os reservas junto comigo e o Pepe, pois o ponta-esquerda titular era o Tite, sendo que dávamos muito trabalho para o time principal que tinha o time campeão de 56 com Manga, Helvio e Ramiro. O Pagão e o Coutinho eram dois grandes centroavantes que davam muito trabalho.



FTT: Havia na ocasião o PPP com Pagão, Pelé e Pepe.

DORVAL: Eram muito famosos. Foi muito bacana participar deste ataque.

FTT: Em 1958 o Santos foi Campeão Paulista. Chega 59 e agora ele conquista o Brasil, vencendo outro titulo importante, que é o Rio-São Paulo. Como foi este torneio enfrentando os grandes times do Rio, alem dos de São Paulo?

DORVAL: O Torneio Rio-São Paulo era muito importante no futebol brasileiro, sendo que hoje não existe mais. Também tinha o torneio de Seleções que ajudava muito o jogador a ir pra Seleção Brasileira. No Rio-São Paulo enfrentávamos grandes clubes do futebol brasileiro com timaços como o Flamengo, Botafogo e Fluminense, todos com grandes jogadores. Quando o Santos jogava estes clássicos, enchia o Maracanã, pois todos queriam ver Mané Garrincha, Pelé, Coutinho, Mengálvio, Pepe, Zito, Quarentinha, Amarildo e Zagallo. Foi um torneio muito bacana.

Santos 1959 - Lalá. Getulio. Ramiro. Pavão. Zito e Mourão Agachados: Dorval. Afonsinho. Jair da Rosa Pinto. Pelé e Pepe


FTT: Em 59 também foi o ano que você foi pela primeira vez convocado pra Seleção Brasileira para o Sul-Americano. Você ficou emocionado por ter  sido chamado pelo Vicente Feola, sabendo que fez um bom trabalho?
DORVAL: Fiz um bom campeonato em 58. Fui eu, Mané Garrincha e Joel, os ponteiros que estavam em alta. Infelizmente eu não fui pra Copa do Mundo, não sei bem o porquê, pois os jornais diziam que eu era o melhor ponta-direita do Brasil depois do Mané Garrincha, sendo que não fui pra Suécia e nem pro Chile. Mas foi uma alegria muito grande ter participado de uma Seleção Brasileira que tinha grandes jogadores. Ser reserva de Garrincha é uma honra, que pra mim foi o maior fenômeno brasileiro depois de Pelé, jogador fantástico que deixou muitas saudades, aquele futebol-arte que se jogava antigamente.

Lima, Zito, Dalmo, Calvet, Gilmar e Mauro; Agachados Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe


FTT: Os anos 60 começavam e é justamente ai que começa a grande fase da história do Santos, com aquele ataque que todos conhecem e citam como o maior ataque da história do futebol, com Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. Como este ataque se entrosava tão bem, era uma coisa que acontecia ou vocês ensaiavam para desse tão certo?

DORVAL: Foi muito importante ter jogado com Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe, além do Zito e do Mauro. Foi um entrosamento muito rápido, porque joguei no Santos durante muito tempo, nos entendíamos, parecia que conversávamos um com o outro dentro do campo, era muito importante a amizade que tínhamos dentro e fora, ajudando a ser o ataque que foi. Jogávamos muito na Europa, fizemos grandes jogos lá contra grandes times do futebol europeu e ficávamos as vezes quatro meses fora do Brasil.

FTT: A década de 60 começa e vem uma grande sequência de títulos, talvez nunca conseguida por nenhum outro time. Vocês foram Penta-Campeões da Taça Brasil em 61, 62, 63, 64 (que você estava no Racing) e 65. Era o Campeonato Brasileiro da época. Como vocês conseguiram ficar vencendo este título seguidamente, sendo que na época tinha o Botafogo de Garrincha, Didi, Quarentinha, além do próprio Palmeiras que também tinha um esquadrão formidável?

DORVAL: Nós tivemos uma fase fantástica porque, como já falei, era uma união onde tínhamos amizade e respeito um pelo outro, criando aquele ambiente gostoso dentro do campo e nos entendíamos conversando fora, o que foi muito importante pra nós e para o Santos Futebol Clube. Conseguimos este monte de títulos porque sempre jogávamos juntos e um conhecia o outro. Hoje em dia se joga cinco partidas juntos. Nós sempre jogávamos juntos e esta sequência era muito boa para o Santos.


 Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe, quase uma rima poética


FTT: Você, como ponta-direita, enfrentou grandes laterais-esquerdos. Houve algum ou alguns que te deram mais trabalho?

DORVAL: Tinha o Geraldo Scotto, do Palmeiras, que era muito bom. O Nílton Santos, do Botafogo, que foi um fantástico lateral-esquerdo, um fenômeno. Teve também o Ari Clemente do Corinthians. Mas os mais duros eram o Geraldo Scotto e o Nílton Santos, era duro passar por eles, uma briga boa.

FTT: Fale dos confrontos do Santos contra o Corinthians, que eram muito equilibrados, com o Corinthians ficando praticamente durante mais de dez anos sem vencer o Santos em partidas válidas pelo Campeonato Paulista.

DORVAL: O Corinthians tinha um bom time, com grandes jogadores, mas infelizmente quando jogavam contra o Santos, não sei o que havia com eles, eles tremiam. O time do Santos era fantástico, pois não só o Corinthians tremia como outros.







FTT: Vamos falar agora das maiores conquistas do Santos, o Bi da Libertadores e do Mundial em 62/63. Quais são as suas lembranças destas duas fantásticas conquistas?

DORVAL: É uma lembrança muito boa porque foi o primeiro time brasileiro a ser campeão da Libertadores e do Mundial Interclubes. Foi um torneio bom, com grandes times. Hoje em dia não vemos mais os times que enfrentávamos, como Nacional e Peñarol, forças máximas do futebol uruguaio. Na Argentina tinha o Boca Juniors, River Plate, Independiente e Racing, grandes potências do futebol argentino. Havia o Colo Colo e o Universidad do Chile, que hoje não estão mais na Libertadores, sendo que o futebol deste torneio caiu bastante. Times que representavam o seu país não representam mais atualmente, pois não são mais a potência que eram antigamente.

FTT: Mas a grande partida do Santos que todos comentam foi a final de 62, com os famosos 5 a 2 contra o Benfica.
DORVAL: Este jogo foi fantástico. Aqui nós ganhamos de 3 a 2 e perdendo um monte de gols, com eles jogando bem. Chegamos em Portugal e eles já estavam vendendo ingresso para o próximo jogo, pois achavam que iam ganhar. Deram azar por mexerem com a gente. Quando eles abriram os olhos, já estava 5 a 0 pra nós. O Pelé neste jogo parece que estava com o diabo no corpo. O time jogou certinho, bem armado, pois o Santos já estava acostumado a jogar contra os grandes times europeus, o estádio estava lotado, todos aplaudindo a nossa equipe sem saírem após a partida. Foi algo fantástico.

 Dorval é o sexto maior artilheiro na historia do Santos FC com 198 gols.


FTT: Em 67 você foi jogar o Campeonato Paulista pelo Palmeiras.

DORVAL: O Palmeiras tinha um monte de jogadores que já estavam em final de carreira, como o Servílio e o Tupãzinho. O Ademir da Guia e o César estavam começando, que foram grandes jogadores e amigos, tenho até hoje amizade com eles. O time do Palmeiras estava um pouco decadente e quando cheguei ele não estava numa fase boa. Infelizmente não deu certo, mas tentamos.

FTT: Depois do Palmeiras você foi para o Atlético do Paraná, sendo Campeão Paranaense em 70.
DORVAL: Isso. Joguei com o Zé Roberto e Nílson Dias. Teve uma turma de São Paulo que foi jogar lá, como o Djalma Santos. Foi também um grande clube que joguei por quatro anos. Teve também o Sicupira que jogou depois no Corinthians, grande jogador que atualmente é repórter.

 Atletico PR 1970 - Hidaldo, Zico, Julio, Hermes, Alfredo e Vanderlei. Agachados: Dorval, Sicupira, Sergio Lopes, , Toninho e Nilson.


FTT: Depois do Atlético uma rápida passagem pela Venezuela e no SAAD.

DORVAL: O SAAD que é atualmente o São Caetano. Foi uma época gostosa. É um time que estava começando a despontar no futebol brasileiro. Jogaram lá o Joel, Coutinho e eu. Foi uma passagem curta, mas bem gostosa, com uma amizade muito grande com o pessoal de lá.

FTT: Terminada a carreira, o Santos ainda teve alguns títulos. O que você achou desta geração com o Robinho e Diego e atualmente o Neymar e o Ganso?

DORVAL: Foi uma geração boa, porque o Santos tem uma Categoria de Base muito boa. O Robinho é um fantástico jogador que despontou no Santos junto com o Diego que também é muito bom, como o Elano. Hoje estão despontando o Ganso e o Neymar, que também são grandes jogadores. Esperamos que eles dêem muitas alegrias pra nós. Hoje o jogador joga dois anos no Santos e já vai embora pra Europa, não jogando dez anos como jogávamos. É muito difícil querer que eles façam um grande sucesso aqui no Brasil, porque o Neymar já era pra estar na Europa e não foi. Mas no ano que vem irá, porque o Santos não conseguirá segurar a pressão, pois é um excepcional jogador. Esperamos que ele dê muitas alegrias para o Santos e faça um bom futebol na Europa.


REPORTAGEM: Maurício Sabará Markiewicz
FOTOS: Estela Mendes Ribeiro

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Revista do dia - ESPORTE ILUSTRADO 1942


A Revista ESPORTE ILUSTRADO  de dezembro de 1942 tras em sua capa o artilheiro do São Paulo, Leonidas da Silva.

Encontros eternizados - STANLEY MATTHEWS & RAINHA ELIZABETH


Na final da Copa da Inglaterra de 1953 após ver seu time ganhar em campo , o capitão Stanley Matthews vai a tribuna receber os cumprimentos da Rainha Elizabeth.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O Craque disse e eu anotei - WILSINHO

O ex-jogador Wilsinho, da mesma forma que Basílio, Badeco e Ataliba, trabalha na Associação Cooperesportes Craques de Sempre (www.craquesdesempre.com.br). Como os outros três ex-jogadores que entrevistei, também aceitou realizar a entrevista, onde nos passou todo o seu conhecimento e uma franqueza muito grande. Confiram a matéria.

MAURÍCIO SABARÁ: Wilsinho, conte o seu começo no futebol. Você parece que foi revelado na própria Portuguesa.
WILSINHO: Na realidade fui pra Portuguesa com 18 anos, saindo diretamente da Várzea, não tive aquele trabalho Infantil e Juvenil. Ou você vai pra roça ou vai pro mato, ou seja, vai para o Profissional ou para a carreira. Graças à Deus tive a oportunidade de ir pra Portuguesa e acabei passando no teste do Peneira, fiquei, demorei tanto pra chegar em um clube, mas em compensação subi mais rápido que se imaginava, porque joguei meia dúzia de partidas em uma equipe Juvenil e um dia chegou o treinador João Avelino, a quem devo grande parte da minha carreira por ter me dado esta oportunidade, sendo que hoje ele já partiu deste mundo, assim como tantos outros treinadores que trabalhei e outros jogadores, fizeram parte da minha trajetória deste inicio. A vida é assim, uma renovação, quando chegam os novos, os mais velhos tem que ir embora. Foi uma carreira meteórica, mas acho que pelo tempo que fiquei, com passagens boas pela Portuguesa, Juventus e Corinthians. Não tenho o que reclamar da minha carreira. Talvez hoje, financeiramente, sim, pois antigamente não tinha o que tem hoje, mas tínhamos mais amor pela camisa dos nossos clubes, não jogávamos três ou quatro meses, mas cinco anos. Eu fiquei oito anos na Portuguesa. É uma carreira que você fica direto no clube.
Wilsinho mostra um de seus albuns contendo um pouco da sua historia. Só na Portuguesa foram 8 anos.


EDUARDO VERDASCA: Você veio da Várzea, em um tempo que revelava grandes jogadores.
WILSINHO: Justamente, pra nós que jogávamos nesta época, a Várzea  era uma grande escola. Sair de um time de Várzea para um Profissional mostra o quanto ela era boa. Além de mim, outros atletas fizeram esta mesma trajetória. Hoje falamos que tem muito clube no futebol que joga Campeonato Paulista, Brasileirão na Série B, e não tem um time com a mesma qualidade de um das Várzeas de antigamente. Surgi, na realidade, de um campeonato semelhante, a Copa Kaiser, que era patrocinado por uma marca de cigarro. Foi daí que acabei indo direto pra Portuguesa.

MAURÍCIO SABARÁ: Quando você começou na Portuguesa no final dos anos 60, quem eram os jogadores que você atuou junto naquela época?
WILSINHO: Quando eu cheguei, a Portuguesa estava fazendo uma renovação no seu Quadro Profissional, cheguei a treinar um pouco com o Ivair, que acabou indo para o Corinthians. Tinha o Zé Maria que também foi embora. Havia o Edu Bala que foi para o Palmeiras junto com o Leivinha. Cheguei a treinar com o Coutinho já em final de carreira. Teve o Lorico, que foi um grande jogador e pessoa, que me ajudou muito no inicio. Tinha também o Ratinho. A Portuguesa sempre na época tinha 15 ou 20 jogadores que, pelo menos a metade, eram trazidos da Categoria de Base.

Portuguesa 1973 - Em pé estão: Pescuma, Zecão, Badeco, Isidoro, Calegari e Cardoso;
agachados estão Xaxá, Enéas, Cabinho, Basílio e Wilsinho



MAURÍCIO SABARÁ: Era um celeiro de craques.
WILSINHO: Justamente, só que não conseguia segurar estes jogadores, pois valorizavam muito e ela acabava cedendo. A Portuguesa era assim, fonte alimentadora do Palmeiras, Corinthians e São Paulo, sendo também que muitos jogadores acabavam indo pra Portugal, Bélgica e Equador.

MAURÍCIO SABARÁ: Depois destes jogadores citados, você fez parte de uma grande equipe da Portuguesa, jogando junto com Xaxá, Ratinho, Badeco, Basílio e do grande Enéas. O que você tem a dizer sobre este grande time, além do Enéas?
WILSINHO: Era um time que praticamente a metade dele vieram das Equipes de Base. Havia um goleiro chamado Carioca. Veio Arenghi, subiu Isidoro, Cardosinho, Enéas, eu, Fabinho que infelizmente faleceu, tinha Tadeu, Válter, Roberto Bacurú que acabou indo pra Feitosa de Belém do Pará, morando hoje lá. Difícil você ter um time Base, quando não ganhamos  nada lá, porque sempre tiravam um jogador, desmontavam e colocavam outro. Neste época de 70, subiram 9 jogadores.  Hoje, pelo que tenho visto, somente o Santos está conseguindo fazer o que a Portuguesa fazia antigamente.
Portuguesa 1975 - Em pé estão: Mendes, Zecão, Badeco, Calegari, Santos e Cardoso


MAURÍCIO SABARÁ: Qual é a lembrança que você tem deste famoso título de 73 decidido com o Santos? Mesmo sendo dividido, acredito que tenha sido uma conquista inesquecível pra você como pra os demais jogadores e torcedores da Portuguesa.
WILSINHO: Se comenta muito sobre a divisão deste título, mas ele tem um aspecto saudosista muito bom, porque foi em uma época e transição, tanto do time, diretoria e treinador, porque tinha saído o Cilinho, chegando o Oto Glória. Ele fez uma transformação e ajustou alguns jogadores. Pra mim foi o grande treinador que trabalhei, sendo que quando ele chegou na Portuguesa, eu estava indo embora para o América de São José do Rio Preto e naquela semana ficou aqueles ajustes, fez alguns coletivos e acabei treinando em uma equipe de baixo e veio conversar comigo, perguntando o que está acontecendo comigo. Eu falei que havia um desacerto e vou ser emprestado.  Ele disse  pra eu não fazer nada, que iria falar com o presidente, o Oswaldo Teixeira Duarte, talvez um dos maiores presidentes que a Portuguesa já teve, sendo que os outros não conheci. O Oto Glória falou pra ele que precisava de mim como jogador, tinha um esquema na cabeça e que eu encaixava bem e acabei fazendo um contrato de três meses de risco. Acabei não indo pro América, a transação já quase pronta foi cancelada.
Wilsinho x Zé Maria - Um grande duelo na partida entre Portuguesa e Corinthians no campeonato paulista.


MAURÍCIO SABARÁ: Você era um ponta-esquerda veloz, driblador e ia até a linha de fundo, como era comum nos pontas do passado. Quem eram os grandes pontas-esquerdas da época?
WILSINHO: Eu acho que todo o grande clube tinha um ponta. Mas o meu grande ídolo, concorrente e amigo era o Edu, do Santos. Ele era fantástico, tinha uma admiração muito grande por ele. No Palmeiras tinha o Nei, o Corinthians teve o Eduardo que faleceu e Aladim, e o São Paulo tinha o Paraná. Sem contar os do Rio, Minas, do Sul e do Norte. Eram jogadores muito bons. Quem estava jogando não se machucava de jeito nenhum, pois sabia que se isso acontecesse, tinham reservas bons, às vezes até superiores ao titular. Hoje não vemos isso.

MAURÍCIO SABARÁ: Além dos pontas-esquerdas, haviam também os laterais-direitos. Fale sobre os que te marcavam.

WILSINHO: O Palmeiras tinha o Eurico, o Corinthians tinha o Zé Maria, o São Paulo tinha Diego Forlan e o Santos tinha o Carlos Alberto Torres. Pra você ver como eram os times. E só falando em São Paulo, pois os outros Estados também tinham. Aquela super máquina do Cruzeiro era brincadeira, com o Dirceu Lopes, Tostão e o Wílson Piazza. Todo time tinha os seus 11. Era difícil. Havia aquela rivalidade. Era difícil vender para o adversário. A Portuguesa chegou à uma época que brecou e queria segurar. Formava jogador, Corinthians levava o lateral e o Palmeiras levava o ponta. Aí ela manteve o time por uns quatro ou cinco anos. Eu joguei 8 anos no time e chegou uma época que ia ser trocado e não saía. Eu perguntava quem ia ficar no meu lugar e diziam que continuaria. Você via os seus amigos indo embora, o Basílio, meu grande amigo, indo para o Corinthians, sendo que foi um dos responsáveis pra minha ida para lá, sempre batalhando  pra me levar e a Portuguesa negando. Acabou dando certo e fui para o Corinthians.

MAURÍCIO SABARÁ: Em 73 foi campeão junto com o Basílio, Badeco e Enéas. Copa de 74 estava chegando. Parece que você foi convocado.
WILSINHO: Fui relacionado. Aquela Seleção de 74 lembrou um pouco a bagunça de 66. A Portuguesa foi jogar no Rio de Janeiro contra o Fluminense e Flamengo, ganhando os dois. Fomos, o Enéas e eu, à um programa de televisão e na ocasião o João Saldanha disse que deveríamos ser convocados. Pelo menos estaríamos entre os 22. Acabamos indo pra São Paulo. Na época da convocação, fui relacionado entre os jogadores. Só que na hora de convocar, o Zagallo preferiu o Dirceu, pois achava que ele era mais versátil, estilo de jogo igual ao dele, como ponta e meia que ele gostava e adotava. Fiquei de fora na relação dos que poderiam ser chamados caso machucasse alguém. O Enéas foi convocado e durante os treinos foi cortado. Não adiantava você ser um bom jogador, pois a Portuguesa não tem força na Federação Paulista e na CBF. Os jogadores ficavam em segundo plano. A Portuguesa sempre teve grandes jogadores, até hoje tem, não como antigamente, isto é um fato que deixou aquela pequena mágoa que você tem da carreira, mesmo porque nem tudo é um mar de rosas e acontecem algumas decepções.

MAURÍCIO SABARÁ: 1974 se foi. Estamos em 75. E a Portuguesa mais uma vez está decidindo um título. Ela nos anos 70 era sempre forte e um time de chegada. O que aconteceu em 75, que vocês desta vez não chegaram?
WILSINHO: O mesmo que aconteceu em 73, nos pênaltis. Eu hoje até brinco, na época não, que o título de 73 foi importante porque todo mundo fala que saímos correndo do campo, o Oto escondeu todo mundo, mas na realidade sabia que se eu acertasse a trave ia dar aquela confusão e acabou dividindo. Em 75 a mesma coisa e eu era o capitão da equipe nas vezes que o Badeco não jogava. O Dicá bateu e outro que não me lembro que acabou errando contra o São Paulo. Fui bater o pênalti também e errei. Eu sempre falo nas entrevistas que dou que quando cheguei em casa, desta vez não acertei na trave, a bola sumiu, meu pai brincando se acharam a bola, pelo jeito ela deve ter caído fora do estádio! Risos ...
Mas a Portuguesa chegou. Em 74 deixamos de ir pra final porque perdemos um jogo importante em Bauru, contra o Noroeste, coincidência do destino foram os dois jogadores que a Portuguesa dispensou, o Rodrigues ponta-esquerda e o Lorico, que foram os grandes jogadores daquele dia, estávamos numa tarde ruim, tudo de errado aconteceu naquele dia e o Corinthians acabou indo pra final contra o Palmeiras. Na verdade era a Portuguesa que ia pra esta final.

MAURÍCIO SABARÁ: Em 76 você foi para o Juventus.
WILSINHO: Em 76 eu tive mais um ano na Portuguesa. Era um rebelde sem causa com 26 anos. Porque eu via todo mundo todo ano, vai reforçar e comprar, saía um e outro, sendo que eu continuava na ponta-esquerda. Aí fiquei meio rebelde, fiz algumas trapalhadas e me desinteressei um pouco. Hoje, com a idade que tenho, reconheço estas coisas e acabei tendo um desentendimento com o presidente e fui embora para o Juventus junto com alguns jogadores, na troca com o Tatá que hoje é auxiliar técnico do Muricy e chegou outro goleiro. Foi uma troca de jogadores, como fez o Fluminense com o Corinthians.

Juventus 1977: João Carlos, Carlos, Bracalli, Polaco, Tião e Deodoro. Agachados: Xaxá, Elói, Tatá, Serginho e Wilsinho


EDUARDO VERDASCA: Voltando na parte de decisões por pênaltis, muita gente lembra da decisão, como se continuasse o Santos venceria. Mas quando lembramos do tempo normal, houveram algumas injustiças que poderiam ter levado a Portuguesa ao título sem a decisão por pênaltis. Ninguém se lembra disso.
WILSINHO: Correto! Houve algumas chances dos dois lados. O Santos também teve bola na trave com Pelé. Nós também tivemos bola na trave. Houve um lance do Basílio que acabou não sendo feliz na finalização, sendo que a mesma sorte que teve no Corinthians não aconteceu na Portuguesa em 73. E tivemos o principal, que foi o gol do Cabinho anulado. Todo mundo fala que não lembra e lamentavelmente talvez não tivesse sido visto. A televisão naquela época não era tão moderna como hoje, acho que não existe imagem daquele jogo, mesmo porque ninguém consegue passar o jogo inteiro, sempre passa os lances dos pênaltis, mas nós tivemos um gol legítimo anulado pelo Sr. Armando Marques. A Portuguesa teria vencido normalmente.
EDUARDO VERDASCA: Era uma época que a Portuguesa tinha uma torcida muito grande. Tivemos um Morumbi com muitos torcedores.
WILSINHO: Eu tenho registrado em torno de 118 e 120 mil pagantes. Na época evidente que o Santos tinha mais com o Pelé. Mas a Portuguesa tinha a sua torcida que comparecia e sou contra a mudança de nome do time, pois desde que você tenha time, a torcida comparece. Eu acho que o nome não importa, pois quando você ganha e tem um bom time, jogávamos com estádios cheios no Canindé, Pacaembu e Morumbi. Muita gente na final foi torcer pra Portuguesa, mesmo quem não torcia pro time, mas dá pra ver na época que ela sempre teve bons times.

Corinthians 1979 : em pé estão Ze Maria, Mauro, Solitinho, Djalma, Caçapava e Wladimir
Agachados: Vaguinho, Socrates, Geraldão, Wagner Basilio e Wilsinho


Eduardo Verdasca, Wilsinho e Mauricio Sabará . Uma tabelinha muito bem feita.


MAURÍCIO SABARÁ: Depois de encerrar a carreira você trabalhou como técnico de futebol Masculino e também Feminino. Como foi esta experiência esta experiência com as mulheres no futebol, além também do masculino?
WILSINHO: Quando assumi o Masculino Infantil, foi depois do Juvenil que já havia um treinador. Fiquei no Infantil, que nunca eu havia trabalhado. Seria o início de uma carreira. Só que entrei de manhã e fui demitido à tarde, porque eu tinha aquela idéia revolucionária, pois você tem que ter as coisas pra realizar um bom trabalho. Eu cheguei na Portuguesa e não tinha bola, chuteira e camisa. Com podia trabalhar, com quase 90 jogadores, podendo usar somente usar 22? Posso trabalhar no mínimo com 30. Não vai dar. Eles acabaram não gostando que pedi para o roupeiro colocar as coisas velhas dentro de um saco, não dei o treino e joguei tudo fora. Chamaram-me à tarde e disseram que não dava pra eu continuar como treinador, dizendo que joguei tudo fora. Eu respondi que só limpei. Depois entendi, porque a Portuguesa teve uma fase ruim com uma má administração, não deixando nada pra Lusa. Ela estava errado de baixo pra cima e de cima pra baixo. Não tinha nada na Base e nem no time principal. Eu achava que você tem que dar condições de a pessoa desenvolver o que sabe, com uma chuteira, bola em condição, portanto não concordava com aquilo. Acabei voltando e montei uma bela Equipe Infantil, saindo alguns jogadores que estão rodando por aí. Quanto ao Feminino, muitas jogadoras da Seleção Brasileira passaram comigo.


MAURÍCIO SABARÁ: Uma bela passagem pela Portuguesa. Também uma boa passagem pelo Juventus, jogando com Ataliba e outros jogadores de destaque. Chega 1979 e você é contratado pelo Sport Club Corinthians Paulista. Na época havia um ponta-esquerda muito bom que era o Romeu Cambalhota. Fale desta sua passagem pelo Corinthians, do título de 79 e como foi esta disputa sadia de posição com o Romeu?
WILSINHO: Quando saí da Portuguesa para o Juventus, este time formou uma grande equipe. Sempre do grande time da Portuguesa e do Juventus. O Corinthians acabou montando também um super time, com Zé Maria, Amaral, Wladimir, Caçapava, Basílio, Biro-Biro, Sócrates, Palhinha, Geraldão, Vaguinho, Romeu e eu. Qualquer um que o treinador colocasse, estava tranqüilo, pois tinha grandes jogadores. Eu fui para o Corinthians com 29 anos e super experiente. O pessoal falava que quando chegava aos 30 era hora de parar. Acabei jogando 3 anos e tive a felicidade de ser campeão em 79, o ano que cheguei. O Corinthians conquistou em 77, no ano seguinte foi o Santos em e79 ganhou novamente o Corinthians, sendo que teve uma paralisação no final do ano, houve briga do Matheus com a Federação e com o Palmeiras. O campeonato parou em Dezembro, voltando em Janeiro, eliminamos o Palmeiras e acabamos indo pra final decidindo novamente com a Ponte, com o Corinthians sendo campeão em 79. Joguei ainda em 80/81, quando voltei pra equipe do Juventus, jogando por mais 2 anos e encerrando a carreira.


EDUARDO VERDASCA: Estávamos falando dos últimos anos, que a Portuguesa não teve mais aquela fase dos anos 70, houve um grande esquadrão nos anos 50 e de uns anos pra cá as coisas não andam tão bem. A impressão que se dá é que a Portuguesa não se enxerga como um time grande.
WILSINHO: Teve uma época que a Portuguesa foi considerada como o quinto clube de São Paulo. Ela perdeu o seu espaço, não houve grandes investimentos nas Categorias de Base, teve um momento que ela foi crescendo e se solidificando como um clube grande. Sempre ficou naquele bloco. Ela abandonou a Categoria de Base. Se fizermos um retrospecto, depois da década de 70, podemos lembrar de Zé Roberto, que foi embora. A Portuguesa tem um ou outro jogador. Um time que revelou Ivair, Leivinha, Basílio, Enéas, eu, Edu e Zé Maria, você vê que eram vários. Hoje eu vejo o Santos fazendo este trabalho e o São Paulo resolveu ver que a solução é a Categoria de Base. Evidente que você tem que mesclar os jogadores jovens com os mais experientes, pois você tem que ter uma Base forte pra ser o alicerce dos que vem de baixo. E hoje a Portuguesa tem comprado jogadores que não vamos criticar. Cada época tem sua época. Eu respeito estas passagens. O jogador tenta fazer o papel dele. Talvez não seja o ideal, mas o clube é o responsável por aquele que ele forma e compra. Vejo muita gente despreparada trabalhar nas Categorias de Base, como professor de Matemática. Uma vez falei com o diretor do Corinthians. Na CBF tem muito militar. Na arbitragem tem o Coronel Marinho. Tem coronel na Portuguesa e Desembargador no Corinthians. Falei para este Desembargador, que quem é de segurança tem que cuidar disso, o militar precisa dar segurança ao povo e não se meter com jogador. Já imaginou se me dão um revólver? Faria bobagem. E quando eles vão para o futebol, também fazem bobagem. Eu não aceito interferência como treinador, de pessoas que não são do meio e falam. Pra discutir contigo tem que ter conhecimento na escalação do time e isso prejudica muito. Sabemos das mutretas no futebol, empresário que passa pra frente jogador, diretor que ganha comprando bonde. Quem paga é o clube e a torcida. Tudo passa, mas o clube fica.
REPORTAGEM: Maurício Sabará e Eduardo Verdasca
FOTOS: Estela Mendes Ribeiro

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

O Craque disse e eu anotei - MARCELO

Conheci Marcelo numa padaria durante um café de fim de tarde. Quando me dirigia ao caixa para efetuar o pagamento o vi sentado em uma mesa. Me aproximei, identificando me e falei sobre o blog FTT . Ele imediatamente me passou seu telefone e apenas me pediu que lhe passasse o link com as materias já efetuadas. Feito isto, Marcelo viu a seriedade e a proposta das homenagens aos ex jogadores e marcamos a nossa entrevista.
Confiram !


                                                         Bruno e Marcelo Oliveira

FUTEBOL DE TODOS OS TEMPOS - Daquela turma do juvenil do Atletico , quais jogadores subiram com você para a equipe principal?

MARCELO - Olha foi a maioria, algo raro de acontecer. Geralmente alguns param, outros saem para equipes do interior mas ali tinhamos uma geração muito boa e eu tive o privilegio de fazer parte. No time profissional logo após tinhamos pelo menos 70% da equipe formada na base.


FTT – E foi uma safra  impressionante.

MARCELO - Foi. Eram jogadores de alto nivel pois eu considero o Reinaldo um genio, o Cerezo um craque como poucos, pois ele tinha uma dinamica de jogo maravilhosa. O Paulo Isidoro um jogador muito util que qualquer treinador gostaría de ter no time. Tinha o Getulio excelente jogador na lateral, o Marcio um zagueiro vigoroso, o Alves , João Leite, Marinho, Heleno, Danival, Campos...quer dizer a grande maioria. Aqueles que não deram certo aqui rapidamente arranjaram lugar em outros clubes do Brasil. E este time jogava um futebol moderno para a epoca. Veja que se fosse um meio campo atual teriamos o Cerezo e o Angelo que marcavam e saíam para o jogo. O Paulo Isidoro e o Danival eram jogadores que tambem sabiam marcar muito bem e tinham boa tecnica. Eu chegando no Reinaldo mais na frente. Teríamos apenas que adaptar ao preparo fisico de hoje em dia.


FTT - E não era facil ser titular neste meio campo?

MARCELO - Realmente não era. Veja que no campeonato brasileiro de 1977 chamamos a atenção de todo Brasil pois nosso time tinha a melhor defesa, o melhor ataque e o artilheiro (Reinaldo). Não perdemos um jogo sequer. No primeiro turno o Paulo Isidoro foi titular e eu entrava no decorrer das partidas. Já no segundo turno eu é que fui titular com o Paulo Isidoro entrando no meio das partidas. Depois o Barbatana me colocou de ponta esquerda e o Paulo Isidoro no meio e foi um periodo muito bom pois acabei convocado para a seleção brasileira.


Nelinho, Piazza, Amaral, Getulio, Raul e Vanderlei Paiva;
Agachados: Roberto Batata, Marcelo, Campos, Danival e Romeu

FTT – Na copa América de 1975 a seleção brasileira foi formada praticamente por jogadores do Atlético e Cruzeiro. Vocês inclusive venceram a Argentina duas vezes , uma em BH e outra em Rosario. Foi um belo time este mineiro.
MARCELO – Foi uma ótima seleção e me parece que tinham apenas quatro jogadores de fora. Me lembro aqui do Ivo Wortman um excelente volante do América RJ. Veio o Luiz Pereira , o Amaral e o Roberto Dinamite (vieram ainda Miguel e Geraldo). O time era Raul, Nelinho, Luiz Pereira, Piazza e Getulio. No meio o Vanderlei Paiva, o Danival e eu. Na frente o Roberto Batata, Campos e Romeu. Depois jogou também o Dinamite, Palhinha pois eu joguei somente uma parte da competição já que  acabei sendo convocado para a seleção brasileira que disputou o panamericano no México. E nós acabamos ganhando lá a medalha de ouro.


FTT – E como foi o ambiente . Ficavam separados os grupos de jogadores do Atlético e do Cruzeiro ou se integraram todos?
MARCELO – A rivalidade sempre foi muito grande mas por parte dos torcedores e da imprensa. Nós jogadores nos demos muito bem , ficamos alojados na Toca da Raposa e o técnico era o Oswaldo Brandão. Criamos uma amizade muito grande com o Eduardo, o Nelinho que posteriormente acabou jogando no Atlético e de quem sou grande amigo até hoje. Raul foi um grande amigo tambem. A rivalidade ficava fora. Muito antes pelo contrario,ali todos torciam pelo sucesso do companheiro de seleção.

FTT – Nos esclareça uma coisa. A seleção veio jogando e ganhando exclusivamente com jogadores mineiros. Depois na terceira partida passaram a jogar na zaga Amaral e Luis Pereira mas o resto do time era formado de mineiros. Continuaram invictos. Porque logo na final Oswaldo Brandão colocou em campo o Miguel e Roberto Dinamite do Vasco e o Geraldo do Flamengo?
MARCELO – Não sei ao certo o que ocorreu. Talvez pelo fato do Brandão ser o técnico da seleção principal também ele desejasse observar alguns destes jogadores atuando. A seleção vinha atuando bem, não havia nenhuma fragilidade que levasse a colocar reforços de fora. Porem não houve nenhuma contestação por parte dos jogadores que receberam muito bem os que chegaram de fora.

FTT – E o Geraldo do Flamengo ?

MARCELO – Eu não cheguei a jogar com ele nesta seleção porque como eu disse, saí na fase final para participar do Panamericano mas joguei com ele na seleção de Cannes em 73. Tinha eu, o Pintinho, o Rondinelli, o Geraldo. Ahh, o Geraldo brincava com a bola. Era um jogador que jogava brincando,  dono de uma técnica excepcional. Infelizmente teve aquele problema e faleceu cedo.


FTT - E você acabou sendo campeão do Panamericano em 75?
MARCELO - Fomos. A final foi contra o Mexico os donos da casa. Nosso time era muito bom e praticamente todos jogadores foram idolos em seus clubes. Ganhamos a medalha de ouro .

Tecão, Carlos, Rosemiro, Carlinhos, Tiquinho, Marcelo, Claudio Adão, Alberto Leguelé, Batista e Edinho


FTT – Na final do mineiro de 1976 a final foi contra o Cruzeiro de Raul, Nelinho, Palhinha, Roberto Batata, Zé Carlos, Piazza e cia .O  Atlético venceu por 2x0. Se lembra deste jogo e quem fez os gols?
MARCELO – Claro. Foi sem duvida ali, que nós começamos a quebrar a hegemonia do Cruzeiro. Eles tinham um time maravilhoso que vinha desde a década de 60 com alguns remanescentes daquela época e outros que surgiram nos anos 70 como o Eduardo, Joãozinho, Palhinha e o prorpio Nelinho. Eu fiz gols nos dois jogos das finais e o Reinaldo fez o outro gol deste jogo. Jogamos um futebol brilhante que não apenas venceu mas que encantou. Era um time jovem, rápido, de boa tecnica e que tinha uma identificação muito grande com a torcida porque quase todos foram criados dentro do clube. Nesta época era diferente pois nós tínhamos o sonho de jogar no time principal e de lá ir a seleção brasileira. Hoje, talvez o sonho maior do jovem jogador é ir para a Europa.


FTT - O Atletico fez uma excursão a Asia em 1977. Dos 12 jogos você fez 10 gols. Foi o seu momento de ascensão no Atletico?

MARCELOFoi. Eu vinha tendo um conflito com o Barbatana, ele me tirou do time e em vários jogos nem no banco ele me deixou. Houve então um protesto da torcida e uma revolta minha também. Ele era um técnico muito duro, autoritário mas também muito competente. Veio 77 e resolvi que seria titular. Fizemos um primeiro amistoso do ano e eu fiz 3 gols. No segundo contra o Nacional do Uruguai eu fiz mais dois e então saímos para a excursão. Eu amadureci um pouco mais e  também  sabia que a concorrência no Atlético era muito forte e eu deveria me doar ao Maximo. Diferentemente do que ocorre hoje em dia quando um jogador novo mal começa fazer sucesso e já vai embora naquela época tinham muitos bons jogadores a disposição do treinador.


O ano de 1977 foi o melhor na carreira de Marcelo. Aqui ele reencontra um velho rival, Dirceu Lopes agora no Fluminense.

FTT – E o ano foi bom mesmo pois você acabou sendo convocado para a seleção principal.
MARCELOFoi . E não era fácil ser convocado porque o treinador da seleção naquela época tinha vários grandes jogadores a disposição para cada posição.




FTT – Então teve um grande  jogo contra a Alemanha. Você entrou no segundo tempo. Se lembra desta partida?
MARCELO Me lembro bem pois era um jogo preparatório para o Mundialito de Cáli do qual eu também participei. Nós fizemos dois amistosos sendo um contra a seleção carioca em que eu fiz um gol e este contra a Alemanha. Me lembro que entrei e fiz boas jogadas pela esquerda e acabamos empatando a partida em 1x1.

A escalação da seleção brasileira para esta partida

1 - Leão [Palmeiras]
2 - Zé Maria I [Corinthians]
3 - Luís Pereira [Atlético Madrid]
4 - Amaral I [Guarani]
6 - Rodrigues Neto [Botafogo]
5 - Toninho Cerezo [Atlético-MG]
8 - Zico [Flamengo]
10 - Rivellino [Fluminense] - cap
7 - Gil [Botafogo]
(21 - Marcelo) [Atlético-MG]
9 - Roberto Dinamite [Vasco]
11 - Paulo César Caju [Botafogo]

FTT – Depois, ainda em 77  contra a Iugoslávia a seleção teve 4 jogadores do Atlético . Você se lembra quais?

MARCELOLembro muito bem. Tenho uma foto deste time guardada com muito carinho. Neste jogo eu joguei de ponta direita, o Paulo César Caju de ponta esquerda. Jogou ainda o Paulo Isidoro, o Reinaldo e o Cerezo. A partida terminou 0x0 no Mineirão e é claro que pelos jogadores convocados a torcida do Atlético foi maioria absoluta. Reinaldo fez grandes jogadas mas por infelicidade não fez nenhum gol
Brasil x Iugoslavia no Mineirão - Ze Maria, Leão, Marinho Chagas, Luis Pereira, Toninho Cerezo e Edinho.
Agachados: Nocaute Jack, Marcelo, Paulo Isidoro, Reinaldo, Rivelino e Paulo Cesar Caju.

FTT – Você jogou com os dois maiores artilheiros na historia do Atlético: Dario e Reinaldo. Me fale um pouco dos dois e de sua adaptação ao estilo de cada um.
MARCELOForam dois grandes jogadores, dois grandes ídolos mas cada qual com seu estilo e sua característica. O Dario eu joguei com ele em 74 e depois em 78 . Usava lançar as bolas em profundidade para ele porque ele tinha muita velocidade .  Eu também alçava muitas bolas na área  porque ele era muito bom de cabeça. Já o Reinaldo a gente fazia tabelas, jogadas curtas e se entendia muito bem. Era um jogador de altíssimo nível. Tinha facilidade pra driblar, para antever a jogada e eu tive o privilegio de jogar com ele. A gente jogou muito tempo junto na base e então tínhamos realmente um grande entrosamento. Eu tinha que me virar para acompanhar ainteligencia do Reinaldo.


FTT –  Minas Gerais teve nesta época 5 volantes sensacionais: Vanderlei Paiva e Toninho Cerezo no Atlético , Piazza e Zé Carlos no Cruzeiro e Pedro Omar no América. Quais eram os mais geniais?
MARCELO – Cinco grandes jogadores. Características diferentes mas tods muito bons. Acho que o Cerezo se destacou mais porque era técnico, dinâmico e criou uma nova fase dos volantes pois ele se movimentava muito em campo. O Piazza pela liderança e era um exímio marcador. Me impressionava porque muitas vezes eu jogava de lado e pensava que ele não iria chegar e quando assustava o Piazza tava dando o bote e sem falta, sempre na bola, limpamente. Zé Carlos era técnica pura. Extremamente técnico e que marcava muito bem tambem. Ele não errava passes, tanto curto quanto longos. O Pedro Omar bem equilibrado entre a técnica e a raça e por fim o Vanderlei o famoso carregador de piano que marcava muito bem mas sai para o jogo e chutava muito bem fazendo seus gols.


FTT – Porque você saiu do Atlético?
MARCELO – O principal motivo foi a indefinição entre eu e o Paulo Isidoro pois acabava que jogava um , hora jogava outro e acabava que nenhum realmente aparecia tanto e acabamos não indo nenhum dos dois a Copa de 78 apesar de termos jogado muito bem o Mundialito e estarmos cotados para ir a Copa. O Atlético então se interessou em trazer um jogador com outro estilo e eu aproveitei o interesse do Botafogo em me levar. Vi que eu teria mais chances. Não foi fácil largar o Atlético pois eu cresci ali mas fui alçar novos vôos.


MARCELO VAI PARA O BOTAFOGO

FTT – No Botafogo você jogou com Mendonça. Era um jogador diferenciado?

MARCELO – Mendonça era um excepcional jogador que batia na bola como poucos. Não somente em bolas paradas mas durante o jogo mesmo. Jogador que deixou seu nome marcado na historia do Botafogo.

Botafogo 1979 - Gaucho, Ze Eduardo, Rocha, Serginho, Paulo Sergio e Perivaldo.
Agachados: Edson, Mendonça, Mirandinha , Marcelo e Ziza.


FTT – E este Botafogo teve um grande meio campo com Rocha, Mendonça e você?
MARCELO – Teve. A principio quando eu cheguei ainda não tinha o Rocha mas ele chegou logo depois. Então era o rocha , o Mendonça e eu e na frente tínhamos o Renato Sá, Mirandinha e Ziza com quem joguei no Atlético.

                                                      Botafogo de 1981 - Marcelo é o ultimo agachado a direita.


FTT – Na semifinal do Brasileiro de 81 você fez o gol da vitória do Botafogo sobre o São Paulo na primeira partida. Foi o primeiro de dois grandes jogos. 
 
MARCELO – O time do Botafogo não era um time espetacular, maravilhoso mas era um time muito bem montado. Taticamente ele cumpria muito bem o esquema. Nós jogávamos o primeiro tempo com um time e no segundo tempo sempre tinhamos uma estratégia diferente . Jogava o Jerson e o Mirandinha para explorar os contra ataques. Neste jogo , com o Maracanã lotado , o Rocha deu um chute cruzado e eu acompanhei. O Valdir Peres não conseguiu segurar firme e eu aproveitei e fiz o gol da vitória. Fomos então para São Paulo com a condição de empatar o jogo.

FTT – Porem no segundo jogo , aliás um jogaço a vitória o São Paulo por 3x2. O tricolor tinha uma verdadeira seleção brasileira. (Valdir Peres, Getulio, Oscar, Dario Pereyra, Marinho Chagas, Everton, Renato, Serginho e Zé Sergio)
MARCELO – O time deles era muito forte, maravilhoso. Porem o resultado me pareceu injusto porque o juiz não agüentou a pressão e logo após o intervalo expulsou um jogador nosso logo aos 10 minutos e deu um pênalti inexistente no Serginho. Estávamos ganhando o jogo por 2x0 com gols do Jerson e Mendonça e o São Paulo acabou virando e se classificando para a final.

A SAIDA DO BOTAFOGO PARA O NACIONAL DO URUGUAI

FTT – E do Botafogo você foi para o Nacional do Uruguai?
MARCELO – Fui e foi uma experiência maravilhosa. Joguei com grandes jogadores lá como o Victorino, Rodolfo Rodriguez, Blanco, Moreira, Victor Espárrago veterano da seleção de 70. Fiquei no Nacional por um ano. Foi muito bom apesar do estilo deles ser de mais marcação, mais pegada mas me adaptei bem ao futebol uruguaio.
FTT – E a rivalidade entre Nacional e Peñarol?
MARCELO – É bem parecida com Atlético e Cruzeiro . O Peñarol mais popular e o Nacional mais da elite. Disputei a final do campeonato uruguaio contra eles e perdemos com um gol de Morena. Eles também tinham um timaço e jogava lá o Jair que foi campeão aqui pelo Inter.

                                                      Marcelo no Nacional do Uruguai.


FTT – Cite os cinco melhores jogadores que você viu atuar , seja a favor ou contra.

MARCELO – Eu teria até bem mais para indicar tamanha a quantidade de grandes jogadores nesta época mas eu diria pela ordem dos que eu joguei e convivi que seriam: o Reinaldo que para mim foi o maior após o Pelé, o Rivelino, Toninho Cerezo por tudo que ele representava para o time de futebol, Tostão que eu achava um gênio e o Lola. Eu peguei o Lola pouco tempo no Atlético mas este pouco tempo que peguei eu procurava até imita-lo. Tentava fazer suas jogadas. Foi um jogador que não teve tanta projeção nacional mas tinha uma técnica muito apurada e teve a carreira prejudicada por causa da contusão na perna.


FTT – Quem foi seu grande treinador?

MARCELO – Olha eu tive bons treinadores. O Barbatana foi um que apesar de ser muito rigoroso e rígido sabia trabalhar com os jogadores e por isto mesmo surgiram tantos jogadores naquela época no Atlético. Mas o grande treinador mesmo foi o Tele Santana que me levou para o profissional e é nele em quem me espelho até hoje. Eu tenho minha linha de trabalho mas tem conceitos do Tele que eu trago até hoje e procuro usa-los . Acho que ele juntava bem a parte de campo e tatica com a profissional e pessoal tambem. Dos atuais gosto muito do Levir Culpi com quem trabalhei no Atlético .

MARCELO OLIVEIRA TREINADOR

FTT – E então começou sua carreira de treinador no Atlético.
MARCELO – Eu tive um convite do Barbatana pra dirigir o Junior do Atlético mas na época preferi me afastar e fui mexer em um ramo totalmente diferente ficando longe por quase 10 anos. Depois fui convidado para fazer um programa esportivo na TV e que acabou fazendo muito sucesso. Foi então que vi que sentia saudades do futebol. Resolvi então fazer um curso de capacitação para Técnico e que me permitiu coordenar melhor minhas idéias. Rever alguns conceitos e então voltei ao Atlético para treinar o juvenil. Foi uma coisa impressionante pois eu havia dito a minha família que gostaria de chegar a ser técnico do profissional. Era o ano de 2001 e em 2002 eu já dirigia pela primeira vez o time profissional do Atlético.
FTT – Você acha que faltou um maior apoio do Atlético para você continuar o seu trabalho que era bom?

MARCELO – Não foi o Atlético mas especificamente o Alexandre Kalil. Ele podia ter me deixado começar o ano com um trabalho programado mas não deixou. Só me chamava para apagar incêndio. Teve uma pesquisa na Radio Itatiaia em que a torcida queria que eu continuasse e tive 76% de aprovação,a própria imprensa me deu muita força mas o Alexandre Kalil não quiz. Preferiu trazer outros técnicos de fora que infelizmente não deram certo que foram o Leão, Celso Roth e Luxemburgo.


FTT – O Técnico que é prata da casa tem mais dificuldades em relação ao que vem de fora?
MARCELO – Eu acho que o técnico nascido em Minas tem muito mais dificuldade e não apenas o técnico. Acho que o artista em geral tem esta dificuldade. Muitas vezes ele tem de sair e voltar para ser reconhecido.

                                        Marcelo Oliveira comandou o Paraná em 2010.

FTT – Você já foi jogador e é técnico. Jogador derruba treinador?

MARCELO – Olha eu estou no futebol a 36 anos e nunca vi um grupo de jogadores deliberadamente derrubar um técnico. Fazer campanha contra. O que pode ocorrer é um jogador que não está sendo aproveitado querer jogar o grupo contra o treinador. Pode sim acontecer de determinado jogador que não está bem ou não gosta do método do trabalho daquele treinador fazer corpo mole, não se empenhar pelo time. Se ele tem uma pequena contusão que ele pode jogar ele fica fora e não se empenha nos treinamentos e nos jogos. Finge que joga.

                                                           Bruno e Marcelo Oliveira