FTT - Futebol de Todos os Tempos

ENTREVISTAS COM EX JOGADORES, TECNICOS, DIRETORES E PESSOAS LIGADAS AO FUTEBOL QUE CONTRIBUIRAM DE ALGUMA FORMA PARA QUE PUDESSEMOS CONHECERMOS UM POUCO MAIS DA HISTORIA DO FUTEBOL BRASILEIRO E MUNDIAL.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

O Craque disse e eu anotei - ATALIBA

Conheci o Ataliba quando estive presente na Associação Cooperesportes Craques de Sempre (www.craquesdesempre.com.br). Trata-se de uma pessoa muito receptiva e simples, que sempre se mostrou interessado em realizar a entrevista. A matéria foi gravada no próprio Parque São Jorge.



 
FUTEBOL DE TODOS OS TEMPOS: Ataliba, você começou inicialmente nos Dentes de Leite do Corinthians?
ATALIBA: Exatamente, comecei com Wladimir e Solito. Foi em 1969. O treinador era o Sr. Luiz Morais, conhecido como Cabeção. Grande técnico. Era uma época boa.

 FTT: Chegou a conhecer também o Sr. José Castelli, o Rato?
ATALIBA: Depois eu passei com o Rato. Nesta época estava na Vila Maria, em seguida fui pra Penha e não deu mais pra continuar no Corinthians e fui para o Juventus através de um grande amigo meu, o Paulinho.

Mauricio Sabará entrevistando Ataliba no Parque São Jorge.

FTT: Quem era o seu grande ídolo no futebol?

ATALIBA: Meu grande ídolo era o Rei (Pelé), mas este é a parte. Mas o meu grande ídolo mesmo na época dos Dentes de Leite era o Rivellino.

 

ATALIBA FAZ PARTE DE UM GRANDE TIME DO JUVENTUS
FTT: Como foi esta sua passagem pelo Juventus da Mooca?
ATALIBA: Foi ótima, uma experiência muito grande. Joguei oito anos lá, de 74 a 82.



FTT: Você foi artilheiro do Campeonato Paulista ou dividiu a artilharia com outro jogador?

ATALIBA: Ficou meio que no ar. Eu fiz 28 gols e ele fez também 28, mas um gol dele deram a mais. Era o Juary, do Santos. Um belo time que tinha naquela época.

FTT: Ataliba, você era um ponta-direita que marcava muitos gols. E uma das suas vítimas principais na época do Juventus era justamente o Corinthians.
ATALIBA: É a fase. Não foi só no Corinthians. Não sei se foi Deus, mas todo jogo enfiava um gol neles. Até hoje eles falam. Mas eu também fazia gols nos outros times.
FTT: Na época, quando você jogava contra o Corinthians, era marcado pelo Wladimir.
ATALIBA: Nossa, esse era um monstro, meu amigão até hoje. Jogamos juntos nos Masters. Amigo de velhas datas.
Corinthians 1984 (da esq. p/direita, em pé): Casagrande, Sócrates, Carlos, Eduardo, Ataliba e Zenon;
(agachados) Mauro, Juninho, Edson, Biro Biro e Wladimir.


FTT: Quais foram os outros grandes laterais-esquerdos que você enfrentou ao longo da carreira?
ATALIBA: Vários e muito bons, mas também maldosos. Teve o Gilberto Sorriso, mas este era limpo, amigão meu, conversamos até hoje. Tiveram muitos. Na época tinham laterais e pontas. No começo eu não era ponta, mas meia-direita na época de juvenil. Como diziam que não tinha ponta, me colocavam lá e acabei ficando.



FTT: Em 1982 você voltou ao Corinthians, ou seja, o bom filho a casa torna. Como foi esta contratação, o que significou este momento e o período que esteve no Parque São Jorge?
ATALIBA: Sempre fui corintiano. Minha família também. Foi algo muito bom na época da Democracia Corinthiana. Um momento histórico. Time que tinha muita participação. Eu nem tanto, mais o Sócrates, o Casagrande e o Wladimir. Período das Diretas Já. Tínhamos esta oportunidade de ter esta idéia. Foi ótimo. Falavam que era uma zona, mas não era bem assim. As idéias eram boas.
O Corinthians campeão paulista de 1982. Ataliba é o terceiro em pé  a partir da esquerda.

FTT: E vocês foram Bicampeões Paulistas.
ATALIBA: Eu fui Tri, pois além do Bi de 82 e 83 no Corinthians, venci também o de 84 pelo Santos.
FTT: Inclusive na partida final de 82, contra o São Paulo, na vitória de 3 a 1, o terceiro gol do Corinthians foi, talvez, uma das maiores jogadas da sua carreira, se não foi a maior. Você consegue lembrar como foi?


ATALIBA: Lembro bem. Mas também se eles me pegam! Eu não era muito habilidoso. Vinha pela meia-esquerda, quando vieram o Éverton e o Marinho Chagas. Falam que foram o Oscar e o Dario Pereyra. Eu até gosto, pois foram dois monstros. Eu passei no meio do Chagas e do Éverton e toquei para o Casagrande marcar. Aí só foi festa.
FTT: Outras grandes atuações suas foram no 10 a 1 contra o Tiradentes pelo Brasileirão de 83 e uma partida contra o Flamengo no Campeonato Brasileiro de 84.
ATALIBA: Contra o Tiradentes eles fizeram 1 a 0, com um gol de Sabará. E ficaram apenas nisso (risos...). Contra o Flamengo, no Rio, perdemos por 2 a 0 e aqui em São Paulo tínhamos que ganhar com dois gols de diferença. E ganhamos por 4 a 1.
Mozer corta lançamento para Ataliba. O atacante corintiano deu muito trabalho a defesa rubro negra.

 
FTT: Em 84 você saiu do Corinthians. Qual foi o motivo da sua saída?
ATALIBA: O treinador era o Jair Picerni que ,quando chegou, teve outras idéias. O Serginho Chulapa, meu compadre, veio lá em casa, me convidando pra ir para o Santos. Eu dizia pra ele que estava no Corinthians, não muito bem, mas não queria ir. Acabei indo para o Santos.

FTT: Você, inclusive, foi Tricampeão pelo Santos em 84, mas era mais reserva.
ATALIBA: Exatamente, pois o time já vinha muito bem e pra eu entrar era osso duro. O time era muito bom.



FTT: Depois do Santos você foi para o Santa Cruz e outras equipes.
ATALIBA: Fui em 86 para o Santa Cruz, sendo Campeão Pernambucano naquele ano. Depois do Santa, fui pra baixo. Joguei no Marília e no Gama de Brasília. Eu já estava em final de carreira. A idade vai chegando.

FTT: Você era ponta-direita. Teve o Marcelinho que jogou em uma posição mais ou menos parecida com a sua.
ATALIBA: Ele era mais um meia. Não era um ponta que ficava aberto. Eu também não era um ponta mesmo, pois os gols só saem mesmo dentro da área, portanto tinha que ficar por lá.

FTT: Quem foram os grandes jogadores que você viu jogar, não somente do Corinthians, mas do futebol em geral?
ATALIBA: Se eu for te dizer todos, vai demorar, pois a lista é muito grande. Eram épocas boas. Não era só o Santos um bom time, tinha o Palmeiras, a Ponte Preta, o Guarani, America de Rio Preto, o próprio Marília que era difícil enfrentá-los na casa deles. O futebol mudou muito.

FTT: Em que você se dedicou depois que encerrou a carreira?
ATALIBA: Participo da Associação, dando aulas. Ainda jogo futebol com frequencia para manter a forma.
FTT: O que representou o Corinthians na sua vida?
ATALIBA: Tudo! Minha estabilidade e meu nome. Não só a mim, pois ele ajuda muita gente. O Corinthians é diferenciado. Todo mundo ama e todo mundo odeia. Aqui é difícil. Pra você estar bem tem que se dar bem com a massa, com si mesmo, entender a torcida corintiana, pois ela é exigente, pura, humilde, mas te cobra muito também.


REPORTAGEM: Maurício Sabará Markiewicz.
 FOTOS: Estela Mendes Ribeiro.




terça-feira, 26 de outubro de 2010

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

O Craque disse e eu anotei - EVALDO

Evaldo foi daqueles jogadores que dedicaram sua vida praticamente a dois clubes. Muito franco coloca seus pontos de vista com muita sinceridade. Mora a 40 anos a um quarteirão do antigo estadio do Barro Preto, onde o Cruzeiro mandava seus jogos até o fim dos anos 50 e foi o campo de treino até a inauguração da Toca da Raposa em 73.

EVALDO NO FLUMINENSE,O SEU CLUBE DE CORAÇÃO

1)   FUTEBOL DE TODOS OS TEMPOS - Você começou sua carreira em Campos do Goytacazes mesmo?
EVALDO Eu comecei no Americano. Com 10 anos jogava no infantil e cheguei até os 15 anos no juvenil. Quando subiria para o Junior fui para o Fluminense.

2)   FTT - A sua primeira partida no profissional do Fluminense foi em que ano?
EVALDO Foi em 1962 numa partida contra o América.

Evaldo ao centro nos juniores do Fluminense

3) FTT - E como era para um garoto  jogar entre estrelas como Castilho, Altair, Pinheiro, Jair Francisco, Tele e Escurinho?
EVALDO – Foi um grande prazer e uma satisfação. Duplamente falando afinal eu sempre fui torcedor do Fluminense, desde os 6 anos de idade, E eu escutava os jogos no radio e a gente fazia aquela imagem dos jogadores, altos, fortes, e quase intocáveis. Não teve nada disto. Cheguei e a turma era muito boa. Era o clube do meu coração e quando cheguei nem imaginava que iria passar pelo profissional, fazer carreira.

4) FTT - O Fluminense chegou a final do carioca de 63. O jogo contra o Flamengo levou mais de 190 mil torcedores ao Maracanã. Se lembra desta partida?
EVALDO Nossa, tinha “gente saindo pelo ladrão.” Eles pegavam os torcedores e iam passando em cima dos outros carregando e o cara dava um jeito de se encaixar em algum lugar. Venderam mais ingressos do que cabia no Maracanã.
O jogo em si não foi um grande jogo mas valia pela mística do Fla-Flu. A gemte precisava ganhar para ser campeão e ficamos no 0x0. O jogo foi muito catimbado e a cada ataque que fazíamos, caíam jogadores do Flamengo na área, no meio campo e era aquela demora para atender. No final não tinham descontos como hoje em dia.
O Flamengo tinha o Marcial no gol que pegou muito. Teve uma bola que o Escurinho matou no peito e tentou encobri-lo mas ele estava atento e salvou.





5)  FTT - O Fluminense tinha um belo time com grandes jogadores. Castilho, Carlos Alberto Torres,  Procópio, Altair, Oldair , Joaquinzinho, Evaldo e Escurinho. Faltou o que para conseguirem o titulo?
EVALDO Apesar do campeonato decidir nesta ultima partida mas o Flamengo teve o mérito de fazer a melhor campanha e jogar pelo empate. Teve todo um campeonato e els chegaram com a vantagem.

FTT – FICHA TECNICA DA FINAL DE 1963

FLAMENGO 0 x 0 FLUMINENSE
Data – 15 / 12 / 1963
Local – Maracanã
Público: 194.603 (177.020 pagantes)
Renda: Cr$ 57.993.500,00
Árbitro – Cláudio Magalhães
Flamengo – Marcial, Murilo, Ananias, Luís Carlos Freitas e Paulo Henrique;
Carlinhos e Nelsinho; Espanhol, Aírton ‘Beleza’, Geraldo e Osvaldo “Ponte Aérea”.
Técnico: Flávio Costa.
Fluminense – Castilho, Carlos Alberto Torres, Procópio, Dari e Altair; Oldair
e Joaquinzinho; Edinho, Manuel, Evaldo e Escurinho. Técnico: Fleitas Solich.

Iris, Evaldo e Luiz Henrique no Fluminense em 1963.

6)   FTT - Me fale do Escurinho,  ponta esquerda. Vocês dois chegaram a jogar juntos?
EVALDO – Jogamos. Escurinho era um ponta muito rápido. Era ele por um lado e Telê no outro. Só que Tele pensava mais, era mais técnico e o Escurinho corria muito e cruzava muito bem. Ele não era artilheiro mas tinha um fundamento muito bom que era o cruzamento e também era muito tático. Cumpria a risca o que o treinador pedía.

7)  FTT - E o Castilho está ente os melhores goleiros que você viu?
EVALDO Está. E o bom goleiro é gozado pois o atacante não chuta de qualquer distancia. É impessionate. O Castilho entrava lá pro gol e os atacantes tinham um respeito com ele . Quase não ia bola nele e quando ia ele estava sempre bem colocado. Não era goleiro de ficar saltando a toa. Era gozado porque quando Castilho não jogava e entrava o Cláudio ou o Edson Borracha era um tiroteio danado. Os atacantes parece que não confiavam neles e olha que todos dois eram bons goleiros. Agora o Castilho alem de ter sorte era muito bom e olha que naquela época não existia este negocio de treinador de goleiro não.

Evaldo cabeceando contra o Flamengo.


8)    FTT - Não venceu o campeonato carioca de 63 mas foi campeão no ano seguinte. A final foi contra o Bangu que também tinha um belo time. Se lembra?
EVALDO – Me lembro bem apesar de não ter jogado. Eu tive um problema no joelho no primeiro turno e fiquei muito tempo de fora. Fui voltar e em um jogo contra o Flamengo numa corrida arrebentei de novo e falei com o doutor que agora não dava mais. Infiltravam injeções para jogar e foi isto que contribuiu para o meu joelho ter ficado daquele jeito.Eu só podia bater com o lado de fora do pé. Imagina você num Fla Flu e não poder dar um passe com o lado interno do pé porque doía o joelho.
Agora falando da final, te digo que para mim o Bangu era o melhor time do Rio naquela época. Perdeu esta final pra gente mas eram melhores e durante este três anos deu muito trabalho. 
No campeonato seguinte em 65 foi a mesma coisa. O Samarone sentiu mal na concentração e mandaram me buscar . Eu tinha jogado pelos Aspirantes.Fui, jantei com o pessoal e fui pro jogo no dia seguinte contra o Bangu. Com menos de 3 minutos lançaram uma bola Denílson subiu com o Mario Tito e a ola sobrou pra mim fazer o gol da nossa vitória. Tiramos então o Bangu da final e acabamos perdendo do Flamengo. Já em 66 eles finalmente acabaram sendo os campeões. Tinha o Paulo Borges que jogava muito , um atacante chamado Parada que dava muito trabalho. Cabralzinho, o Mario Tito que depois veio jogar comigo no Cruzeiro.


9)  FTT - Você teve como companheiro de clube o Procópio no Fluminense e também aqui no Cruzeiro. Como era o futebol dele?
EVALDO – O Procópio foi o um dos melhores senão o melhor zagueiro que nós tivemos pelo lado esquerdo. No Fluminense também. O problema é que ele era muito temperamental. Ele era o capitão do time e tinha muita honra disto. Aí uma vez teve uma discussão lá e ele chegou para o Tim e falou que não queria ser mais o capitão. Agora dentro de campo o Procópio vestia a camisa como poucos, dava um duro danado. Teve um jogo nas Laranjeiras se não me engano contra o Bonsucesso que ele foi expulso e a partida estava empatada em 0x0 . Ele estava no vestiario que era no mesmo nível do campo e já tinha tirado a roupa quase toda, só estava de sunga. O Fluminense então fez um gol e o Procópio entrou no campo para abraçar o pessoal de sunga e com uma meia só (risadas gerais).

Evaldo em um jogo nas Laranjeiras.

Evaldo e Samarone em uma partida contra o Botafogo.

 A SAÍDA DO TRICOLOR PARA O CRUZEIRO

10) FTT - Então o presidente do Cruzeiro, Felício Brandi resolveu fazer um dos melhores times do Brasil. Te fez uma proposta para sair do Fluminense.
EVALDO – O que aconteceu foi o seguinte.Na hora de renovar o contrato, eu me sentia como um membro da família tricolor. Eu estava a cinco anos lá o vice presidente pegava a gente e levava pro Maracanã , pra passear e na hora de renovar o contrato falou: é pegar ou largar me oferecendo  o mesmo salário. Eu disse: larguei! Faltou respeito, reconhecimento. Saí de lá muito magoado pois antes de tudo eu era tricolor.
Foi então que apareceu o Cruzeiro. Eu não conhecia Belo Horizonte, nem o Cruzeiro. Eu vi o Cruzeiro jogar lá, uma vez uma semana antes nas Laranjeiras. Tostão não foi e o Dirceu Lopes arrebentou com o jogo. Os caras ficaram doidos pra contratar ele . O Felicio falou que de jeito nenhum.

11) FTT - Hoje o Cruzeiro tem uma das melhores estruturas do país mas na época o Fluminense tinha muito mais recursos do que o Cruzeiro ou não?
EVALDO – O Cruzeiro não tinha nada comparado ao Fluminense. Era o time que tinha a melhor estrutura do Rio e para você ter idéia eles já tinham uma lavanderia automática naquela época. As toalhas brancas eram brancas mesmo. Todo dia os calções e camisas estavam passadinhos. O salão nobre do Fluminense era uma delicia, um espetáculo. Aí então eu vim para o Cruzeiro que não tinha nada mas tinha um time e era isto que eu queria.
 
Evaldo e Bruno  

12) FTT - E então você veio para compor aquele ataque fabuloso?
EVALDO – Pois é, nesta época nós éramos todos novinhos. O Tostão e o Dirceu tinham 19 anos,eu e o Natal 20 e só o Hilton Oliveira que era um pouco mais velho e tinha uns 24. A gente tinha prazer em jogar,Fazíamos o que gostávamos. A gente sabía que o nosso time era bom mas não sabía que a gente podia ganhar do Santos. O time deles era o melhor e não era apenas do Brasil não. Eles eram campeões mundiais e um espetáculo.
Porem nós falamos: vamos pra cima deles. Antigamente era diferente. Hoje os treinadores inventam tantas táticas, deixam os times muito presos e aí quando aparece um Neymar eu fico muito satisfeito. Ele joga e parte pra cima como nos bons tempos. Nosso time jogava assim como o Santos joga atualmente. Partia pra cima e jogava com rapidez. Agora não adianta você ter apenas jogadores velozes , tem que ter qualidade também e nós tínhamos. O Tostão era o cérebro do time, Dirceu era o motor, o Natal corria muito mas era um caso raro de jogador que corre e pensa naquilo que ia fazer. Chutava muito bem e antes de mandar a bola olhava e colocava na cabeça pra gente. O Hilton também era habilidoso.


13) FTT - Por falar nesta final , nem o mais fanático torcedor cruzeirense poderia imaginar um placar destes sobre o pentacampeão brasileiro. 6x2. Como aconteceu isto?
EVALDO – Quem falar que imaginava está mentindo pois o time deles era melhor.Quando nós saímos para o vestiário no intervalo a gente estava incrédulo , pensativo porque ninguem acreditava no que estava acontecendo. Ganhávamos por 5x0. Descíamos as escadas do túnel e era aquele zum zum zum . No começo do segundo tempo eles fizeram 2 gols rapidamente e  eu pensei: será que eles vão virar? Fizemos então mais um gol e abaixou a poeira.


14)    FTT - Em qual partida o Cruzeiro atuou melhor. Em BH quando fez este placar (6x2) ou em São Paulo quando perdia por 1x0, Tostão ainda perdeu um penalti e mesmo assim vocês viraram para 3x2?
EVALDO – Ahh foi no Mineirão.Aqui foi a partida perfeita. Lá em São Paulo foi mais emocionante. Lá o adversário se fez presente porque aqui no Mineirão foi outro time.Aqui o Raul assistiu o jogo mas lá ele pegou demais. Salvou varias bolas. Toda hora o Toninho Guerreiro e o Pelé na frente dele e ele salvando. Agora é como eu te disse. Nosso time não desistia, ele partia pra cima sempre. Podia estar ganhando de 3 que queria mais e foi o que fizemos. Fomos pra cima, o Tostão ainda perdeu um pênalti, pois ele nunca foi um grande batedor , Aliás nós não tínhamos um cobrador de pênaltis e quem cobrava era o Tostão e o Piazza. Ironia do detino, o Tostão perdeu o pênalti e logo depois cobra uma falta com pouco ângulo e manda lá na gaveta. Foi então que vimos que dava pois o empate era nosso. Partimos pra cima , empatamos o jogo. Se fosse hoje em dia treinador ia tirar atacante e colocar mais um zagueiro. Nós não,  continuamos pra cima e viramos pra 3x2. Aí foi só festa!
Agora se você me perguntar se nós éramos melhores do que o Santos eu te digo que não. Nós estávamos melhores naquele momento e vencemos com justiça o brasileiro. Agora o Santos era o melhor time do mundo. Era uma orquestra.
 
Evaldo observa a bola entrar na gaveta na falta cobrada por Tostão na final da Taça Brasil 66.


15) FTT - E você foi o artilheiro do Cruzeiro no torneio com 7 gols?
EVALDOFui, não me lembro de fiz 6 ou 7 gols.

16) FTT - Afinal quem era o centro avante daquele time do Cruzeiro: Tostão ou você?
EVALDOEu. O que acontece é que nosso grupo era muito forte e imaginar que tínhamos o Zé Carlos na reserva já dá pra você ver. Então Zé Carlos entrava em quase todos os jogos e geralmente saía eu ou algum ponta . Iam tirar o Tostão? Dirceu? Não tinha jeito. Então sobrava pra mim mas eu entendia isto. Tostão passava a jogar mais na frente para a entrada do Zé.
O jogador mais importante deste time do Cruzeiro era o Piazza. Era ele sozinho pra marcar ali no meio porque o Tostão não marcava ninguém, o Dirceu também não. Natal e Hilton muito menos. E ele fazia o que hoje precisa de 2 volante pra fazer. Então conforme o jogo o Airton colocava o Zé Carlos para ajudar na marcação. Só que o Zé naquela época já era um volante moderno porque alem de marcar ,chegava na frente muito bem e fazia gols. Ele então ajudava o Piazza que ficava sozinho ali dando combate.


17) FTT – E como jogavam Dirceu Lopes e Tostão?
EVALDOO Dirceu sería um meia atacante. Ele pegava a bola e levava lá dentro. Tinha dribles pra todos os lados. A diferença do Dirceu para o Tostão era esta. O Tostão pegava a bola aqui e lançava lá do outro lado e o Dirceu levava ela até lá. Tostão pensava muito mais no que iria fazer. Ele é quem armava mais.

FTT – Dirceu Lopes jogava no estilo Zico?
EVALDO - Exatamente !


EVALDO FOI UM DOS NOTAVEIS QUE COLOCARAM SEUS PÉS NA CALÇADA DA FAMA NO MINEIRÃO

Dizeres da placa de Evaldo:
“Evaldo Cruz, atacante inteligente e artilheiro decisivo, foi um dos principais craques do fabuloso time do Cruzeiro, que ganhou a Taça Brasil e os primeiros campeonatos estaduais disputados, no Mineirão.

A habilidade se manifestou cedo, nas categorias de base do Fluminense e na seleção brasileira juvenil, onde foi campeão pan-americano, em 1963.

Defendeu o Cruzeiro, por 10 anos, onde fez 111 gols. Foi o artilheiro do time, com 7 gols, na Taça Brasil, de 1966.

Ficou conhecido como o “Artilheiro do Terceiro Tempo”, por lutar muito, em campo, e fazer gols nos acréscimos dos jogos.”
.


18)     FTT - Logo em seu começo no Cruzeiro veio a semifinal da Taça Brasil .Quis o destino que os dois jogos fossem contra o seu ex clube. Um dos dois teria de ficar pelo caminho. No primeiro jogo no Mineirão vitória cruzeirense por 1x0 com um gol seu.O jogo de volta no Maracanã e o Cruzeiro venceu por 3x1  e você fez dois gols. Como foi a sensação nesta partida?
EVALDO – Olha pra ser sincero foi uma da partidas que eu mais vibrei; Nada contra o clube que é meu time de coração mas saí de lá magoado com as pessoas que dirigem o clube e comigo é diferente. Se é o Cruzeiro quem está me pagando o salário não sou como estes jogadores hoje em dia que não comemoram contra o ex clube. Então se eu podia jogar bem contra eles eu joguei. No Mineirão eu fiz um gol e lá no Rio eu fiz logo dois e vibrei muito. Hoje o cara joga 4 meses no clube e fica com esta bobeira que não pode comemorar. O jogador tem de honrar seu clube que é quem lhe paga e você tem de dar o seu melhor enquanto está ali e ponto final.

Tostão abraça Evaldo após o seu gol contra o Fluminense no Maracanã
19)   FTT - Na primeira partida do Cruzeiro em Libertadores em 1967 você foi o autor do primeiro gol. Este titulo ninguem te tira jamais.

EVALDO – Foi mas para ser sincero eu nem lembrava disto.

20) FTT - Nas semifinais o Cruzeiro pegou duas verdadeiras seleções: o Peñarol e Nacional do Uruguai.
(Peñarol tinha Forlan, Figueroa, Caetano, Abaddie, Pedro Rocha, Spencer e o Nacional Dominguez, Cincunegui, Mujica, Montero Castillo, Morales) . Se lembra como foram os jogos
EVALDO – Eram dois timaços . Aqui nós ganhamos do Peñarol pó 1x0 e do Nacional por 2x1 e eu fiz o segundo gol. Só que quando fomos jogar no Uruguai, os diretores sem experiencia nenhuma nos levaram sem agasalhos e camisas especificas para enfrentar o frio que estava lá. A gente penou. Não conseguiamos nem sair do hotel e acabávamos treinando num salão ali mesmo.
E teve outra coisa. O Brasil estava disputando a Taça Rio Branco exatamente lá no Uruguai e tinham 6 jogadores do Cruzeiro na seleção (Zé Carlos, Piazza, Natal, Tostão, Dirceu Lopes e Hilton) e eles se juntaram a nós na vespera do jogo. Foi então que conseguimos fazer um treinamento um dia antes com todo mundo e foi um treino puxado de uma hora e meia. Chegou na hora do jogo, aquele campo pesado com 10 cms de barro e nosso time era muito leve e sentiu. Você tocava a bola e ela ficava presa no lamaçal. Agora o time deles também era muito bom .

Evaldo contra Figueroa do Peñarol na estreia do Cruzeiro na Libertadores em 1967
21) FTT - Dizem que foi com você que surgiu o termo de "jogador que joga sem bola" . Era por causa da sua movimentação em campo?
EVALDO – Era. Quando eu cheguei no Cruzeiro e após alguns treinos o Airton Moreira veio e me falou: Evaldo , infelizmente eu achei que você fosse um jogador mas brigador dentro da área que trombasse lá na frente e vejo que não é. Eu falei com ele que não era mesmo. O Airton então falou que teria de procurar outro e eu ficar na resreva do Tostão. Eu falei que ele poderia me devolver para onde eu vim pois imagine se eu iria ficar na reserva do Tostão. Quando eu iria jogar? Falei com ele então pra me colocar ao lado do Tostão. Ele topou o desafio e eu tive de me adaptar. Tostão caía pra lá e eu deslocava pra cá. E o que eu tinha de ponto forte era meu deslocamento e meu passe pois eu passava bem a bola. Então me adaptei jogando  entre Tostão e Dirceu.

22) FTT - Foi então que sua carreira sofreu o maior trauma. Uma grave contusão em 1971 contra o Cejas. Me fale um pouco deste lance e da sua contusão.
EVALDO – Olha eu tenho comigo que o atacante que fica impedido uma vez , vá lá. Duas já é demais , três é burrice. E o Santos estava usando a tática do impedimento. Eles marcavam quase lá no meio campo e estávamos ficando impedidos toda hora.Numa desta eu parti em posição legal mas fiquei meio vacilante pensando se estava impedido ou não. Nesta vacilada que eu dei quando resolvi arrancar mesmo o Cejas que como todo goleiro argentino costuma jogar mais adiantado saiu correndo pra bola. Ele veio rachando e quando eu coloquei o pé no chão e trombei com o joelho dele. O doutor Neylor Lasmar chegou e falou calma o que foi...e eu disse com muita dor. Quebrou, quebrou tudo. Fiquei um ano e três meses parado.

23) FTT – Qual foi seu grande treinador?
EVALDO – O Tim era muito bom, ele era muito inteligente. Tinha o dom  quando ele dizia que o time ia ganhar o jogo em tal lugar era batata. Ele usava uma prancheta com os botões e mostrava o que queria e os perigos. Falava: se nós ganharmos o jogo vai ser por aqui e se perdemos vai ser aqui. Agora o maior que eu tive foi o Zezé Moreira. Este reunia tudo o que acho fundamental :era homem, direito, entendia de futebol. Ele não levantava a voz Era muito justo e pra ele não tinha cobrinha ou cobrão. Era todo mundo tratado igualmente. “Seu Zezé” era fogo. Não tinha esta de jogador estrela ser poupado, ter preferência não. O pessoal tinha muito respeito por ele. E sabia armar um ime como ninguém.

 
24) FTT - Quais foram os melhores zagueiros que você enfrentou ou jogou a favor?EVALDO – Perfumo foi um grande zagueiro. Djalma Dias, Luis Pereira, Ramos Delgado, Roberto Dias e um que não joguei contra pois é mais novo mas sou fã é o Luisinho.

Evaldo de peixinho numa bela foto.

Evaldo de cabeça desloca o goleiro do Botafogo fazendo o gol cruzeirense.

25) FTT - Aponte os 6 maiores jogadores que você viu em todos os tempos.
EVALDO – Pelé, Garrincha, Carlos Alberto Torres, Tostão, Dirceu Lopes, Rivelino

26) FTT - Pelé você enfrentou varias veze nos clássicos entre Santos e Cruzeiro nos anos 60. E o Garrincha jogou contra ele?
EVALDO - Joguei sim. Peguei ele no Fluminense e me lembro de pelo menos dois jogos. Um deles me lembro bem, foi um 2x0 em 64. Porem antes de ver o Garrincha em campo eu já ia ao estadio para ve-lo jogar quando criança, era um show a parte.



terça-feira, 19 de outubro de 2010

Revista do Dia - REVISTA DO ESPORTE 1964


A Revista do esporte de 07 de Novembro de 1964 tras na capa Zequinha e Rinaldo em treino no Palmeiras.

Encontros eternizados - CHICO BUARQUE & PAGÃO


Encontro entre dois genios de areas diferentes. Chico Buarque cantor e compositor e que todos os anos organizava a pelada do seu time Politheama conversa com o ex jogador do Santos e São Paulo Pagão.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

O Craque disse e eu anotei - JAIR BALA

Jair Bala é daqueles ex jogadores que a torcida jamais esquecerá. Primeiro pelo futebol que apresentou , digno dos maiores craques do nosso futebol. Depois porque jogou com os melhores jogadores da historia do futebol brasileiro como Garrincha, Nilton Santos, Gerson, Ademir da Guia, Djalma Santos, Pelé, Carlos Alberto entre outros. Portanto tem muita historia pra contar. E aí que entra a parte mais legal do ex jogador e do ser humano Jair Bala. Um cara sensacional, humilde e que alem de gostar de falar sobre o seu passado te recebe em sua casa como um velho amigo. Pois foi exatamente assim que eu me senti ao ficar por quase tres horas em sua residencia o entrevistando e vendo seus inumeros albuns de recordações.

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1) FUTEBOL DE TODOS OS TEMPOS - Você iniciou sua carreira no futebol capixaba. Como foi este seu começo?
JAIR BALA – Eu nasci em Cachoeiro do Itapemirim e fui descoberto por “Seu Zezinho”. Era educador e tambem padeiro. Praticamente todos os jogadores formados em Cachoeiro passaram por suas mãos. Eu estava brincando de bola em umcampinho e quando olhei vi aquele senhor parado me olhando. Eu nem liguei e continuei brincando. Ele chegou perto de mim e me perguntou:você é filho de quem? Eu disse: sou filho do seu Batata. Você é filho do cumpadre Batata e cumadre Conceição? O seu pai foi o maior atacante de Cachoeiro e é meu amigo.Ali começava minha carreira. Fui jogar no infantil do Estrela e numa festa tradicional que tinha com os times de Cachoeiro , o Flamengo tinha sido o convidado e eu fiz o gol .O técnico deles era o Fleitas Solich que me convidou para ir jogar no Flamengo. Eu quase desmaiei pois já era flamenguista e ia jogar no Rio de Janeiro.

2) FTT - Do Estrela você foi para o Flamengo. Atuou apenas no juvenil ou chegou a jogar no profissional?
JAIR BALA – Joguei mais no juvenil mas atuei muitas vezes no profissional. Aliás me profissionalizei no Flamengo.



3)      FTT - Nesta época você chegou a jogar com quem ?
JAIR BALA – Joguei com o Joel, Moacir, Henrique, Gerson , Carlinhos e o Dida.

4) FTT - Como era o futebol do Dida?
JAIR BALA – Nossa ele jogava demais. Pra mim foi um dos maiores que vi jogar, claro antes do Pelé.

  Dida está com a bola e Jair Bala ao seu lado direito.

5) FTT – Porque não continuou no Flamengo?
JAIR BALA – Na verdade nós jogadores éramos todos irmanados com o Fleitas Solich. Mandaram ele embora e trouxeram o Flavio Costa com  aquele jeitão dele. Nós estávamos na cidade do México de partida para Guadalajara quando o presidente do Flamengo enviou um telegrama ao Fleitas demitindo o e avisando que o Flavio Costa iria se encontrar conosco. Foi aquela choradeira no grupo que gostava muito do Fleitas Solich. Flavio Costa chegou e escolheu seus preferidos e saiu o Gerson e Jadir para o Botafogo. O meu caso já oi diferente pois eu fui roubado pelo Botafogo. Naquela época tínhamos o chamado “contrato de gaveta” . Não sei o que aconteceu mas sumiram com  o meu contrato. O diretor do Botafogo , o Renato Expedito me perguntou se eu gostaria de jogar no Botafogo e eu disse que sim. Ele já havia me visto jogando no aspirante do Flamengo, quando fomos campeões ao vencer o Bangu em 62 por 3x2 e eu fiz os três gols. Pra acabar de vez o Flavio Costa um dia me chamou no vestiário e me falou: eu vou te trocar por um par de chuteiras do Garrincha. Foi a gota d’agua.
O Gerson que tinha o genio forte, batia de frente com o Flavio e falava um monte pra ele e eu no fundo gostava

O BOTAFOGO TIRA JAIR BALA DO FLAMENGO

6) FTT - Então você foi jogar ao lado de Garrincha, Nilton Santos e cia?
JAIR BALA - Fui e nem acreditava. Era muita fera reunida em um time só.

7) FTT - Como era fazer parte de um ataque que tinha Jair Bala, Garrincha, Amarildo, Quarentinha e Zagallo?
JAIR BALA – Foi um honra, um prazer de jogar. Era só fera que tinha ali. Quem entrasse o time estava bem servido.
Jair bala chuta para a linda defesa do goleiro adversario. No Botafogo teve otimos momentos.


8)  FTT - Se você tivesse que escolher apenas um com qual ficaria: Amarildo ou Quarentinha?
JAIR BALA – Amarildo. Eu gostava do Quarentinha tambem mas o Amarildo era mais completo e era meu amigo (risadas gerais). O Quarentinha era muito marrento e com o Amarildo eu fiz uma grande amizade. Ensinei ele a tocar gaita. Amarildo era conhecido como “Possesso”.

9)  FTT - Manga, Paulistinha, Zé Maria, Nílton Santos e Rildo; Ayrton e
Jair Bala; Garrincha, Amarildo, Quarentinha e Zagallo . Este foi o time campeão do Torneio de Paris . Se lembra deste torneio?
JAIR BALA – Lembro demais. Fiz inclusive um gol na segunda partida em que vencemos por 3x2 e passei a jogar com maior frequencia . Barrei por um tempo o Zagallo. Aí aconteceu mais ou menos o mesmo do Flamengo. Mudaram o treinador. Tiraram o Danilo Alvin e colocaram o Zolo Rabelo que era técnico de vôlei . E ele não ia muito com a minha cara  , eu sei porque mas prefiro não dizer.

Jairzinho e Jair Bala. Dois jovens craques a serviço do Botafogo .

10) FTT - E então saiu do Botafogo?
JAIR BALA - Foi. Um diretor do America que já me conhecia e sabía que eue estava tendo problemas com o novo tecnico foi lá no Rio levando o cheque e me levou para Belo Horizonte.

JAIR BALA VAI PARA O AMÉRICA E SE TORNA O MAIOR ARTILHEIRO NA HISTORIA DO ESTADIO INDEPENDENCIA NUMA UNICA EDIÇÃO DO CAMPEONATO MINEIRO

11) FTT - No America você chegou e foi logo artilheiro do campeonato em 1964 com 25 gols?
JAIR BALA – Foi. Eu sou o maior artilheiro da historia do Independência. Aliás perdemos este campeonato de bobagem. A final contra o Siderúrgica foi na Alameda (estádio do América)mas tinha de ser no Independência. Estávamos jogando muito bem lá e mudaram na final. Entrei ainda na seleção dos melhores do ano.

 Jair Bala ao lado de seus trofeus e recordações. Esta sala fica numa especie de porão , num andar inferior  somente com suas reliquias entre elas diversos albuns com inumeros recortes de jornais da época. Quardos, bolas e deznas de placas de prata compõe o cenario.

12) FTT - Com a artilharia do campeonato aliada as suas boas apresentações com o America você acabou convocado para a Seleção Mineira que inaugurou o Mineirão. Como esquecer deste jogo?
JAIR BALA - Não tem jeito. Eu fiquei muito feliz de jogar na inauguração contra o River Plate. Foi uma honra e que nuca será esquecida.

Jair Bala e Tostão observam a bola cabeceada pelo lateral esquerdo Neco do Cruzeiro.

12) FTT - Ficou no America por dois anos e saiu para jogar no futebol paulista.
JAIR BALA – Foi . Fiquei no América em 64 e 65. Fui então para o Comercial. Foi uma das maiores transações do futebol naquela época.

A chegada de Jair Bala ao Comercial de Ribeirão Preto em 1965.

14) FTT – O Comercial tinha um grande time nesta  época  Jair?
JAIR BALA – Minha nossa que timaço. Rosan no gol, o Piter na zaga que foi considerado o melhor marcador do Pelé, Peixinho, Paulo Bim , o Amaury que jogou comigo no América. Nosso plantel tinha apenas 17 jogadores mas todos jogavam bola. O Nonô lateral esquerdo foi do Fluminense e era o reserva do Altair. Tinha o Carlos César na ponta. Um senhor time. Eles falam que foi o maior time da historia do Comercial.

FTT – (Dados sobre aquele time:)
Foi em 1966 que o Leão viveu seu melhor ano, e seu time, de tão bom, foi apelidado de "Rolo Compressor".
  • Conseguiu a proeza de marcar cinco gols no Santos de Pelé dentro da Vila, num jogo que muitos consideram um dos mais espetaculares de todos os tempos.
  • Acabou com uma invencibilidade de 14 jogos do Palmeiras dentro do Palestra Itália.
  • Venceu novamente o Palmeiras por três a zero em Ribeirão, no dia 4 de fevereiro, na inauguração dos refletores do Palma Travassos (primeiro jogo noturno oficial na cidade Ribeirão Preto).
  • Humilhou o Bragantino, de Bragança Pta., jogando em casa, por 8 a 1.
  • Terminou a competição com o quarto lugar, perdendo somente para o Palmeiras , o Corinthians e o Santos.
  • Foi o campeão do Interior paulista
JAIR BALA AGORA FAZ PARTE DA ACADEMIA DO PALMEIRAS



Bruno e Jair Bala


15) FTT - Agora você foi para outro timaço, o Palmeiras de 1967 campeão da Taça do Brasil e Robertão. Quem te encantava neste time?
JAIR BALA – O time todo. Valdir, Djalma Santos, Djalma Dias, Minuca ou Baldochi e Ferrari; Dudu, Ademir da Guia e Eu; Galhardo um peruano bom de bola , César e Rinaldo.

16) FTT - Quem era o lider deste time: Djalma Santos, Dudu ou Ademir da Guia?
JAIR BALA – O Valdir nosso goleiro e o Dudu. O Dudu é que chamava o time , gritava  e comandava. O Djalma sempre foi muito brincalhão e o Ademir muito calado. Então quem organizava a equipe eram estes dois.

17) FTT - Nos fale um pouco de Ademir da Guia.
JAIR BALA – O Divino? Cracaço!! Parecia lento mas dava três passadas e chegava na jogada na frente. Muito técnico batia bonito na bola. Ele junto com um que sempre fui fã , o Dirceu Lopes foram os dois maiores injustiçados no futebol brasileiro

Nesta partida contra o Cruzeiro, o Palmeiras venceu por 3x2 com dois gols de Jair Bala.
Neste ano Jair Bala foi campeão do Roberto Gomes Pedrosa, o Robertão.


JAIR BALA VAI JOGAR NO SANTOS DE PELÉ

18) FTT - Para manter o nivel vamos falar de outro esquadrão que você jogou. O Santos de Pelé. Já não era o time do bi mundial mas ainda era um grande time não?
JAIR BALA - Era um time excelente. Mesclava os jogadores mais antigos com jovens craques. Um time que jogava por musica. Tinha muita gente boa.

19) FTT - Este time tinha uma grande zaga com Djalma Dias e Ramos Delgado. Pra completar dois laterais como Carlos Alberto e Rildo. Nada mal esta defesa hein?
JAIR BALA – Minha nossa. Tinha ainda o Cejas no gol e na cabeça de área o Clodoaldo e o Lima. O Ramos Delgado e o Clodoaldo foram dois caras que me incentivaram muito. Ramos Delgado saia com muita qualidade lá de trás , me passava a bola e falava: “ vai pra cima deles que você sabe jogar”. Uma passagem boa que aconteceu , foi quando eu cheguei no Santos . Eu assinei o contrato no Pacaembu. Era um jogo entre Santos e Corinthians. Fui levado ao vestiário do Santos e estava conversando com o Clodoaldo quando o Pelé entrou e chegou pro Corró (apelido do Clodoaldo) e falou: joga pouco este aí hein Corró. Eu quase vim abaixo vendo o ‘homem” falando isto. Clodoaldo foi um grande amigo que inclusive saiu comigo para procurar apartamento para mim morar.

Jair Bala é o segundo agachado a partir da esquerda ao lado de Edu e Pelé.

20) FTT – E no Santos você presenciou um momento marcante para o mundo do futebol. O milésimo gol de Pelé no Maracanã. E para completar sua emoção entrou exatamente no lugar do rei.
JAIR BALA – Teve um jogo antes na Bahia , que o Pelé já estava com 999 gols e após driblar o goleiro chutou e quando a bola ia entrando o zagueiro tirou e salvou o gol. Levou uma enorme vaia da própria torcida do Bahia. Eu fiz o gol de empate neste jogo que acabou 1x1.
No Maracanã eu entrei no lugar do Pelé logo após ele fazer o milésimo gol mas aí já não tinha mais jogo direito. A noite fomos comemorar numa grande festa no Canecão.

O RETORNO EM GRANDE ESTILO AO AMERICA - CAMPEÃO INVICTO EM 71

21) FTT - Saiu do Santos e voltou  em 1971 para o  America. Foi um ano inesquecivel ?
JAIR BALA – Ahh foi. Fomos campeões invictos e eu ainda fui artilheiro novamente, desta vez com 14 gols.
22) FTT - Este time foi campeão invicto jogando contra o Atletico campeão brasileiro daquele ano, o Villa Nova campeão brasileiro da serie B e o Cruzeiro de Tostão, Dirceu Lopes, Perfumo, Piazza e cia.
JAIR BALA – Pois é você comentou o que eu sempre falo. Não ganhamos de timinho não. Jogamos contra grandes equipes e te digo que naquela época as equipes do interior davam muito mais trabalho. O Uberlândia tinha um grande time, o Formiga, o Valério. O Villa Nova então, nossa senhora, ganhar deles em Nova Lima era quase impossível.

 23) FTT - Você se lembra da escalação deste time?
JAIR BALA – Elcio, Batista, Vander, Misael ou Café e Cláudio Mineiro; Pedro Omar, Amaury, Dirceu Alves e Jair Bala; Na frente os dois Zé Carlos, o Merola e o Generoso. Tinha outro jogador que entrava muito neste time que era o Dario Alegria. Jogou comigo no Palmeiras. Um grande irmão e que nos falamos até hoje. Dirceu Alves também era um belo jogador, tanto é que depois foi embora jogar no Corinthians.

24) FTT - Até hoje você é considerado o melhor jogador do America em todos os tempos. É motivo de muito orgulho não?
JAIR BALA – Demais! São anos de historia de um clube e você ser eleito o melhor de todos que já passaram e olha que foram muitos é muito orgulho.



 
Um dos quatro gols de bicicleta que Jair Bala fez pelo America. Este foi na vitoria por 2 x 0 sobre o Uberaba.

25) FTT - Manga ; Djalma Santos, Carlos Alberto Torres, Djalma Dias e Nilton Santos; Clodoaldo, Ademir da Guia e Pelé; Garrincha, Jair Bala e Edu . Que tal esta seleção com seus ex colegas?
JAIR BALA  Nossa senhora !(rindo) É muito boa mas tinha mais gente pra entrar aí.....cadê o Tostão? O Dirceu Lopes?

26) FTT – Você jogou no Cruzeiro também?
JAIR BALA – Joguei. Fiquei apenas três meses. É que o Fleitas Solich era o técnico do Atlético no final de 67  e pediu minha contratação. Já estava engatilhado quando o Felício Brandi e o Carmine Furletti do Cruzeiro entraram em contato com o Delfino Facchina presidente do Palmeiras e acertaram uma troca. Foi o Wilson Almeida e veio eu. Os italianos não queriam reforçar o Atlético (risos)

Jair Bala e a cmisa feita em sua homenagem.

A camisa com a inscrição: O Atleta do Seculo feita pela diretoria do America mostra a importancia de Jair Bala para o clube.

A marca dos pés de Jair Bala ficaram registradas na calçada da Fama no Mineirão.

27) FTT - Garrincha ou Pelé?
JAIR BALA – Os dois. Não da pra escolher.

28) FTT – Você jogou ao lado de grandes zagueiros e contra também. Quais foram os melhores?
JAIR BALA – Perfumo do Cruzeiro, Roberto Dias, Djalma Dias, o Piter do Comercial era fantástico, Fogosa do America de Rio Preto também era muito bom. O Jadir que jogou comigo no Flamengo e depois foi para o Botafogo jogava muito. Nesta época tinham muitos zagueiros que sabiam jogar e eu preferia enfrentar os que batiam. Era mais fácil.
Ahh espera aí, eu joguei com um dos maiores zagueiros do mundo, o Nilton Santos. (na época que Jair Bala jogou no Botafogo Nilton já havia sido deslocado da lateral para a zaga). O Rildo é que jogava de lateral equerdo.

29) FTT – Aponte os 6 melhores jogadores que você viu em toda sua carreira;
JAIR BALA – Nilton Santos, Garrincha, Pelé, Dida, Tostão, Dirceu Lopes e pode ser mais recente também?
FTT – Pode.
JAIR BALA – Eu era fã do Djalminha e do seu jeito de jogar. Hoje tem o Ganso que faz lembrar muito o meu estilo de jogo e é um jogador fantástico
30) FTT – Geralmente os atacantes é quem são os indicados nestas listas.
JAIR BALA – É porque geralmente eram os jogadores mais habilidosos, apesar que tivemos cabeças de áreas fantásticos com o Clodoaldo e o Zé Carlos. O Zelão (apelido do Zé Carlos) jogando era fora de serie. Só dava tapa na bola. Parecia que estava jogando tênis. Tum..tum...tum...tum. Os volantes desta época jogavam muito. O próprio Piazza que era mais marcador era tão bom que foi deslocado para a zaga e não teve a menor dificuldade em se adaptar. O Piazza era um volante que não fazia falta. Ele tomava um drible mas tinha um pulmão impressionante e quando você via ele já tinha recuperado a bola. O Vanderley Paiva também era muito bom marcador. Carlinhos do Flamengo, poxa como é que eu estava me esquecendo do Carlinhos. Jogava demais.

31) FTT – Você foi um excelente camisa 10. Aponte outros 6 ou 7 camisas 10 que te encantaram no futebol brasileiro.
JAIR BALA - Pelé, Gerson, Rivelino, Dirceu Lopes, Ademir da Guia e o Dida.


32) FTT - Hoje você participa do Alterosa Esportes (programa esportivo) representando o America, juntamente com o Dario do Atletico e o Vibrantinho do Cruzeiro. É um belo exemplo de convivencia pacifica entre rivais.
JAIR BALA – Pois é, hoje fizemos o Programa Especial do dia das crainças na Praça da Estação no centro de BH. Lá nós falamos para as pessoas que nossos times são rivais mas nada impede de sermos grandes amigos. As pessoas precisam aprender a separar as coisas.Nós procuramos fazer o programa com bom humor e proporcionar diversão aos espectadores.