FTT - Futebol de Todos os Tempos

ENTREVISTAS COM EX JOGADORES, TECNICOS, DIRETORES E PESSOAS LIGADAS AO FUTEBOL QUE CONTRIBUIRAM DE ALGUMA FORMA PARA QUE PUDESSEMOS CONHECERMOS UM POUCO MAIS DA HISTORIA DO FUTEBOL BRASILEIRO E MUNDIAL.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Encontros eternizados - PELÉ & MAGALHÃES PINTO


Pelé e o então Governador de Minas Gerais Magalhães Pinto .
Magalhães Pinto foi o fundador e presidente do Banco Nacional . Alem disto ocupou alguns cargos importantes em sua carreira politica como:
Governador de Minas Gerais :1961 — 1966
Ministro das Relações Exteriores do Brasil :1967 — 1969
Presidente do Senado Federal do Brasil :1975 — 1977
O nome oficial do Mineirão é estadio Magalhães Pinto em sua homenagem.

Revista do Dia - REVISTA DO ESPORTE 1967



A capa da Revista do Esporte de 14 de Outubro de 1967 traz o zagueiro paraguaio Reyes do Flamengo dizendo querer repetir a historia do seu compatriota Bria no clube. A revista traz tambem uma materia sobre o belo futebol do atacante santista Abel mas dizendo que a baixa estatura poderia atrapalhar sua carreira.

Esquadrão Inesquecivel - SANTOS 1978

Em 28 de junho de 1979, a mescla de garotos da base do Santos Futebol Clube, chamados de Meninos da Vila, e jogadores experientes formou um time que conquistou o Paulista de 1978 (a final do campeonato aconteceu no ano seguinte) e entrou para a história do Peixe. Após uma decisão acirrada de três jogos contra o São Paulo, a equipe levantou o 14º troféu estadual do Alvinegro Praiano, em 28 de junho de 1979. O título foi o primeiro do clube após a Era Pelé.
O time revelou nomes como João Paulo, Juary, Nilton Batata, Pita e Toninho Vieira, jovens que se juntaram a nomes como Clodoaldo, Gilberto Sorriso e Nelsinho Batista. O técnico da equipe era Chico Formiga, ex-atleta consagrado na década de 50. "O nome Meninos da Vila acabou pegando porque sou mineiro e, lá, temos o costume de chamar os garotos de meninos. Assim, quando me peguntavam do time, eu respondia que os meninos estavam bem", explica Formiga.
Da campanha, o ex-treinador só guarda boas recordações. "O duro não é comandar, mas, sim, formar o time. Depois de formado, tudo é mais fácil. Aquela era uma garotada muito boa, que fazia o que eu pedia e era muito interessada. Tenho ótimas lembranças daquele time", comenta.
Esta foi uma das formações deste time que encantou a
todos os amantes do futebol pela maneira alegre e
envolvente de jogar.

Esse título, o 14° estadual da história do Santos FC, foi marcado pela revelação da geração de garotos formados na base do clube conhecida como Meninos da Vila, comandada pelo técnico Chico Formiga, ex-atleta consagrado na década de 50. O Santos FC voltava à artilharia da competição com o jovem Juary, que balançou as redes adversárias 30 vezes.
A disputa pelo título, contra o São Paulo, foi difícil. Depois de uma vitória no primeiro jogo por 2 a 1, com gols de Pita e Juary, o Peixe não conseguiu confirmar o título no segundo jogo, empatando por 1 a 1. Na terceira partida, o time não contou com Ailton Lira e Clodoaldo. No tempo normal, a equipe santista acabou derrotada por 2 a 0, mas segurou o empate sem gols na prorrogação e levantou a taça. Na competição, o Santos FC também voltou à artilharia da competição com o jovem Juary, que balançou as redes adversárias 30 vezes.
Um dos Meninos da Vila, o ex-meio-campista Toninho Vieira, guarda grande recordações do título. "Saímos do juvenil praticamente direto para o profissional. Então, conquistar aquele título foi uma consagração. O convívio entre nós e os jogadores mais experientes foi o melhor possível. Substitui o Clodoaldo quando ele estava com problema no joelho e não estava mais 100%. Ele me dava instruções dentro do ônibus, durante as viagens, e me ajudou muito".Também vindo da base santista, o volante Gilberto Costa fez parte do elenco campeão. "O convívio com os jogadores mais velhos foi muito importante. Fazer parte daquele grupo e estar entre os atletas que subiram da base foi muito importante. Aquelas lembranças continuam vivas na minha memória".

Confira a campanha santista:
56 jogos - 26 vitórias - 16 empates - 14 derrotas
80 gols pró - 47 gols contra


Juary faz mais um gol, desta vez na primeira partida
das semifinais contra o São Paulo. Ele foi o grande
artilheiro do campeonato paulista com 30 gols.

Principais artilheiros:
Juary – 30
João Paulo – 15
Aílton Lira – 7
Pita – 5
Nilton Batata – 4
Claudinho – 3
Célio – 3
Zé Roberto – 2
Nelsinho Baptista – 2
Antônio Carlos – 1
Joãozinho – 1
Toninho Vieira – 1
Dê – 1


Os Meninos da Vila -Toninho Vieira, Zé Carlos, Claudinho,
Rubens Fejão, Pita, Paulinho

Time base : Flávio (Vitor); Nelsinho Baptista, Antonio Carlos (Joãozinho), Neto (Fernando) e Gilberto Sorriso; Zé Carlos (Clodoaldo) e Toninho Vieira (Ailton Lira); Nilton Batata, Juary, Pita (Rubens Feijão) e Claudinho. Técnico: Chico Formiga
Plantel completo do campeão: Goleiros: Vitor e Flávio; zagueiros: Antônio Carlos, Joãozinho, Neto; laterais: Dê, Fausto, Fernando, Gilberto Sorriso, Nelsinho Baptista, Valdemir; meio-campistas: Aílton Lira, Cardim, Clodoaldo, Gilberto Costa, Nélson Borges, Pita, Rubens Feijão, Toninho Vieira, Zé Carlos, Zé Roberto; atacantes: Célio, Claudinho, João Paulo, Juary, Lino, Márcio Fernandes e Nilton Batata.

A mesclagem de jovens jogadores com a experiencia que deu certo.


O TIME CAMPEÃO

As semi-finais entre as quatro equipes melhores classificadas foram jogadas em 16 e 17 de junho de 1979, com os seguintes resultados:
16 de junho de 1979 - Santos 3X1 Guarani
17 de junho de 1979 - Palmeiras 0x0 São Paulo [prorrogação: 0x1 São Paulo]

As finais foram entre Santos e São Paulo, como segue:
20 de junho de 1979 - São Paulo 1x2 Santos
24 de junho de 1979 - Santos 1x1 São Paulo
28 de junho de 1979 - Santos 0x2 São Paulo [prorrogação: 0x0]
O Santos se sagrou campeão pela melhor campanha.

sábado, 22 de maio de 2010

O Craque disse e eu anotei - DIRCEU LOPES

Agendei a entrevista com Dirceu Lopes para ser relizada na Prefeitura de Pedro Leopoldo , cidade onde ele nasceu, reside e é o atual Secretário de Esportes. Durante o trajeto de 45 kms fui lembrando de quantos gols de Dirceu eu vi e vibrei no Mineirão. Não gosto da palavra ídolo mas certamente no futebol ele foi o maior que vi jogar. Portanto seria uma entrevista mais do que profissional , seria o encontro com o meu "idolo" aquele o qual pegava emprestado seu nome e tentava imita-lo nas peladas em que jogava.
Chegando no seu gabinete avisei a secretária na ante sala e lá de dentro Dirceu lopes escutando e num ato de simplicidade disse: vamos entrar Bruno.
Foi um encontro inesquecivel para mim e fiquei admirado da simplicidade e humildade do baixinho.
Mostrei-lhe algumas revistas raras que tenho como uma revista "O Cruzeiro" de 1968 e que na época era de grande circulação nacional. Saiu uma materia de 5 paginas do titulo de tricampeão mineiro pelo Cruzeiro e em uma delas uma pagina inteira com uma foto enorme de Dirceu lopes dentro da banheira do Mineirão jogando agua na cabeça. Ao ver a foto ele ficou emocionado e disse que muitas vezes não tem ideia da dimensão de ser para muitos o grande jogador que dizem. Ele se asusta até hoje quando ve uma materia como esta com fotos suas.
Como nem ele possuía esta foto e materia fiquei de presentea-lo com xerox em papel fotografico para lhe dar de lembrança, afinal era o minimo que podia fazer para retribui-lo de tantas alegrias que me deu quando jovem.





Dirceu Lopes o segundo maior artilheiro
na historia do Cruzeiro.


1) Dirceu, você começou sua carreira no juvenil do Cruzeiro. Da sua turma teve mais alguem que subiu e em que ano estreou nos profissionais?

Eu nasci em Pedro Leopoldo e fui muito novo para Belo Horizonte. Cheguei ao Cruzeiro com 16 anos e minha carreira foi meteorica. Joguei um ano apenas no juvenil e subi para os profissionais. Na época o grande clássico era America x Atletico. O Cruzeiro vinha como terceira força e crescendo. Infelizmente daquela turma do juvenil os unicos que subiram foram eu, Natal e Pedro Paulo.
Eu penso que na vida nada é por coincidencia. Meu sonho de menino cruzeirense era um dia vestir a camisa do Cruzeiro. Eu tinha comigo em ser jogador de futebol e jogar pelo Cruzeiro possibiltando assim dar um conforto melhor a minha familia.

Deus é tão maravilhoso para mim que eu não fui campeão do mundo pela seleção brasileira mas joguei na seleção da Fifa.

2) Tostão e você são os maiores artilheiros do Cruzeiro. Como era jogar com Tostão seu grande parceiro?



Pois então, numa materia que fizemos a dois anos atrás comemorando os 40 anos da conquista da Taça Brasil o reporter chegou para mim e para o Tostão e perguntou qual de nós dois foi melhor. Tostão então mais desenvolto do que eu e que cresceu muito como comentarista esportivo, disse: fomos iguais. Um completava o outro. Era a verdade pois a velocidade que eu tinha ele não tinha. Já Tostão tinha facilidade em se deslocar e era um jogador extremamente inteligente. Então, um completava o outro.

3) Por falar em um completar o outro, tire uma duvida de varios amantes do futebol. Você jogava com a 10 e Tostão com a 8 ou 9. Porem voces dois eram pontas de lança?



A historia começou quando formávamos o tripé de meio campo com Piazza, eu e Tostão. Aí Zé Carlos chegou para o Cruzeiro e se não me engano o Piazza estava machucado. Zé Carlos passou a jogar e quando Piazza voltou como iria fazer? Foi então que o nosso treinador (Ayrton Moreira) adiantou o Tostão, sacrificou o Evaldo e ali se formou o quadrado. Tostão não era aquele centro avante nato e ele tinha muita facilidade, saía da area pra buscar jogo, vinha de tras e abria espaços.



Bruno e Dirceu lopes tendo ao fundo o quadro intitulado:
A MÁQUINA DE FAZER GOLS


4) Os mais badalados daquele time eram você, Tostão e Piazza mas o que dizer do resto do ataque com Natal, Evaldo e Hilton Oliveira?

O tripé foi mais famoso mas nós eramos uma familia.Não havia aquilo de um querer ser mais do que o outro, não haviam vaidades. Por isto é que conseguimos chegar aonde chegamos. Pelo fato do tripé se destacar mais, passou a receber uma marcação mais forte dos adversarios. E nós tinhamos dois jogadores, o Natal e o Hilton Oliveira que jogavam bem abertos e por isto digo que nosso time era quase imarcavel, porque todos faziam gols. Natal fazia muito gol, o Hilton um pouco menos porque não tinha tanto esta ambição, Evaldo fazia muito gol tambem, daí este sucesso.

5) Qual foi a maior partida da sua vida?


As duas contra o Santos em 66. A famosa partida dos 6x2 no Mineirão e o jogo da volta no Pacaembu. Neste jogo de SP o Santos poderia ter nos vencido no primeiro tempo por 5x0 ou 7x0 pois eles estavam engasgados com a gente e jogavam tudo. Aí veio o intervalo e aí aconteceu aquele fato histórico mas que é veridico onde o Mendonça presidente da Federação Paulista e Athie Couri presidente do Santos foram ao vestiario do Cruzeiro querer marcar a data da terceira partida. Eles chegaram ao nosso vestiario que mais parecia um velório, todo mundo de cabeça baixa, chateados, porque o Cruzeiro mal conseguia passar do meio campo e os jogadores do Santos estavam jogando demais, principalmente o "Negão". Foi então que os dois presidentes foram procurar o Felicio Brandi (pres. do Cruzeiro) na nossa frente, querendo marcar o terceiro jogo para o Maracanã. Foi aí que nosso treinador, o falecido Ayrton Moreira usou este gancho. Estão vendo , voces precisam reagir e eu confio em voces. Então quando o Cruzeiro voltou para o segundo tempo , voltou com uma nova postura, aquilo tinha mexido com o nosso brio e nos deu confiança. Aí então inverteram as coisas. O Santos é que não conseguia passar do meio campo. Acabou naquela virada historica de 3x2 que todos conhecem. Mas o jogo do 6x2 foi o jogo da minha vida e de todos os jogadores daquele time do Cruzeiro. FOI O JOGO DA VIDA DO CRUZEIRO. Aqueles dois jogos mas principalmente o do Mineirão mudaram a vida do Cruzeiro. Mudaram a historia. Inclusive na materia dos 40 anos da conquista da Taça Brasil, o reporter perguntou a mim e ao Tostão se a gente tinha ideia da grandeza daquele feito. Como assim? Ele me respondeu assim: aquela conquista do Cruzeiro foi tão importante que ela mudou a historia do futebol brasileiro. Porque a partir daí, todos os clubes do futebol brasileiro, sejam da Bahia, de Pernambuco, do Rio Grande do Sul reinvindicaram entrar no campeonato brasileiro.



Natal arranca com a bola observado por Tostão e Dirceu lopes.
O placar do Mineirão marcava Cruzeiro 6x2 Santos.

6) Pelé, Zito e outros jogadores do Santos mais experientes tentaram intimidar voces quando perdiam por 5x0 ou aceitaram a superioridade do time do Cruzeiro?

De forma alguma. O que aconteceu foi que no intervalo quando nós fomos para o vestiario e a propria torcida todos estávamos naquele silencio, apreensivos, parecia um sonho. Não estávamos acreditando porque todos aqueles jogadores do Santos eram não apenas idolos meus mas da mairoia dos jogadores do Cruzeiro. Eu vivia em Pedro Leopoldo quando menino imitando aqueles jogadores. Eu imitava o Garrincha, o Pelé.........então foi aquela apreensão pois estavamos vencendo os bicampeões do mundo. Na vola para o segundo tempo então, o Santos com 10 minutos já havia feito dois gols e a gente pensava: eles vão virar este jogo ainda , porque com o Santos era assim. Mas felizmente num lance em que o Gilmar trombou com o Evaldo , a bola sobrou pra mim e eu fiz o gol. Isto foi uma ducha de agua fria no time do Santos eo jogo se acomodou. Foi um jogo inesquecivel.


7) Esta conquista do Cruzeiro abriu as portas da seleção brasileira a varios jogadores cruzeirenses. Como foi ter metade deste time na conquista da Copa Rio Branco em 67 ?
Foi uma coisa gratificante. A seleção brasileira é o sonho maior de todo jogador. Foi uma conquista muito grande ter 7 jogadores do Cruzeiro fazendo parte desta seleção. Foi fenomenal e inesquecivel.

8) Após esta conquista , você foi chamado varias vezes para a seleção, tanto por Aymoré Moreira e principalmente por Saldanha. Era nome praticamente certo para a copa de 70. Na ultima partida oficial de Saldanha no comando da seleção brasileira o time titular foi:
Leão [Palmeiras]Carlos Alberto Torres [Santos] Brito [Flamengo]Fontana [Cruzeiro]Marco Antônio [Fluminense]Piazza [Cruzeiro] depois Clodoaldo[Santos]Gérson I [São Paulo]Jairzinho [Botafogo]Dirceu Lopes [Cruzeiro]Pelé [Santos]Edu [Santos] depois Paulo César Caju [Botafogo]
Zagallo assumiu e na primeira partida sob o seu comando te colocou no segundo tempo e nunca mais te chamou.
O que realmente aconteceu pra Zagallo não te levar a Copa de 70?

O que aconteceu foi que o Saldanha me exaltava tanto, que ele chegava ao ponto de me dizer , apesar de me trazer um certo desconforto por problemas de timidez, que naquela seleção eu era seu titular indiscutivel. Viemos fazer um jogo em 69 contra o Atletico e a Imprensa perguntou ao Saldanha : João qual é o jogador mais importante do seu time? Todos pensavam que ele iria responder o Pelé e então ele disse que era o "Zé" o apelido carinhoso que ele me deu. A imprensa todinha então veio pra cima de mim e criou aquela coisa. Saldanha me dizia: o Zé , você não preocupa joga o seu futebol. Teve um jogo contra a Argentina em Goiania que ele me colocu como centro avante e eu sempre joguei mais atras, como no Cruzeiro , onde eu era como um passarinho , tinha liberdade pra jogar e criar. E eu não fui bem nesta partida mas ele sempre me dizia: "não se preocupe porque você é o unico jogador que tem vaga garantida". Ele falava isto comigo, claro que em particular e não na frente dos demais. Ele dizia que era eu e mais 10 não importando quem iria jogar na ponta esquerda, de centro avante mas você vai jogar no meio e será minha arma secreta. Foi então que aconteceu aquele caso veridico com o Garrastazu Medici, quando perguntaram pra ele qual jogador ele achava que faltava na seleção e o presidente respondeu que faltava o Dario. A Imprensa toda então foi em cima do Saldanha e disseram a ele que o presidente queria o Dario na seleção . O que você tem a dizer? E Saldanha tinha um estopim bem curto alem de ter sofrido com a ditadura militar e então falou :Olha, assim como eu não escalo ministro , eu não admito que o presidente venha querer escalar a seleção. Enquanto eu for o treinador da seleção quem escala o time sou eu. Aí veio a ordem lá de cima e ele caiu. Entrou então o Zagallo que é um politico e contratou 5 jogadores sendo o primeiro o Dario. E nesta hora eu em vez de clamar, me mostrar para a Imprensa, não eu me fechei , me calei pelo meu problema de timidez..........e aqueles que se calam ficam mais faceis de se tirar não é!


9) Você acha que esta sua timidez , assim como a do Ademir da Guia te atrapalharam a estar na copa?

Eu não tenho duvida nenhuma disto. Eu fiz um tratamento para diminuir com a minha timidez e vi como funcionavam as coisas. É uma questão de consciencia. Não me deixou marcas, magoas, absolutamente. Graças a Deus isto não. Eu consegui superar isto , porque o gesto que o Zagallo fez com a minha pessoa eu acho que foi um ato até certo ponto de covardia. Ele levou um jogador, o ponta direita Rogerio do Botafogo que estava com uma distensão e distensão naquela época eram no minimo seis meses pra recuperação e ele me cortou. Mas como eu disse , não tenho duvida nenhuma que tanto eu como Ademir da Guia se a gente falasse mais, reinvidicasse algo teria maior chance. A prova maior disto foi o Fontana. Ele seria o primeiro a ser cortado da lista porque ele e Zagallo não se falavam, eles eram inimigos. Teve um jogo no Maracanã que o Fontana com aquele jeito bravo e viril dele foi numa dividida com o Zagallo e este quase foi parar dentro do fosso (risadas gerais). Eles falavam que o Zagallo era muito medroso e que por isto jogava daquela maneira mais recuada, ajudando a defesa porque el não jogava enfiado lá na frente. Pois o Fontana foi se tornou campeão do mundo e eu fiquei.

10) O que te frustrou mais: não ir a Copa de 70 quando vinha sendo convocado sistematicamente até poucas semanas da Copa ou não ir a copa de 74 quando você não tinha tanta concorrencia na sua posição como em 70 e ficou de fora?

A sem duvida alguma a que me frustrou mais e que foi a maior decepção da minha vida, foi a de 70, quando eu fui cortado. Felizmente eu fui sempre muito bem estruturado em termos de família, meu pai foi ex jogador, o Carmine Furletti (diretor de futebol) que era um paizão pra todos nós, o prefeito de Pedro Leopoldo na época também me amparou muito e foi então que eu consegui tirar aquela frustração e passar esta dificuldade. Voltei a ser o Dirceu Lopes que eu era.Já em 74 eu não tinha pretensão nenhuma até mesmo porque o Zagallo ainda é quem era o treinador. Eu não gostaria de ter ido pois poderia haver mais decepções, afinal a Copa de 70 havia me deixado muito mal e poderia até acabar com a minha carreira. Então na Copa de 74 eu não tive vontade nenhuma de voltar pra seleção brasileira.



11) Qual foi o melhor tecnico em sua carreira?

Tive grandes treinadores mas o qmais importante foi aquele que me lançou no futebol: Martim Francisco. Eu tinha 17 anos incompletos quando ele confiou em mim me lançando no time profissional. Ele me tratava carinhosamente me chamando de filho faz assim, filho faz assado.Já o Airton Moreyra e o Orlando Fantoni não eram estrategistas mas que tratavam os jogadores como filhões. Tínhamos um ótimo ambiente de trabalho. Os dois foram jogadores também mas nem sempre muito reconhecidos. Aliás eu costumo dizer que jogador de futebol é dividido em antes e depois de Pelé. Antes os jogadores não tinham tanta consciência profissional e viviam muito na boemia e a maioria infelizmente acabavam na miséria. O que aconteceu com Pelé foi que o jogador passou a ser aceito na sociedade, através dos bons exemplos que ele dava. O jogador passou a se cuidar e isto foi um exemplo para nós jogadores do Cruzeiro.
Gerson dos Santos foi outro grande treinador e desta linha de paisões.

12) E o Zezé Moreyra , ele já era mais rígido não?

É o Zezé Moreyra já era mais rígido e chegou num ponto em que o Cruzeiro havia se transformado numa briga política., infelizmente. Eu até não gosto muito de falar sobre isto (Dirceu abaixa a cabeça e com semblante serio continua) e me prejudicou muito. Eu costumo dizer que aquela final contra o Bayern foi um dos campeonatos mais fáceis para ganharmos. O problema foi que o Cruzeiro havia separado em uma briga política com Felício Brandi de um lado e o Furletti de outro.e infelizmente um dos maiores causadores disto tudo foi o Zezé Moreyra. O Zezé foi para o lado do Felício e os jogadores por quem o Furletti tinha um carinho especial , principalmente comigo ficaram de lado. Eu vinha recuperado da contusão, fiquei sessenta dias no Rio treinando na praia, na areia me preparando a mais de 4 meses para esta partida . Fiz tratamento aqui, fiz amistosos e me preparei. No dia do jogo na Alemanha, ele me tirou do time. Isto abalou emocionalmente o grupo porque eu sempre fui um líder ali no Cruzerio, principalmente com aqueles mais novos. Eu dava muito conselho e ele tinham muito respeito por mim. Eu não tinha alas dentro do clube. Acredito que se eu estivesse em campo poderíamos ter matado aquele jogo pois o Cruzeiro teve chances para isto. Porem o grupo estava dividido e o jogador que chegava a linha de fundo ao invés de rolar pra trás, ele batia direto pro gol.Veio o jogo da volta aqui no Brasil e o que aconteceu foi que até as 6 horas da tarde o pau estava quebrando na Toca da Raposa por causa de bicho e premiações. Os jogadores todos nervosos a poucas horas do jogo e o time entrou em campo desconcentrado, sem foco.



13) Você pegou talvez as duas maiores gerações de grandes times do Cruzeiro. A dos anos 60 com Procopio, Natal, Evaldo, Tostão, Hilton e a dos anos 70 com Nelinho, Perfumo, Palhinha, Eduardo e Joãozinho.
Dá para apontar qual foi melhor?

Na verdade o Cruzeiro foi muito feliz na sua transição. Foi tudo muito tranquilo, muito normal. Nós éramos ídolos destes novos jogadores e aos poucos eles foram entrando e dando conta do recado em substituição aos antigos. Foi assim com o Joãozinho no lugar do Hilton, O Roberto Batata no do Natal, Eduardo e Palhinha. A gente (os antigos) tínhamos um carinho muito grande com eles. Chegaram e tiveram a oportunidade de jogar no time titular do Cruzeiro e eles não sentiram pois nós os deixávamos a vontade. Dentro de campo a gente procurava orientar como o Palhinha quando entrou no lugar do Tostão, a gente falava faz isto, não faz aquilo e ajudava de alguma forma, passando tranqüilidade. E quem saiu ganhando foi o Cruzeiro que continuou ganhando títulos com esta nova geração. Não dá pra falar qual foi melhor.

14) Cite os 5 maiores jogadores que você viu?

Eu costumo dizer o seguinte: Pelé e Garrincha eu deixo num pedestal acima de todos os outros. Foram dois gênios fora do normal. Se você me perguntar quem foi melhor, eu digo os dois. Pelé se sobressaiu mais pelos gols pela projeção, mas Mane também foi gênio. Outro gênio e que eu joguei com ele foi o Tostão. Ele foi um dos jogadores mais inteligentes que eu conheci juntamente com o Reinaldo. Teve o Zico, o próprio Rivelino, Jairzinho, craques que dificilmente a gente verá de novo.



15) E quais foram os maiores zagueiros contra quem você jogou?

Antes de eu falar dos que joguei contra, quero falar do maior que conheci, Roberto Perfumo. Este foi um zagueiro espetacular , completo. Contra , eu cito o Elias Figueroa do Internacional, Luis Pereira um jogadorzaço, um que jogou no Cruzeiro e Atlético o Procópio. Este era tipo Luisão Pereira, tinha tecnica e uma garra impressionante.

16) Você é até hoje o maior artilheiro do Cruzeiro contra o Atletico na era moderna. Qual foi seu clássico inesquecivel?

Teve um jogo se não me engano em 67 onde o Cruzeiro estava desfalcado de 5 titulares e eu fiz os dois gols e vencemos assim mesmo por 2x1.Nesta época o Atlético não ganhava da gente e neste jogo pelos desfalques pensamos que seria o dia deles mas fomos vitoriosos mesmo assim.
OBS: Este jogo foi realizado em 28/09/1969 o Cruzeiro venceu por 2x1 e entre outros jogaram no time celeste Raul Fernandes, Zé Carlos Merola, Morae e Darci. Não jogaram Fontana, Mario Tito, Tostão e Natal. Os dois gols foram de Dirceu.

17) Dizem que em 73 com a venda de Pelé ao Cosmos o Santos tentou te contratar para substitui-lo. Foi verdade e se foi porque não deu certo a transferencia?

É verdade sim. Quando o Pelé foi para o Cosmos, o Santos precisava de um jogador que se encaixasse no perfil dele tanto pra jogar como para as propagandas que o Pelé fazia. No entanto o Cruzeiro não me liberou. Mas confesso que eu nunca tive vontade de sair do Cruzeiro, aliás eu não me preocuoava em ganhar mais em outro clube.. Eu estava satisfeito e era tudo o que eu queria na vida, vestir a camisa do Cruzeiro.

18) Em 77 você foi emprestado ao Fluminense naquela que seria a terceira geração da Maquina Tricolor dirigida por Francisco Horta. Estavam neste time alem de você, Marinho Chagas, Cesar Maluco, Doval, Wendell entre outros. Porque não deu certo este time?


É , no caso do Fluminense eu aceitei pois vinha de uma contusão muito grave, no tendão de Aquiles. Eu fiquei um ano e meio parado e então ficava aquela coisa de joga, não joga, está inutilizado para o futebol. A imprensa cobrava demais e então surgiu esta oportunidade. Eu pensei que seria bom pois eu precisava sair de Belo Horizonte, tomar novos ares e neste aspecto foi muito bom a minha ida. Infelizmente eu saí de um clube que sempre foi uma família e cheguei no Fluminense quando a Máquina estava sendo desmontada. Eu vivi ali uma nova experiência que eu não estava acostumado com grupinhos dentro do clube. Tinha jogo no Maracanã com 100 mil torcedores em que um não dava a bola pro outro. Um se achava melhor do que o outro e isto me magoou profundamente. Me arrependi de ter ido para o Flu mas de qualquer forma eu conheci um dos maiores dirigentes do futebol, o Francisco Horta que me recebeu de uma maneira muito especial. Tive outros grandes amigos como o Renato goleiro que jogou também no Atlético, o Luis Carlos que jogou no Vasco e foi também para o Fluminense.......o próprio Rivelino que já tinhamos convivência da seleção, o Doval centro avante argentino do qual eu fiquei muito amigo, tinha também o Miguel. Então por este lado valeu muito mas em termos de futebol para mim foi uma experiência muito amarga e não foi bom.

19) A Copa do Mundo está aí Dirceu. Você gostou da convocação do Dunga ou acha que outros jogadores mereciam estar neste grupo?

Num país do futebol como o Brasil é difícil agradar a Gregos e Troianos. É impossível, sempre vai faltar alguém que a gente gostaria de ter na seleção. Mas eu gostei da firmeza do Dunga, ele priorizou o conjunto. O caso por exemplo do Adriano no meu modo de entender, não tinha que convoca-lo mesmo. Ele já tem antecedentes e na ultima copa do mundo ele saiu na noite pra balada. E ele não vem se cuidando e não será agora em 20 dias que ele vai se cuidar. Achei portanto correto. Os únicos jogadores que eu gostaria de ver são o Ganso e o Neymar mas as explicações do Dunga são aceitáveis dizendo que eles até então não tiveram oportunidade na seleção e como será o comportamento deles na Copa do Mundo? E eu concordo com ele . Agora o Ronaldinho Gaúcho, não sei se porque sou fã dele, mas eu gostaria de te-lo na seleção mesmo porque é um jogador muito respeitado. Não sei como estará o Kaká mas seria o substituto ideal do Kaká. O Dunga é muito a favor do futebol força e eu já sou a favor do futebol que o Santos está jogando hoje aí, encantando a todos. Pena que não vai muito tempo pois não tem como segurar estes jogadores.

20) Alguns dizem que Messi tem um estilo de jogo bem parecido com o seu, partinda de tras com a bola dominda e dribles curtos sempre em direção ao gol. Você acha os estilos parecidos?

Não, eu não acho. Na forma de jogar sim pois eu sempre fui jogador de jogar em direção ao gol mas o Messi é mais talentoso do que eu. Messi se assemelha muito a Maradona e é gênio. Eu o admiro muito porque hoje muitas vezes o jogador passa a ser mais famos pelo que ele fala fora do que o que ele faz no campo. Ele é o contrario. É de uma simplicidade fora do normal, é o maior do mundo e joga calado, impresionante.
(Eu então comentei com Dirceu que concordo com quase tudo que ele disse exceto que o Messi tem mais habilidade do que ele)

Habilidade ao conduzir a bola.

21) Lembre de 2 ou 3 grandes times que você viu jogar.

Indiscutivelmente o Santos que foi o maior contra quem eu joguei. Não sei se pelo prazer de jogar vendo o Pelé em campo mas também por tudo que eles conquistaram. O Botafogo de Garrincha também. Estes foram os dois maiores times que vi. Depois teve o Botafogo de Gerson, Rogério, Paulo César e a Academia do Palmeiras com Ademir, Dudu, Luis Pereira, Leivinha um timaço também. Este travamos grandes clássicos.

22) Pra finalizar foi uma honra ter você como nosso entrevistado , um jogador a quem eu sempre admirei pelo brilhante futebol e especialmente como pessoa. Um homem humilde, simples, de caráter e amor ao clube que defendeu. Um jogador que teve seus pés registrado na calçada da fama no Mineirão recentemente.Obrigado Dirceu!

Eu é quem agradeço pela iniciativa que vocês estão tendo em resgatar a historia dos jogadores e mostra-la ao publico para que possam sempre se lembrar do que fizemos. Quero lembrar que alem da calçada do Mineirão fui agraciado como um dos 50 Notaveis do Maracanã. Em 2000 estive lá e isto é motivo de muito orgulho para mim.
OBS: Dirceu Lopes fez questão de me acompanhar até no saguão na descida das escadas , fez questão de me convidar a ir a casa de sua mãe conhecer seus trofeus e lembranças. Durante os 10 minutos em que nos falamos fiquei impressionado de ver o carinho e respeito com que é tratado por todos. Cada pessoa que subia ou descia as escadas Dirceu comprmentava , dava as mãos e recebia em troca o mesmo carinho. Notei que algumas moças o chamavam de "Principe" o seu apelido na época de futebol (Rei era Pelé). Teve 3 atleticanos que lhe cumprimentaram e brincaram com ele dizendo que ele fez muita raiva neles. todos riram.
Este é Dirceu Lopes.

sábado, 15 de maio de 2010

O Craque disse e eu anotei - OBERDAN CATANI

Entrei em contato com o Oberdan Cattani via telefone. Ele aceitou de imediato a entrevista. Marcamos para quinta-feira a noite, dia 13/05/2010. Antes de entrevistá-lo, conversamos bastante, deixando ambos bem à vontade para a matéria. Gravamos no seu quarto de recordações, onde pude testemunhar o quanto ele é palmeirense, com belas recordações do se passado que ele tanto se orgulha.
Com 90 anos, Oberdan é muito lúcido e sábio, mostrando muito conhecimento e vivência sobre futebol em qualquer época. Ele ficou emocionado por ser lembrado e concedeu com muita satisfação e simpatia a entrevista.
Confiram a matéria.

1)Como foi o seu primeiro contato com o futebol?
Lembro bem. Nasci na cidade de Sorocaba, interior de São Paulo. Perdi meu pai com 12 anos de idade. Jogava no clube escolar. Cheguei a jogar na linha. Fui caminhoneiro. Viajava pra São Paulo e Curitiba. Assistia os jogos no Palestra Itália. Devo muito ao meu irmão, Athos, que também foi goleiro em Sorocaba. Éramos em 8 irmão, todos falecidos.

2) Qual foi o goleiro que te inspirou?

Jurandir e Batatais. O Jurandir era um senhor goleiro. Outros grandes goleiros foram Barbosa e Gilmar. O próprio Leão também foi um bom arqueiro. O Brasil é um celeiro de grandes goleiros.



Oberdan e Mauricio num bate papo descontraído


3) Fale sobre a sua chegada ao Parque Antarctica em 1940.

A chegada foi normal. Quando fui fazer o primeiro treino, haviam 15 goleiros. Achei que, com tantos goleiros, não daria tempo pra mostrar algo. O técnico da época, Caetano de Domênico, gostava de atirar as bolas com as mãos para os goleiros, insinuando. Caso o goleiro não pegasse, ele mandava trocar para o próximo. Eu fui o último. Já estava com este sistema de treino em Sorocaba. A primeira bola que ele jogou, peguei com uma mão só e com ela batendo no chão. Devolvi a boa pra ele, que disse uma palavra em Italiano que eu não entendi. Depois jogou a bola para o lado esquerdo, fui lá em cima e agarrei com as duas mãos, pois tinha muita facilidade pra essas coisas. Ele gostou e me pôs logo pra treinar. Fiz um ótimo treino e todo mundo gostou. Tive que começar no Segundo Quadro. Tinha na ocasião propostas do Corinthians e do Santos. Estava muito difícil vir de Sorocaba. Portanto o contrato foi até o final de 1940 e, no ano seguinte, já estava no Primeiro Quadro.
O Segundo Quadro era um timaço com Rolando, Eliseu e Silas. Muita gente ia mais cedo ao Pacaembu para nos ver jogar.

4) O episódio da mudança do nome de Palestra Itália para Palmeiras, em 1942, o magoou? Comente sobre isso.

Estavamos concentrados numa chácara na cidade de Poá. Foi lá que recebemos a notícia que o nome havia mudado para Palestra de São Paulo. Quando falaram isso na reunião, teve jogador que até chorou. O Brasil estava em guerra contra a Itália. Mas era do outro lado do mundo, não tínhamos nada a ver com isso. Havia um time conhecido como Palmeiras, que foi fechado. Então um diretor sugeriu o nome de Sociedade Esportiva Palmeiras, sendo que os dirigentes e jogadores concordaram. Estreamos contra o São Paulo com aquela vontade de ganhar. O Waldemar de Brito fez o primeiro gol são paulino. Viramos para 3 a 1. No Segundo Tempo, aos 20 minutos, houve um pênalti a nosso favor. O Luizinho, que jogou no Palestra, sendo campeão em 36 e 40, pegou a bola e não deixou que batêssemos a penalidade. O juiz esperou acabar o tempo. Morreu o Palestra invicto e nasceu o Palmeiras campeão.

5) Diga a equipe do Palmeiras que o Senhor mais gostou.

Foi o time de 1942. Jogavam Oberdan, Junqueira e Begliomini; Zezé Procópio, Og Moreira e Del Nero; Cláudio, Waldemar Fiúme, Echevarrieta, Villadoniga e Lima. O Cláudio foi o mesmo que jogou no Corinthians. Muitos dirigentes não o queriam no Palmeiras, porque achavam ele muito baixinho. O Corinthians contratou ele, formando a maior ala-direita do futebol brasileiro na época, com o Luizinho Pequeno Polegar, dois jogadores extraordinários.

6) Na sua época existiam nas escalações das equipes as chamadas linhas-médias . O Corinthians tinha Jango, Brandão e Dino. No São Paulo brilhavam Bauer, Rui e Noronha. E no seu Palmeiras jogavam Zezé Procópio, Og Moreira e Del Nero. Qual foi a que mais te agradou?

Nossa Senhora! Voto em Jango, Brandão e Dino. Jogavamos na Seleção Paulista. O Jango era forte, sendo que o atacante passava mas a bola ficava. Brandão era mais firme, difícil de passar por ele. E o Dino era o mais clássico.


7) Comente sobre sua passagem pela Seleção Paulista.

Tive um recorde pela Seleção Paulista, pois fui convocado de 1941 a 1952. Conquistei um Bicampeonato. Fui titular absoluto, sendo que haviam outros grandes goleiros. Em 52 pedi dispensa, ano que a Seleção Paulista também foi campeã. O Palmeiras iria excursionar no México, sendo que só viajavamos pra América do Sul. Queria conhecer outros países. Fiquei durante 15 dias lutando pra conseguir esta dispensa, mas o Paulo Machado de Carvalho não queria. Ela acabou aceitando e eu fui com o Palmeiras para o México.

8) Quais foram os melhores zagueiros que atuaram ao seu lado e os mais perigosos atacantes que enfrentou? Fale sobre eles.

Tive a felicidade de jogar com Domingos da Guia, Norival, Newton Carregal e Agostinho (Corinthians). O que mais gostei foi o José Junqueira de Oliveira. Bola na área, pulava muito bem de cabeça e dava carrinhos na bola sem tocar o adversário. Joguei também com Caieira, Begliomini e Turcão. Foram ótimos beques .
Nossa, a linha de ataque do Corinthians com Lopes, Servílio, Teleco, Joane e Carlinhos. Eu enfrentava o São Paulo com Luizinho, Sastre, Leônidas, Remo e Teixeirinha. O Santos com Antoninho, Odair e Rui. Cada jogador extraordinário.
No Rio de Janeiro haviam o Ademir e o Chico. O Fluminense com Pedro Amorim, Romeu, Tim e Carreiro. Senhores jogadores de futebol. O Heleno de Freitas, que jogou comigo na Seleção Brasileira, ele era fogo e cabeceava muito bem. Tesourinha e Zizinho também eram muito bons.


9) O senhor foi poucas vezes convocado para a Seleção Brasileira. Comente a sua passagem. Sua não-convocação para a Copa do Mundo de 1950 foi injusta? O goleiro Barbosa foi culpado pela derrota?

O maior culpado foi o técnico Flávio Costa. Deixou o zagueiro Mauro Ramos de Oliveira de fora e botou o Juvenal. Trocou o Noronha pelo Bigode na lateral-esquerda. O Barbosa não teve culpa. Ainda bem que depois ele saiu da Seleção. Eu estava inscrito com o Barbosa e o Castilho, mas ele não me levou.



Oberdan mostra as mãos que tantas alegrias deu a torcida palmeirense



10) Oberdan era um grande defensor de pênaltis. Havia aquele jogador que dava as cobranças de penalidades e faltas?

O Servílio batia bem falta. No Rio de Janeiro tinha o Lelé, que batia quase do meio-de-campo, tinha um canhão no pé. Fui muito feliz nos pênaltis. Tinha facilidade. Quando joguei no Juventus, em sete cobranças, defendi cinco. Peguei um pênalti do Cláudio, que nunca perdia. Ele bateu à meia altura e mandei para escanteio. Pra mim foi uma honra, pois o Cláudio também batia bem as faltas, eram cobranças colocadas e não com força.

11) O senhor tem muito orgulho da conquista palmeirense da Taça Rio de 1951. Sente mágoa por não ter disputado as partidas finais?

Eu fui reserva do Fábio. Torci muito por ele, que era treinado por mim. O Fábio foi muito bem na Copa Rio. Fui afastado após o primeiro jogo contra a Juventus da Itália, no Pacaembu, que defendi até pênalti. Eu sei que fiz o meu papel como goleiro do Palmeiras.

12) Porque saiu do Palmeiras em 1954?

É lamentável falar sobre isso, mas peguei um presidente que não estava à altura do Palmeiras. Ele viajou comigo em 1945 com a Seleção Brasileira a convite. Disputei a posição e fui considerado o goleiro mais regular. Recebi propostas. Ele dizia que eu nunca sairia do Palmeiras e encerraria a carreira lá. Era o diretor da época. Tinha uma proposta fabulosa pra jogar no México. Quando ele tornou-se presidente, mudou completamente a sua personalidade. Eu estava machucado. Mandou um telegrama pra eu comparecer em uma reunião no Palmeiras. Recebi uma carta dele dizendo que estava dispensado, recebendo passe-livre. Ele que falava que eu nunca iria sair e fez uma carta para mim! O que eu podia fazer? Fiquei revoltado na hora, tive vontade de pegar uma cadeira e dar na cabeça dele. Despedi-me dos amigos. Fui pro meu carro e comecei a chorar. Muitos diretores também se revoltaram. Quando cheguei em casa, minha esposa achou que eu tinha renovado o contrato. Está aqui (mostrando a carta) a minha renovação. A Ponte Preta queria me contratar.

13) Fale da sua passagem pelo Juventus.

Foi um ano maravilhoso no Juventus. Chegava no interior, parecia que ainda estava no Palmeiras, os torcedores vinham me ver, alguns revoltados pela minha saída. Certa vez enfrentei o Palmeiras no próprio Parque Antarctica. Fui aplaudido pela torcida.


Oberdan com o livro contando
a sua historia. Mauricio com a
camisa da FTT


14) Os três grandes goleiros palmeirenses após a sua saída foram VNegritoaldir de Moraes, Leão e Marcos. Qual deles o senhor mais gostou?

Sou mais o Valdir de Moraes. O Leão também foi um grande goleiro.

15) O que achou de Ademir da Guia e das duas Academias das quais ele jogou?

Ele como jogador e ser humano são maravilhosos. É sempre prestativo quando nos encontramos. Foi um craque extraordinário. Sem dúvida as duas Academias foram fabulosas. Quem viu estes times e vê o time de hoje, sente muita diferença.

16) E a fase da Parmalat?

Foi muita boa, sem dúvida. Jogadores maravilhosos nesta época. Estavamos muitos anos sem títulos. Contratou jogadores a altura do clube. É muito triste para o torcedor assistir o Palmeiras atualmente.

Oberdan e sua tradicional camisa

17) Qual é o seu conselho para os goleiros atuais?

Não sei se posso dar conselho. Hoje eles tem treinamento especial. Na minha época não tinha. Eu ficava no gol e os atacantes chutando pra mim.

18) O que espera do futuro do Palmeiras e da Seleção Brasileira?

Eles tem que contratar mais jogadores, para ser igual ao Palestra Itália, que os torcedores tinham orgulho de ver jogar. Na Seleção Brasileira tem muita questão política, os estrangeiros não estão tão bem, mas torcerei pelo Brasil.

19) O senhor tem uma história muito bonita pelo Palmeiras. Acredita que receberá o merecido busto?

Eu fui jogar no Juventus e enfrentei o Palmeiras, portanto não ganharei o busto. Não faço muita questão, eu já tenho um troféu com minhas mãos. Eu agradeço tudo isso ao ex-presidente Mustafá Contursi. Ele reconheceu tudo o que fiz para o Palmeiras. Tenho minha mão lá, o que vale muito. O busto ficará nos jardins só tomando sol e chuva. Também fui homenageado no Juventus com diploma, sendo que joguei apenas um ano La. Continuarei sempre torcendo para o Palmeiras.
Reportagem: Mauricio Sabará Markiewicz

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Craque da Semana - " ZÉ CARLOS"

Ele foi o jogador a vestir o maior numero de vezes a camisa do Cruzeiro com 619 partidas e marcou 87 gols. O ex-volante foi campeão em duas grandes conquistas da Raposa: a Taça Brasil de 1966 e a Copa Libertadores de 1976. Participou de duas grandes gerações do Clube uma quando inicou sua carreira e jogou ao lado de feras como Procopio, Piazza, Dirceu Lopes, Tostão e Natal e a outra já com Nelinho, Eduardo, Jairzinho, Palhinha e Joãozinho.


O reconhecimento do "Kaiser" Beckenbauer que ficou encantado
com o futebol praticado por Ze Carlos na final do mundial de 76.
Ao final do jogo trocaram as camisas e deram um aperto de mão.


O estilo clássico de conduzir a bola.

Zé Carlos é considerado como um dos volantes mais clássicos na historia do futebol brasileiro. Jogava de cabeça erguida e raramente fazia uma falta desleal. Seu futebol era tão eficiente e eficaz que logo que começou a treinar no Cruzeiro chamou a atenção do tecnico Airton Moreira . Apesar de ter um meio campo formado com 3 craques com Piazza, Dirceu Lopes e Tostão o tecnico cruzeirense começou a lançar em varias partidas Zé Carlos. Era o curinga que tanto podia entrar no lugar de Dirceu lopes mais a frente como de Piazza mais atrás.


Ze Carlos em 1976 campeão da Libertadores.

Porem foi em 1969, que o então técnico Gérson dos Santos acabou com o problema. Audacioso, lançou o sistema que chamava de "quadrado", no qual os quatro jogavam juntos. Tostão foi deslocado para jogar no ataque e o esquema deu certo. Não tinha como dar errado e o que podia ser chamado de super time virou uma verdadeira seleção de gala.
Durante os mais de dez anos que permaneceu no clube, Zé Carlos conquistou de tudo: Campeonatos Mineiros (nove no total), uma Taça Brasil e uma Libertadores.
 
Habilidoso, Zé Carlos antevia as jogadas e executava passes e lançamentos preciosos. Outra qualidade sua eram as cobranças de falta e as finalizações a gol.
"Eu me preocupava com a técnica porque é o que tem de prevalecer em qualquer jogador de meio-campo. Se eu errasse mais de três passes em um jogo, voltava para casa com raiva de mim mesmo, até se ganhasse prêmios e fosse elogiado por colegas", comenta Zé Carlos.

SELEÇÃO BRASILEIRA

Ze Carlos após se destacar no Cruzeiro e ajudar o clube a ganhar a Taça Brasil em 1966 foi convocado em 68 para a seleção brasileira formada apenas por jogadores mineiros e que venceram a Argentina por 3x2. A seleçaõ foi escalada assim: Raul [Cruzeiro]Pedro Paulo [Cruzeiro]Djalma Dias [Atlético-MG]Procópio [Cruzeiro]Oldair [Atlético-MG]Zé Carlos [Cruzeiro]Dirceu Lopes [Cruzeiro]Natal [Cruzeiro]Tostão [Cruzeiro](Dirceu Alves) [América-MG]Evaldo [Cruzeiro]Rodrigues III [Cruzeiro].

Ze Carlos foi um dos melhores em campo e acabou atraindo a atenção do então tecnico da seleção Aymoré Moreira. Passou a ser convocado em diversas partidas como no empate contra a Alemanha quando entrou no segundo tempo no lugar de Gerson e foi novamente um destaque.

Já no periodo de João Saldanha foi convocado inumeras vezes.

Disputou em 1975 como titular absoluto a Copa America formada por jogadores mineiros que representaram o país na competição e acabaram vice campeões no cara ou coroa.


Ze Carlos em partida contra o Peru pela Copa America 75


A SUA IDA PARA O GUARANI E O TITULO BRASILEIRO

Em 1977, aos 32 anos, ele já era considerado um veterano no Cruzeiro e, assim, foi negociado com o Guarani. A transferência fez bem ao jogador, que foi um dos destaques do time de Campinas na conquista do Campeonato Brasileiro de 1978. Formou no Bugre um outro meio campo que fez historia no futebol brasileiro com Renato e Zenon e tendo a linha de ataque formada por Capitão, Careca e Bozó.


O time encantou a todos pelo jeito ofensivo de jogar e Ze Carlos era quem ditava o ritmo daquele meio campo com sua experiencia. O time formado por jovens jogadores se espelhava no volante que tantos titulos ganhou pelo Cruzeiro.

A equipe acabou ganhando o campeonato brasileiro escrevendo seu nome na historia dos grandes campeões.
Jogou pelo Cruzeiro: 11 anos (1966 – 1977)
Títulos pelo clube: Taça Libertadores da América em 1976; Taça Brasil em 1966 e Campeonato Mineiro em 1966, 1967, 1968, 1969, 1972, 1973, 1974, 1975 e 1977
Jogou pelo Guarani :2 anos (1977 - 1978)
Titulos pelo clube: Campeõnato Brasileiro 1978
Outros clubes pelos quais atuou: Sport (Juiz de Fora), Vila Nova (MG), Botafogo, Bahia, Uberaba e Mogi Mirim.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Esquadrão Inesquecivel - GRÊMIO 1962

O ano de 1962 foi inesquecível para o tricolor gaucho. Campeão gaucho , retomando a hegemonia do estado perdida no ano anterior para o Inter e campeão Sul Brasileiro.
O time tinha como base o esquadrão que foi penta campeão de 1956 a 60 aliado a novos e promissores jogadores.



O forte plantel gremista a partir da esquerda:
Pedro da Silva Pereira (presidente), Luiz Carvalho (vice de futebol), Valerio, Renato, Sergio, Jorge, Ortunho, Altemir, Airton Pavilhão, Almir, Mourão, Irno, Henrique. Agachados:
Sergio Moacir (tecnico), Drico (massagista)Adroaldo, Tesourinha II, Marino, João Severiano, Juarez, Milton, Fernando, Gilnei, Vieira e Ataide Carvalho (massagista)

O time tinha inumeros bons atacantes e o treinador e ex atleta do clube Enio Rodrigues aproveitava os em quase todas as partidas. Ora jogava Ivo Diogo, em outras Paulo Lumumba que acabou sendo o artilheiro do campeonato com 13 gols alem de Milton, Juarez, Joãozinho e Vieira.
A equipe gremista enfrentou seu arquirival por 3 vezes no campoenato e não perdeu nenhuma. No primeiro turno empate em 0x0 , no returno dentro do estadio dos Eucaliptos vitoria tricolor por 2x0 e por fim na decisão desta vez no Olimpico uma vitoria inesquevivel por 4x2.
O campeonato só foi decidido em 1963.

Grêmio 4 x 2 Internacional

07 de fevereiro de 1963
Olímpico, Porto Alegre (RS).

Gols: Ivo Diogo (2), Joãozinho e Vieira para o Grêmio e Flávio Minuano e Soligo para o Inter
Arbitragem: Eunápio de Queiroz. Público: 50 mil (aproximadamente).

Grêmio: Henrique; Renato, Aírton Pavilhão, Altemir e Ortunho; Élton e Milton Kuelle; Marino, Joãozinho, Ivo Diogo e Vieira. Técnico: Sérgio Moacir Torres.
Internacional: Gainete; Zangão, Ari Hercílio, Cláudio Danni e Soligo; Bandeira (Piloto) e Osvaldinho, Sapiranga, Flávio Minuano, Mauro e Gilberto Andrade. Técnico: Abelard Jacques.
Paulo Lumumba foi o artilheiro com 13 gols.

CAMPEÃO SUL BRASILEIRO
Em 1962, a Federação Rio Grandense de Futebol em parceria com o governo do Estado do Rio Grande do Sul e as Federações de Futebol do Paraná e Santa Catarina organizaram o 1º Campeonato Sul-Brasileiro de futebol, também chamado de Taça da Legalidade, uma homenagem ao movimento honônimo que visava empossar o Vice-Presidente João Goulart no lugar do Presidente Jânio Quadros que renunciara.
A campanha tricolor neste primeiro campeonato, que reuniu as forças máximas do sul do país, foi brilhante. Em dez jogos foram obtidas sete vitórias e apenas 3 empates. O título foi decidido antecipadamente em Itajaí-SC, num empate em 0x0 com o Marcílio Dias que foi o vice-campeão.
O último jogo foi o clássico Gre-Nal no estádio dos Eucalíptos com sua lotação esgotada, pois, o arquirival estava empenhado em macular a campanha tricolor com uma vitória sobre o Campeão. De fato, aos 11min, o ponteiro direito Sapiranga abria o placar para os colorados.
Contudo, o time vermelho não contava com a reação tricolor, virando o jogo através de Joãozinho aos 25 minutos da etapa final e Vieira, no minuto final, decretando o título invicto. A festa gremista culminou com a entrega da Taça da Legalidade feita pelo então governador gaúcho Leonel Brizola. Além deste troféu o Grêmio ganhou outras três taças das respectivas Federações Estaduais organizadoras do campeonato.
O paulista Romualdo Arppi Filho foi o arbitro da partida.



O tricolor entrando em campo no Estdaio dos Eucaliptos.
Ortunho e Airton Pavilhão, dois jogadores de seleção brasileira
e que ajudaram a defesa tricolor a sofrer apenas 4 gols.

Airton Pavilhão foi um dos herois na final contra o Inter
e que gerou a conquista do Sul Brasileiro


Vieira faz o gol da vitoria e é abraçado pelos companheiros.

Em pé: Sérgio, Ortunho, Elton, Aírton, Irno e Mourão
Agachados: Adroaldo, Joãosinho, Gessi, Milton e Vieira

Tabela de jogos do Sul Brasileiro
26/01
Est. Olímpico
Grêmio 3 x 0 Metropol (SC)
04/02
Ponta Grossa PR
Grêmio 1 x 0 Operário (PR)
06/02
Curitiba PR
Grêmio 2 x 0 Coritiba (PR)
09/02
Olímpico
Grêmio 3 x 0 Marcílio Dias (SC)
13/02
Olímpico
Grêmio 1 x 1 Internacional
19/02
Olímpico
Grêmio 2 x 0 Coritiba (PR)
23/02
Olímpico
Grêmio 4 x 1 Operário (PR)
28/02
Criciúma SC
Grêmio 1 x 1 Metropol (SC)
03/03
Itajaí SC
Grêmio 0 x 0 Marcílio Dias SC
11/03
Est. dos Eucalíptos
Grêmio 2 x 1 Internacional

Técnico: Ênio Rodrigues


Campanha
Jogos = 10
V = 7
E = 3
D = 0
GP = 19
GC = 4

Goleadores do Grêmio
Vieira =4
Élton = 3
Juarez = 3
Marino = 3
Milton Kuelle = 2
João Severiano = 2
Ribamar = 1